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Haverá sempre uma esperança

"Senta-se ao lado dele sem pedir licença, pergunta-lhe se precisa de ajuda"
Tiago Rebelo 18 de Agosto de 2013 às 15:00
Tiago Rebelo, escritor

Estão sentados no bar a tomar um refrigerante, vendo a praia cheia de gente ali à frente. Trocam uma palavra breve, um sorriso, uma carícia, mas basta-lhes a companhia um do outro, em silêncio, para sentirem uma tranquila cumplicidade.

Ele, por vezes, ainda a observa com perplexidade ao recordar o que aconteceu há um ano apenas. Há um ano estava à beira do abismo, a um passo da morte, e não se cansa de lhe dizer: apareceste para me salvar. Ela sorri. Sabes bem que também me salvaste, responde-lhe sempre.

Foi um encontro providencial. Ele apercebeu-se de que se lhe acabou a reserva de álcool em casa já a noite ia avançada. Apesar de ter passado o dia a beber, teve um acesso de pânico, pois sabia que teria as mãos a tremer pela manhã e nem conseguiria pensar enquanto não tomasse nada. Já faz parte da rotina, um copo de algo bem forte e dois cigarros ao acordar. Caso contrário, é um sofrimento.

Recorre à bomba de gasolina mais próxima. Pede uma garrafa de uísque através do vidro de segurança, paga, recebe-a pela caixa de trocas. Mais tranquilo, dá um passo atrás, mas não vê o rebordo do passeio, desequilibra-se e deixa cair a garrafa, que se estilhaça no chão. Desapontado consigo próprio por ter dificuldade em evitar estes incidentes, regressa contrariado para comprar outra garrafa. Tem de esperar que a mulher que o antecedia na fila acabe de pagar o combustível. Quando esta se afasta, faz o pedido, mas o funcionário olha para o relógio e diz-lhe que entretanto passou a meia-noite e já não lhe pode vender álcool. Estupefacto, argumenta que foi um acidente. O funcionário, implacável, encolhe os ombros, é a lei, afirma. Perde as estribeiras, grita impropérios, dá murros no vidro.

O homem ameaça chamar a polícia e ele afasta-se desanimado. Vai sentar-se à beira do passeio e esconde o rosto nas mãos a perguntar-se quanto tempo mais aguentará, pois sabe que acabará por morrer em breve.

Ela entra no carro, senta-se ao volante, observa-o de longe. Mas, em vez de arrancar, segue um impulso, sai do carro e vai ao seu encontro. Senta-se ao lado dele sem pedir licença, pergunta-lhe se precisa de ajuda. Ele ergue a cabeça e responde-lhe com maus modos que o deixe em paz. Estou sozinha, não tenho ninguém, hoje saí de casa decidida a acabar com a minha vida, até o ver aqui. Diz esta frase brutal num tom quase indiferente. Ele, assustado, olha para ela e percebe, pelos seus olhos, que está a falar a sério.

Passou um ano e ali estão na praia. Ele já não bebe, ela já não está sozinha, e ambos sabem que haverá sempre uma esperança para os dois.

Tiago Rebelo escritor
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