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Hilda Hilst: obscena lucidez em poesia e prosa

Utilizou de forma primorosa a língua portuguesa para exprimir o erotismo
João Pedro Ferreira 28 de Abril de 2019 às 11:00

Hilda de Almeida Prado Hilst (1930-2004) foi uma das maiores escritoras de língua portuguesa da segunda metade do século XX, com obras de referência na poesia, romance, teatro e crónica. Publicou o primeiro livro de poemas, ‘Presságio’, aos 20 anos, ainda estudante de Direito na Universidade de   São   Paulo,   onde   ficou   amiga   de   outro nome   grande   das   letras:   Lygia   Fagundes Telles. Uma viagem pela Europa depois de terminar o curso levou-a a dedicar-se à literatura, não sem antes gozar os prazeres de uma vida boémia, que usou como matéria prima para a sua obra.

De regresso ao Brasil, fez construir numa propriedade da mãe, em Campinas, o refúgio onde passaria o resto da vida: a Casa do Sol. Ali escreveu a maior parte da sua obra, recebeu artistas e escritores, entregou-se a experiências relacionadas com a sua crença no espiritismo e recolheu cães abandonados – chegou a ter 150. Ali passou também a sua "fase   pornográfica":   poesias,   romances   e peças de teatro de conteúdo erótico fortemente gráfico, com utilização primorosa do vernáculo português respeitante ao sexo.

Merecem destaque os ‘Poemas Malditos, Gozosos e Devotos’, ‘Bufólicas’, ‘A Obscena Senhora   D’,   ‘O   Caderno   Rosa   de   Lori Lamby’ e ‘Contos d’Escárnio/Textos Grotescos’. Interrogando-se sobre a obscenidade de que era acusada, refletiu: "Obsceno? Ninguém   sabe   até  este domingo o que  é   obsceno. Obsceno   para   mim   é   a   miséria,   a   fome,   a crueldade, a nossa época é obscena."

Do livro ‘O Caderno Rosa de Lori Lamby’, Ed. Globo

Araras versáteis

"Araras versáteis. Prato de anémonas.

O efebo passou entre as meninas trêfegas.

O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.

Ela abriu as coxas de esmalte, louça e humedecida laca

E vergastou a cona com minúsculo açoite.

O   moço   ajoelhou-se   esfuçando-lhe   os meios

E   uma   língua   de   agulha,   de   fogo,   de
molusco

Empapou-se de mel nos refolhos robustos.

Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios

Quando no instante alguém

Numa manobra ágil de jovem marinheiro

Arrancou do efebo as luzidias calças

Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...

E   gozaram   os   três   entre   os   pios   dos
pássaros

Das   araras   versáteis   e   das     meninas
trêfegas."

Do livro ‘Contos d’Escárnio/Textos Grotescos’, ed. Globo
(...) Queria umas três vezes por noite o meu pau rombudo lá dentro. E antes desse meu esforço queria também a minha pobre língua se adentrando frenética naquela caverna vermelhona e húmida. Empapava os lençóis. Era preciso enxugá-la com uma bela toalha felpuda antes de meter na dita cuja. Na hora do gozo ria.

– isso não é normal Flora.

– bobinho!   Isso   é   vida,  alegria,   o   amor   é alegre, Crassinho.

(…) Claro que nem todas as ‘soi-disant’ cultas são assim tão chatas. (...) Uma delas é inesquecível. Josete. Inesquecível por vários motivos.   Mas   principalmente   pelo   gosto exótico na comida e no sexo. (…) Tinha mania de uma música: ‘You’ve changed’, e era aquela xaropada até às duas da manhã mais ou menos, quando eu já havia mergulhado meus   dedos   várias   vezes   na   sua   suculenta xereca. Abria discreta e elegante as pernas nas boates, embaixo da mesa, enquanto engolia com avidez aqueles vinhos caríssimos. (…) Muitas beliscadinhas, muito dedilhado até que ela gozava escondendo o gozo e simulando um segredo e enchendo de bafo, gemidos e saliva a concha do meu ouvido. Eu dizia com a caceta dura e espremida entre as calças:

– vamos embora, hen bem?

– tá tão gostoso, amor

– eu sei, Josete, mas olha só o meu pau

– não seja grosso, Crasso.

(...) Um tal de Ezra Pound, poeta norte-americano, era o xodó de Josete. (…) O cara era um bom fascistóide, você sabia?

– bobagens, Crassinho, o homem foi um génio.

(…) – tudo bem, Josete, se você gosta… ‘de gustibus et coloribus’ etc.

– pois gosto tanto, amor, que vou te mostrar a que ponto vai minha reverência por esse autor admirável (…) pegue aquela grande lupa lá na minha mesinha. (...)– Então peguei – faz um favor, benzinho, abra o meu cu. (…)

– não acredito no que estou vendo, Josete, você tatuou à volta do seu cu pra quê?

– homenagem a Pound, Crassinho.

– mas isso deve ter doído um bocado!(...)"

Namorada de Dean Martin
Numa entrevista ao jornalista brasileiro Cristiano Diniz,   Hilst   contou   que,   em 1957,   namorou   com   o   ator Dean Martin só para conhecer Marlon Brando.

Casa do Sol, Campinas
Em   1966   foi   viver para   uma   quinta onde   trabalhava   e recebia   escritores   e artistas. Ali funciona hoje o Instituto Hilda Hilst, dedicado à divulgação da sua obra.

Homenagem em Paraty
Hilst   foi   a   autora homenageada na   prestigiada Festa Literária   de   Paraty   (FLIP)
de 2018. A sua obra foi evocada   pela   atriz   Fernanda Montenegro.

Disco de Zeca Baleiro
O   cantor   musicou poemas   de   Hilst   no disco ‘Ode Descontínua   e   Remota   para Flauta   e   Oboé   –   De Ariana para Dionísio’, com a participação de Maria Bethânia.

Lori Lamby no cinema
A atriz Iara Jamra protagonizou a adaptação ao cinema do livro polémico ‘O Caderno Rosa de Lori Lamby’, realizado por Sung Sfai em 2005.

Hilda e os cães
A escritora gostava muito de   cães,   que   levava   para   a quinta à volta da sua Casa do   Sol.   Chegou   a   ter 150. Hoje   continuam   a   ser   lá acolhidos.

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