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Hiperactivos, os bons rebeldes

São crianças irrequietas, instáveis e incapazes de se concentrarem. Um segundo que seja. O que pedem é simples: não querem ser discriminados pela sociedade. Não estão a pedir muito.
28 de Janeiro de 2007 às 00:00
Sou uma hiperactiva crónica que aceita as suas diferenças”, confessa Linda Serrão, 39 anos, casada, presidente da Associação Portuguesa da Criança Hiperactiva e mãe de três rapazes também eles hiperactivos: Ricardo, com 14 anos, Bernardo, de 11, e Rodrigo, de 7. “Costumo dizer que somos uma casa cheia”, brinca.
Na adolescência, Linda não entendia por que razão era ‘diferente’ das outras meninas e tinha uma energia quase imprópria de rapariga. “Eu gostava de trepar às árvores como os rapazes, de fazer desporto e aguentar tanto ou mais que eles, enfim, sabia que era diferente, mas nunca entendi porquê”. Até ao dia em que lhe foi diagnosticada uma Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA).
A hiperactividade é uma doença, uma disfunção cerebral que atinge cerca de 50 mil portugueses. Manifesta-se em crianças e adultos e, em 30% dos casos, é genética. “Quando uma criança é hiperactiva não consegue parar quieta, não se concentra, e nenhuma actividade a satisfaz. Assemelha-se à conduta maníaca de um adulto”, explica a psicóloga Andreia Canto Moniz, especialista no tema. E prossegue: “Os miúdos não são mal-educados nem desobedientes, eles são realmente incapazes de se acalmar e buscam constantemente algo exterior para preencher o vazio interior que sentem.”
Ana Jeremias, 41 anos, divorciada, viveu anos consecutivos sem perceber por que razão o filho, Luís, hoje com 15, era irrequieto. “Era chamada quase todos os dias à escola e ele ia sistematicamente para a rua. Os professores punham-no fora da aula, diziam que ele perturbava”, recorda. Até que Luís foi expulso da sua escola. Ana desesperou. “Não compreendia por que razão expulsavam uma criança de 12 anos que não tinha sido mal-educada com ninguém”.
Lavada em lágrimas contou o que se passava a uma amiga. Foi a sua sorte. “Essa senhora estava habituada a lidar com hiperactivos e obrigou-nos a fazer testes”. Ana e Luís recorreram ao Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil (CaDIM), para fazer o despiste. O diagnóstico chegou pouco depois, por correio: Luís, 12 anos, hiperactivo e a necessitar de medicação. Hoje, a criança toma um comprido por dia, está mais calma e a mãe satisfeita: “Ainda ninguém me telefonou da escola…”
OS PRIMEIROS SINTOMAS
Os primeiros sintomas da hiperactividade são a falta de concentração, excesso de energia, impulsividade, dificuldade em estar quieto, incapacidade para concluir uma tarefa e esquecimentos frequentes. Curiosamente, em diversos casos, as crianças portadoras da PHDA têm um quociente de inteligência (QI) superior aos das crianças ditas “normais” da mesma idade.
Muitas vezes o que mais custa aos hiperactivos é a forma como a sociedade os trata. “Não é só a sociedade, a própria família às vezes não tem paciência”, ajuíza Ana Jeremias. “Custa-me imenso que digam que os meus filhos são diferentes”, reforça Linda Serrão.
Para José, 44 anos, e Carla, de 40, foi difícil aprenderem a lidar com Bruna, hoje com 11. “Ela ainda não tinha feito dois anos quando foi para o infantário. As educadoras já não sabiam que mais fazer”, recordam os pais. Era habitual Bruna desaparecer da sala, trepar para cima de árvores, deixar as torneiras da casa de banho abertas, incentivar a confusão no refeitório, recusar--se a dormir e destapar os outros meninos na hora da sesta (para os acordar).
“Em casa, ela era terrível”, diz o pai. E confessa: “Perdi muitas vezes a paciência. Só fazia disparates, uns atrás dos outros, não nos obedecia e nunca, mas nunca, estava mais de 5 minutos quieta. Não existia filme de vídeo que a contentasse”. Pouco antes da filha entrar para a escola, o casal procurou ajuda médica. Foi-lhe diagnosticada PHDA e os pais começaram a procurar informações sobre a doença e a lidar com a filha de outra maneira. Mas, enquanto os pais não souberam como tratar Bruna, e com o receio natural de terem outra criança semelhante, desistiram do segundo filho. “Houve uma época em que achámos que um irmão poderia ajudá-la mas esquecemos a ideia…”
Em 2005, o Instituto de Inteligência do Porto (ITP) realizou um estudo envolvendo 500 crianças com PHDA e concluiu: em 57% dos casos, a causa da doença estava directamente relacionada com o estilo de vida familiar; e em 33% com o stress. Crianças que raramente estão com os pais, com problemas no relacionamento com outras e com pouco tempo para brincar são, segundo o ITP, mais susceptíveis à PHDA.
Para o neuropsicólogo do ITP, um divórcio pouco pacífico pode afectar os filhos ao ponto de virem a sofrer de hiperactividade: “Muitas vezes os pais rivalizam-se e esquecem que os filhos devem ser, mais que nunca, alvo de amor e atenção. Muitas crianças hiperactivas são filhas de pais separados. Esta hiperactividade traduz o sofrimento afectivo em que vivem”, diz Nelson Lima.
A seguir ao diagnóstico, é essencial que a família compreenda que o comportamento de um hiperactivo não é intencional. Ana Jeremias, mãe de Luís, apesar de conversar com o ex-marido, não vê melhoras na relação pai-filho. “Ele não liga nem dá muita atenção ao comportamento do filho e este, por seu lado, não consegue aceitar que é diferente. Estão sempre em choque”.
ASSOCIAÇÕES DÃO APOIO AOS DOENTES
Há sete anos, Linda Serrão, hiperactiva crónica e assumida, 39 anos, casada, mãe de três filhos rapazes – todos eles hiperactivos – decidiu criar a Associação Portuguesa da Criança Hiperactiva (APCH). “Confesso que na época não fazia ideia no que me ia meter. Abracei o desafio e acreditei que era uma forma de partilhar experiências com outros doentes e alertar a sociedade”, afirma. Na verdade o desafio mostrou-se superável. Depois da associação ter funcionado em sua casa, Linda acabou por alugar um espaço. “Atendemos adultos e crianças e fazemos o despiste. Nunca recusamos ajuda a ninguém e lutamos diariamente para que a PHDA seja socialmente compreendida.”
Contactos úteis:
- APCH Associação Portuguesa da Criança Hiperactiva, Povoa de Santo Adrião; Contactos: a.p.h@netcabo.pt; Telefone: 219370005; Fax: 219374130
- CADIM Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil, em Cascais; Contactos: Telefone: 214858240
- IT Instituto da Inteligência, no Porto; Contactos: Telefone: 222038892
- Eicho Lisboa e Porto; Telefone: 917152011; e-mail: eicho@sapo.pt
As crianças, principalmente, precisam de compreensão, apoio, afecto para que o seu desenvolvimento seja afectado o menos possível e que cresçam saudáveis.
AJUDAR É COMPREENDER
Desaconselha-se a que uma criança seja obrigada a fazer uma tarefa mais tempo do que ela aguenta. Siga alguns dos conselhos, mas o melhor é compreender as atitudes do hiperactivo.
1:CRISES
É fundamental que o hiperactivo não se sinta excluído – primeiro, pela família e, depois, pela sociedade em geral. Daí a importância da afectividade familiar e de que sejam criadas estratégias para melhor lidar (ou prevenir) com as crises.
- Truque: Evite contrariar (sem explicar) qualquer atitude ou posição.
2: DIAGNÓSTICO
Às vezes basta identificar um ou dois ‘sintomas’ da doença na criança. Não existe uma idade para fazer a despistagem, porque os comportamentos podem associar-se a determinados contextos ou brincadeiras próprias das crianças.
- Truque: Depois de detectar os sintomas, procure um especialista.
3: TRATAMENTO
Os hiperactivos devem procurar um especialista (psicólogo, pedopsiquiatra, neuropsiquiatra, etc). Quando está medicado, o seu comportamento é completamente diferente de quando não está. Esta é uma forma de ter um dia-a-dia normal.
- Truque: Siga as indicações do médico especialista que o acompanha.
4: DESPORTO
As crianças com hiperactividade libertam uma energia superior à dos outros miúdos da mesma idade. Não é de estranhar que tenham particular aptidão para os desportos e é saudável que os pratiquem, mesmo para libertar energia.
- Truque: Procure saber o desporto que o seu filho gosta e inscreva-o.
5: COMPORTAMENTO
Muitas vezes confunde-se a criança hiperactiva com aquela que é malcriada e desobediente. É essencial não estigmatizar a criança, nem fazê-la sentir-se excluída. A afectividade é essencial e, para tal, é preciso mais compreensão.
- Truque: Procure compreender as necessidades da criança e ajudá-la.
6: GRAVIDEZ
Estudos recentes alertam para o facto de uma gravidez problemática interferir no desenvolvimento cerebral da criança. A hiperactividade é também uma doença genética. Não abuse de álcool ou drogas durante o período de gravidez.
- Truque: Um diagnóstico pré-natal pode apontar disfunções cerebrais.
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