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Norman Ohler : "Hitler tomava drogas para discutir com os generais"

Norman Ohler descobriu uma Alemanha toxicodependente em ‘Delírio Total’, o seu mais recente livro sobre o regime nazi.
Marta Martins Silva 16 de Junho de 2019 às 09:00

O Terceiro Reich pregava uma ideologia de pureza física e mental mas estava saturado de drogas, consumidas por todos, dos operários às donas de casa. Quando chegaram aos campos de batalha, as drogas influenciaram o curso da II Guerra Mundial... e da Europa.

Como é que a Alemanha se tornou um laboratório de drogas?
No   século   XIX, a Alemanha já tinha uma grande percentagem de população trabalhadora e estava a precisar de remédios e estimulantes. 

Não   tinha   colónias, como   outras   nações   europeias,   mas tinha uma indústria farmacêutica a funcionar e tentou criar nos laboratórios o que outros países como França, Bélgica ou Inglaterra, por exemplo, importavam das suas colónias.

No fundo, teve de fazer medicamentos para si própria, uma vez que não podia trazer plantas exóticas e curativas de outro lado.

Como é que uma ideologia que começa por tentar erradicar as drogas (e até tortura quem as consome) dá origem a uma nação drogada?
Entre 1933 e 1938 os nazis tentaram manter a Alemanha livre de drogas, mas em 1938 a pervitina – o estimulante mais poderoso do Mundo - surgiu no mercado. E quando apareceu começou a ser usado pelos trabalhadores alemães para conseguirem trabalhar mais horas.

Tornou-se logo interessante para o exército alemão porque a pesquisa feita com metanfetaminas mostrou que o consumo reduzia a necessidade de dormir e reduzia o medo. Havia um professor de fisiologia que trabalhava para o exército alemão que pensou que isto era perfeito para os soldados, porque não teriam de dormir e nunca mais teriam medo.

E, de repente, as drogas que tinham sido banidas pela ideologia inicial, que clamava por uma sociedade limpa,   tornaram-se   muito importantes. De certa forma, era como se a metanfetamina não fosse uma droga, os soldados usavam-na como nós usamos a aspirina ou o café.

O rumo da guerra, para o bem e para o mal, foi influenciado pelas drogas   que   os   soldados   tomavam?
Atacar França só foi possível graças às 35 mil doses de pervitina distribuídas pelas tropas – porque eles andaram   sem   parar   durante   três dias e três noites e só o conseguiram porque estiveram sem dormir durante esse tempo.

Houve também decisões cruciais no decorrer da guerra tomadas sob o efeito de droga?
No início da guerra as decisões básicas não foram influenciadas pelas drogas, mas sim pela ideologia do nacional-socialismo   que   queria conquistar a Europa, não podemos culpar as drogas. Mas podemos ver que Hitler, mais para a frente na guerra, especialmente em 1943 e 1944, usava muito uma droga específica, o eucodal, para ficar eufórico e ter energia para confrontar os seus generais que queriam mudar as táticas… Por isso, mais para a frente, as drogas vieram a condicionar as suas decisões, sim.

Por exemplo?
Quando   ele   ordena   a   segunda ofensiva nas Ardenas, em França, no início de 1945, esta decisão foi tomada depois de muitas doses de cocaína e conseguimos perceber isso porque foi uma decisão muito estúpida e não muito relacionada com a realidade [Hitler estava convencido de que seria capaz de dividir os Aliados: se chegasse a Antuérpia conseguiria obrigar os canadianos e os britânicos a saírem da guerra]. Hoje não sabemos se ele teria tomado a mesma   decisão   sem   cocaína.

Embora eu ache que Hitler teria sido muito parecido mesmo sem as drogas, basicamente ele usava as drogas para se manter tão estúpido como era sem elas. Talvez sem drogas ele tivesse tido consciência de que teria de ouvir mais   os   seus   generais,   mas   ele estava   sempre   cheio   das   suas convicções   e   as   drogas   potenciavam isso ainda mais.

Salazar também tomou eucodal…
A sério?

Há referências a isso. Acha que é uma característica comum dos ditadores?
Acho que ainda o fazem. Tenho a certeza de que Trump também usa drogas, especialmente estes opiáceos como o eucodal, que hoje se chama oxicodona e que é um produto legal na América, só precisa de uma receita médica.

E na Alemanha?
Na Alemanha um deputado do partido Os Verdes foi apanhado pela polícia com metanfetaminas. Acho que muitos políticos tomam ainda hoje drogas com esse objetivo. 

Eles não podem parecer cansados numa reunião e na guerra havia sempre reuniões de crise, todas as decisões de vida ou de morte… Kennedy também usou metanfetaminas. Hitler talvez tenha sido o primeiro.

É surpreendente que Salazar o tenha feito, talvez Franco o tenha feito também. De certeza que Salazar não achava que estava a usar drogas, achava que estava a tomar uma medicação que o médico dizia ser boa para ele, que lhe   daria calma e ao mesmo tempo energia, era assim que funcionava com Hitler.

Quais eram os efeitos?
Se for injetado, como Hitler fazia, podia estar deprimido que bastava uma injeção de 20 miligramas para se sentir bem, falar com clareza e ter muita energia. Numa reunião com 150 generais, todos deprimidos porque estavam   a   perder   a   guerra, Hitler chegava e era capaz de os convencer de que estava tudo bem. A energia que ele tinha graças à droga durava umas horas e quando estava pedrado ficava muito focado e convincente, não parecia nada louco.

Mussolini começou a usar drogas por causa de Hitler…
A embaixada alemã em Itália enviou um médico que se tornou médico   de   Mussolini.   Ele   não teve escolha.

Os   Aliados   aperceberam-se de que   os   alemães   combatiam drogados?
Os britânicos descobriram. Houve um artigo num jornal italiano que descrevia como os os pilotos alemães tomavam o comprimido da coragem, a pervitina, a BBC fez um documentário e foi discutido em Inglaterra e eles também descobriram pervitina em aviões abatidos. Houve discussões sobre isso, a RAF [força aérea britânica] fez testes e deu a alguns pilotos metanfetaminas e a outros speed.

Os ingleses, basicamente,   aprenderam   com   os alemães e também começaram a drogar-se, mas numa fase mais avançada da guerra. Acho que começaram em 1942. Aprenderam e copiaram, mas não tomaram a versão mais forte, era forte de mais para os ingleses (risos).

Hitler mostrava   sinais   de   dependência?
Ele   no   início   não   precisava   de drogas porque tudo corria bem. Ele só precisava quando tinha problemas, o que acontece com a maioria das pessoas que consomem. De certa forma, ele era um consumidor de drogas bastante típico .

As drogas influenciaram o destino da Alemanha?
Sim,   claro.   A   economia   alemã não seria tão forte sem a indústria farmacêutica e sem as drogas. E os sucessos iniciais da 2ª Guerra Mundial foram sem dúvida estimulados por estas drogas: sem elas a guerra teria sido mais curta. Por isso, as drogas moldaram   o   destino   não   só   da Alemanha mas de toda a Europa.

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