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Correio da Manhã

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HOI AN: O VIETNAME EM TONS GARRIDOS

Elegante e descontraída, Hoi An atrai cada vez mais visitantes e recupera o esplendor da sua época áurea revelando ao mundo maravilhosos tesouros da arquitectura vietnamita e colonial
4 de Outubro de 2002 às 18:39
Quase todas as recém-criadas agências de viagens vietnamitas vendem um bilhete de “open tour” que permite percorrer a longa costa do Vietname de cima abaixo, desde Hanoi a Ho-Chi Mihn City. Uma das paragens obrigatórias é Hoi An, também conhecida por Faifo, uma pequena e antiga cidade do Sudoeste asiático que, durante os séculos XV, XVI e XVII, foi dos maiores entrepostos do comércio entre o Ocidente e o Oriente. Não é que o bilhete imponha que aqui se saia, mas o ambiente ao mesmo tempo descontraído e atarefado das suas ruas coloridas é mesmo único no Vietname.

Já recuperados de mais uma aventura rodoviária (ainda por cima nocturna), saímos direitos ao velho bairro do comércio, uma zona que havia recentemente obtido o estatuto de Património Mundial da UNESCO. E bastaram uns minutos a passear para perceber porquê. Longas filas de pitorescas casas térreas, de telha e paredes garridas, cruzavam-se para cá e para lá formando ruas arejadas com passeios largos. Uma dessas ruas, repleta de lojas de roupa e alfaiataria levou-nos às imediações do rio Thu Bon e do mercado que se estende ao longo das suas margens.

É curioso pensar que neste mesmo rio, agora cheio de barcaças com a bandeira vietnamita orgulhosamente asteada, ancoravam imponentes embarcações portuguesas que carregavam seda, jóias, porcelana, pimenta e canela. E mais ainda é saber que a importância comercial de Hoi An se perdeu no século XIX, quando os sedimentos acumulados na foz diminuiram drasticamente a profundidade das águas.

O rio é agora domínio exclusivo dos pescadores e chegámos a tempo de observar a azáfama da descarga no mercado e o amanho do peixe. Apesar de servir apenas 60 mil habitantes, o mercado de Hoi An é enorme e à volta dele circula toda a vida da cidade. Para além do peixe, há uma variedade interminável de frutas tropicais, - algumas das quais, após 20 dias, ainda não tinhamos visto no Vietname -, vegetais, especiarias de todas as cores e cheiros, ovos estranhos e loções milagrosas. Não faltam também as bugigangas electrónicas e o vestuário da moda local. Apesar de bastante contidos, os vietnamitas não deixam de ver qualquer turista como um potencial alvo, o que torna uma visita ao mercado ainda mais emocionante. Acabámos por nos reabastecer de fruta e, continuámos a andar ao longo do rio sempre ‘acossados’ por pequenos empresários que tudo faziam para nos vender lugares num curto cruzeiro rio acima num barco… a remos.

MONSTROS E LENDAS

Pouco depois, deixámos a marginal para trás e aproximámo-nos doutra zona especial da cidade: a Ponte Japonesa. Construída em 1593 pela comunidade nipónica para os ligar ao bairro chinês, a ponte foi dotada de uma cobertura por forma a garantir protecção quer da chuva, quer do sol. Apesar de ter sido arrasada pelos franceses durante o período colonial, foi reconstruída em 1986, mantendo os seus traços decorativos sóbrios que em tudo contrastam com a arquitectura chinesa ou vietnamita.

Passámos a ponte cheios de curiosidade e, do outro lado, a Norte, deparámo-nos então com o templo Chua Cau. Diz a lenda que, em tempos, por ali viveu um enorme monstro chamado Cu (exactamente!) cuja cabeça ficava na Índia, a cauda no Japão e o restante corpo no Vietname. Sempre que o monstro se movia, causava desastres terríveis – inundações, tremores de terra - ao Vietname. Ainda segundo a lenda, a ponte japonesa havia sido construída sobre o seu ponto vulnerável, matando-o. Com pena do monstro, a população de Hoi An construiu este templo para rezar pela sua alma.

Em seguida dirigimo-nos a casa Tan Ky, construída no século XIX como moradia de um benemérito mercador vietnamita. Entrar nesta casa é recuar no tempo. Preservada desde sempre, a sua arquitectura – também com influências japonesas e chinesas - inclui um caricato tecto em forma de concha de caranguejo. Testemunhos vivos da antiga prosperidade da cidade, casas elegantes é, aliás, coisa que não falta em Hoi An, quase todas erguidas por mercadores ricos. Não muito longe ficam ainda o palacete de Diep Dong Nguyen, por si só um museu, com um armazém de medicina chinesa e uma colecção de antiguidades e a longa casa Tran Duong, também ela digna de uma visita.

Mas para além das casas particulares Hoi An, resplandece ainda com os grandiosos edifícios associativos das Comunidades chinesas. Um deles foi construído para reunir as diferentes etnias, mas todas as Congregações têm as suas próprias casas comunitárias: Fujian, Hainan, Chozhou etc. Depois existem ainda os edifícios de culto, templos e pagodes enigmáticos repletos de misticismo e história.
Hoi An é tudo isto e muito mais. Se quer ter a noção exacta das suas cores.Visite o quanto antes.

COMO IR:

Hoi An não possui aeroporto, mas fica perto do aeroporto de Danang, a meio caminho entre Hanoi, no norte, e Ho Chi Minh City, no sul. Pode organizar a viagem com começo numa ou noutra extremidade. Os voos ida e volta para ambos os destinos custam 850 euros. A ligação de Hanoi ou Ho Chi Minh a Danang ronda os 100 euros.

ONDE FICAR:

Hoi An Hotel (Tel. 861373)
Explorado pelo Governo, fica num grande edifício colonial e é um dos maiores hotéis do Vietname. Quartos de 20 a 100 euros.

Quando Ir:

O Vietname extende-se por uma latitude tão grande que é possível o Norte estar em pleno Inverno e do meio do país para baixo ser Verão.
O Sul tem duas estações: a das chuvas (de Maio a Novembro, sendo que de Junho a Agosto chove mesmo muito) e a seca (de Novembro a Abril). O Norte tem também duas estações: um Inverno fresco e de céu sempre cerrado (Novembro a Abril) e um Verão bem quente (de Maio a Outubro).

Informações úteis

Indicativo: 00 84
Dinheiro: são usados o dólar americano e o dong, que surge abreviado nos preços através de um ‘d’. Não existem moedas no Vietname. Um dolar corresponde a 14 mil dongs

Visto e Passaporte:

O Vietname não tem embaixada em Portugal. A mais próxima é a de Paris. O visto emitido à entrada do Vietname custa 110 dólares mas não é garantido que seja logoconcedido (o melhor é tratar do processo via Paris). Se vai entrar via Tailândia – Laos ou Cambodja - tudo se facilita já que as agências de turismo de Banguecoque e Chiang Mai tratam de tudo rapidamente, sem grande acréscimo no preço. O visto é válido por 30 dias e deve especificar os dias de entrada e saída. Para estadias superiores a 30 dias deverá adquirir uma extensão de visto.

Deslocações Internas

Se suportar bem viagens longas e desconfortáveis tem duas outras alternativas: autocarro ou comboio. A estrada que percorre o Vietname de alto a baixo é uma aventura não recomendada a cardíacos. Várias agências oferecem bilhetes “open-tour”, que permitem viajar de Hanoi a Ho Chi Minh por etapas, em qualquer dia. Consegue-se percorrer o país de alto a baixo com cerca de 30 euros. A rede ferroviária tem 2600 km, percorridos principalmente ao longo da costa, entre Ho Chi Minh e Hanoi, e daqui para Haiphong (mais a Leste). O normal é as viagens de comboio serem ainda mais lentas que as de autocarro, mas está-se a salvo da anarquia rodoviária.
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