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Hoje deu-me para isto

“Quando estou muito cansado, sinto-me uma ilha angustiada cercada de miúdos por todos os lados”

18 de Novembro de 2012 às 15:00
Hoje deu-me para isto
Hoje deu-me para isto FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Há uns dias estava à porta da escola dos meus filhos quando um dos pais mais zen que conheço, dono de uma colecção de crianças ainda maior do que a minha e detentor de uma genuína vocação para a paternidade, andava a recolher parte da sua prole. A sua prole é como todas as proles – um bando de miúdos que se atrasam, se arrastam e que embirram uns com os outros, ao ponto de o pai ter perdido a paciência e começado a prometer açoites a toda a gente.

Naquele momento eu senti um conforto retemperador, imagino que semelhante ao de muitos pais que lêem semanalmente esta página – aquela sensação de nos sentirmos acompanhados no que julgamos ser as nossas falhas; o maravilhoso conforto de estarmos juntos na nossa mais desgraçada humanidade. A impaciência do pai zen fez maravilhas por mim.

Porquê exactamente? Porque demasiadas vezes sinto que sou um pai muito aquém da tarefa que me foi confiada. Isto não é falsa modéstia, nem aquilo a que os ingleses chamam ‘fishing for compliments’ – isto é a mais pura das verdades. Esse sentimento de insuficiência não tem tanto a ver com o que deixo de fazer como pai, mas sim com aquilo que deixo de sentir, ou seja, com um frequente défice de prazer na paternidade. Sobretudo quando estou muito cansado, sinto-me uma ilha angustiada cercada de miúdos por todos os lados e começo a pensar que eu também teria sido feliz se estivesse fechado sozinho em casa, com pizzas no congelador, internet de banda larga, uma boa colecção de filmes e a viver no meio da biblioteca.

Olho frequentemente para a minha mulher e penso: "Isto, sim, é uma mãe." Sabe Deus como tantas vezes lhe falta, como a mim, paciência e cabeça fria, mas existe nela uma disponibilidade, uma vocação familiar e uma energia inesgotável que eu consigo admirar profundamente mas que nunca consegui – nem nunca conseguirei – acompanhar.

Nos momentos em que me sinto um pai mais ranhoso, já lhe disse várias vezes que devia ter escolhido um gajo ao seu nível com quem ter quatro lindos filhos, e que eu nunca serei como pai aquilo que ela é como mãe. Porque de uma estranha maneira, sou um pai arrastado, reticente, demasiado imperfeito. Não admira que a fúria do pai zen tenha salvado aquele meu dia. A fragilidade alheia é por vezes um bálsamo precioso, o único que permite dizer a nós próprios: "Afinal, talvez eu não seja assim tão mau."

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