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Correio da Manhã

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HOLLYWOOD: NA LISTA NEGRA

Cinquenta anos depois do McCarthismo, Hollywood volta a ser ensombrada pela famosa ‘lista negra’. Quem criticou a guerra do Iraque está a ser ostracizado e nem sequer recebeu um convite para os Óscares. A História repete-se?
27 de Abril de 2003 às 00:00
De microfone na mão e câmara de filmar ao ombro, Michael Moore tornou-se num dos realizadores mais temidos em Hollywood. Sem dó nem piedade, o documentário ‘Bowling for Columbine’ - premiado este ano com um Óscar - retrata o fascínio da sociedade americana pelas armas de fogo. Antes de subir ao palco do Kodak Theatre para ‘disparar’ um dos discursos mais polémicos, os comentários deste ex-
-funcionário da General Motors, já davam que falar no programa ‘The Awful Truth’ (A Verdade Cruel).
Mas foi no dia 23 de Março que o mundo ficou suspenso nas suas palavras, dirigidas a George W.Bush: “Infelizmente, vivemos em tempos fictícios, que elegem um presidente fictício, que está a travar uma guerra por motivos fictícios’, avançou Moore, que arrancou alguns assobios da plateia quando gritou ‘devia ter vergonha, senhor Bush’.
No entanto, a irreverência de Moore não foi penalizada pela Academia. Nem pela administração republicana. E muito menos pelo público. O seu livro, ‘Stupid White Male’ continua em alta e o próximo documentário – ‘Fahrenheit 911’, um filme que vai expor os negócios ilícitos da família Bush - já está em fase de pré-
-produção.
Mas será o ‘caso Michael Moore’ um episódio isolado? Acreditando nas palavras de artistas de renome, como Sean Penn, George Clooney, Spike Lee ou Martin Sheen, a ‘lista negra’ volta a ensombrar Hollywood, cinquenta anos depois do furor anti-comunista ter varrido os Estados Unidos. (ver caixa)
Ao contrário de alguns colegas de profissão, que optaram pelo silêncio, este ‘quarteto’ de luxo nunca perdeu a oportunidade de criticar a administração Bush. Agora, estão a pagar um preço demasiado elevado por essa contestação. Os nomes de Clooney, Penn e Vanessa Redgrave, entre muitos outros, foram riscados da lista de convidados para a 75ª edição dos Óscares. Há ainda quem garanta que a esmagadora derrota do filme ‘Gangs de Nova Iorque’, se deveu às críticas que Martin Scorsese dirigiu a George W. Bush. Como se isto não bastasse, a Academia exigiu ainda que Susan Sarandon – acérrima crítica desta guerra – mantivesse a postura diante as câmaras. Para marcarem uma posição, ela e o marido, Tim Robbins, vestiram-se de preto e limitaram-se a fazer com as mãos, o gesto universal da paz.
UNIDOS CONTRA A GUERRA
Sem medo das possíveis consequências, Ethan Hawke, Uma Thurman, Jessica Lange, Mike Farrel – responsável pelo nascimento da associação ‘Artistas Unidos Para Vencer a Guerra’ – e Matt Damon, entre outros, assinaram um manifesto a condenar a intervenção das forças aliadas no Iraque. Para já, nenhum deles se queixa de ‘perseguições políticas’, mas para Martin Sheen e Sean Penn a ‘caça às bruxas’ já começou.
Sheen - que até usou a palavra ‘imbecil’ para falar de Bush – corre o risco de vir a ser substituído na série ‘Os Homens do Presidente’, onde por coincidência, interpreta o papel de Presidente dos EUA.
‘Democrata! Com esta idade, não me sujeito a dar vida a personagens que vão contra as minhas convicções’, desabafou o actor que, no ano passado, foi condenado a cumprir uma pena de três anos em liberdade condicional, por ter protestado numa base militar americana contra o projecto ‘Guerra das Estrelas’.
Acusado de traidor e antipatriota pelos republicanos, Martin defende-se. Sem papas na língua, claro! “Sei que a minha postura vai ter consequências. Mas não quero deixar de dizer o que penso. Criticam-me porque sou famoso e tenho opiniões. Mas desde quando é que as pessoas famosas perdem o direito de revelar as suas ideias? ’, contesta Sheen, que já está preparado para ceder o seu lugar na famosa série.
Sean Penn, o ‘enfant terrible’ de Hollywood, foi mais longe e decidiu processar o produtor de cinema Steve Bing. Segundo o actor, Bing voltou atrás com a palavra e retirou-o do elenco de ‘Why Men Shouldn´t Marry’, sem lhe dar qualquer explicação. Além disso, Sean acusa-o de estar a gerar uma ‘nova lista negra’, em Hollywood. Motivos suficientes para o actor exigir uma indemnização que ultrapassa os dez milhões de euros. Conhecido pelos seus ideais conservadores, Steve saiu do anonimato quando manteve um romance com a ex-namorada de Hugh Grant, Liz Hurley. Esta breve, mas intensa relação resultou no nascimento do pequeno Damian, mas até agora o produtor recusou-se a reconhecer a paternidade.
“Estava convencido que Hollywood tinha aprendido a lição. Nunca pensei que as perseguições políticas ou as célebres listas negras iam voltar a manchar a história do meu país”, criticou Penn, que ainda não se esqueceu dos cinco anos que o seu pai, Leo Penn, foi alvo de discriminação, quando o seu nome passou a constar na lista negra do senador McCarthy. Leo, realizador e produtor de cinema, nunca revelou o nome dos colegas que faziam parte do Partido Comunista. E ao que parece, o filho aprendeu bem a lição.
A confusão e o pânico já se instalaram no seio de Hollywood e a União dos Actores viu-se obrigada a publicar um documento que crítica a discriminação ideológica: “Neste país, temos dez milhões de pessoas a dizerem ‘não’ à guerra; e um presidente que diz ‘sim’. Se isto é uma democracia, algo está mal”.
LUTAR CONTRA O COMUNISMO
‘Fomos todas vítimas do ‘McCarthismo’. No rescaldo de uma das épocas mais negras da história recente americana, Dalton Trumbo - famoso pelo seu trabalho em ‘Spartacus’, de Stanley Kubrick - foi um dos argumentistas que melhor caracterizou o ambiente que se viveu na Meca do cinema, durante a década de 50.
A partir do momento em que o seu nome passou a figurar na temível ‘lista negra’, onde era acusado de ter ‘simpatias pelo Partido Comunista’, Dalton viu-se obrigado a utilizar vários pseudónimos para continuar a trabalhar.
Pior sorte tiveram os artistas perseguidos pela ‘polícia anti-comunista’. Larry Parks, Charles Chaplin ou Bertolt Brecht foram alguns dos actores que viram as suas carreiras destruídas. No caso de Chaplin, o actor foi proibido de regressar aos Estados Unidos e teve de esperar até 1972 para ser recebido de braços abertos pela Academia, que premiou a sua carreira com um merecido Óscar.
Mas nos anos 50, até a fama deixou de servir como escudo de protecção. Personalidades como Humphrey Bogart ou Ginger Rogers foram chamadas a depor, com o intuito de divulgarem a identidade dos colegas filiados no Partido Comunista americano. Enquanto Bogart se manteve ‘firme como uma rocha’ durante o McCarthismo, o realizador turco Elia Kazan - o homem por detrás das câmaras nos filmes ‘A Leste do Paraíso’ ou ‘Há Lodo no Cais’ - não resistiu à pressão. No momento da verdade, este ex-membro do Partido Comunista pesou os ‘prós e os contras’ e não hesitou em divulgar o nome de alguns colegas de profissão.
‘Não ia prejudicar a minha carreira – uma consequência previsível caso não aceitasse as regras do jogo – para proteger uma causa em que não acredito ou o anonimato de comunistas’, confessou o turco, na sua autobiografia ‘Life’.
Uma decisão que iria mudar o rumo da sua vida para sempre. Apesar de ter continuado a trabalhar na sétima arte, Kazan nunca seria perdoado pelos restantes artistas. Quarenta anos depois, quando subiu ao palco do Dorothy Chandler Pavillion para receber o prémio carreira – um momento único na vida de um cineasta – foi recebido com apupos e assobios.
Ninguém lhe tinha perdoado e, nessa noite, Hollywood fez questão de mostrar que há certas feridas que nem o passar dos anos ajuda a curar...
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