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Correio da Manhã

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HOMENS E MULHERES

Naquele tempo eu já não era um marialva – era um esteta. Tinha trinta e nove anos, a vida encaminhada e um razoável défice de motivação erótica, e quando desviava o olhar para uma fêmea que passava era mais por contemplação da beleza do que por dever de género.
12 de Julho de 2002 às 17:57
Tivera a minha lua-de-mel tórrida e os meus casos extraconjugais – tivera-os tantos como o próximo homem – e se chegava àquela idade na companhia de uma mulher era porque, desde o início, as mulheres assim o tinham querido.

Entendamo-nos: foram elas quem o quis. Por mim a vida teria continuado igual, igual a sempre, casado ou solteiro, na imbecilidade pueril dos meus trinta anos ou na puerilidade imbecil dos meus quinze, limitado a uns adulteriozinhos higiénicos de seis em seis meses ou obcecado por cada caminho, por cada passeio, por cada atalho onde a beleza pudesse passar.

Quanto à higiene, tenho a dizer que tentara sobretudo ser discreto. Para mim uma esposa e uma amante não podiam nunca ser concorrentes uma da outra, e se essa duplicidade era difícil de explicar-lhes a uma e a outra, então eu guardara as explicações para mim próprio. Os homens têm tendência para se habituarem, para se acomodarem, para tornarem as esposas em apêndices das suas vidas demasiado importantes, mas elas sempre deram muito mais valor aos seus maridos, ao seu macho – e se se sentem traídas hão-de traí-lo também e fazê-lo sentir-se um apêndice também e abandoná-lo também na primeira curva das suas vidas demasiado importantes. Não o digo por ressentimento: apenas tenho a certeza absoluta de que a vida sempre foi assim e sempre assim será, com ou sem Deus, com ou sem Inferno, com ou sem coisas por explicar entre os céus e a terra. E, para mais, sou um esteta.

Até aos trinta e nove anos, portanto, assustavam-me ainda as sequelas de uma confrontação: as lágrimas desesperadas, o desespero lacrimal, a chantagem banhada em lágrimas e de novo em desespero... Para mim, essa era a negação irrefutável do primado do amor: uma amante obcecada ou uma esposa traída podiam perfeitamente destruir a vida de um homem – e mesmo assim era bem possível que o amassem verdadeiramente, que o amassem do mais fundo da alma. De forma que, a certa altura, me convenci a mim próprio do primado do amor e a higiene foi-se espaçando no tempo, primeiro de ano a ano, ainda hesitante, depois com intervalos cada vez maiores, de dois em dois anos, de três em três, até se extinguir quase por completo. Cá dentro eu sentia a inevitabilidade de optar um dia entre elas, sentia que ao dividir-me entre duas mulheres estava a roubar alguma coisa a alguém. Não era ainda moral, mas era já cobardia: tinha acima de tudo medo de ser descoberto, o que de certa forma me levava a perguntar se não seriam o medo e a cobardia a principal razão de todas as coisas.

Em última análise, portanto, impusera-me a mim próprio um derradeiro apelo de consciência – não da minha, da consciência delas. Eu via uma mulher, deixava-me seduzir pelo seu rosto e pelo seu olhar, podia até empenhar-me em não trocar-lhe o nome, oferecer-lhe o mesmo perfume da minha esposa, deitar-me ao seu lado – mas, quando enfim me imaginava a abandonar tudo e a dar-lhe a mão para seguir com ela, uma pergunta me travava: “Será que a Isabel a acharia bonita?” Isabel era a minha esposa, a minha primeira e única mulher, e apesar das voltas que a vida deu entretanto, apesar das voltas que a vida dá e das mudanças que o tempo produz e da erosão de um casamento provoca, em última análise foi sempre essa pergunta simples e inevitável que me manteve preso a ela. “O que é que Isabel acharia desta mulher que tenho à frente? Achá-la-ia bonita?”, pensava – e no momento em que o pensava era certo ter chegado a hora de partir. Começava a adiar compromissos, a falhar os telefonemas prometidos, a deixar os recados por responder – e quando enfim era tempo de pesar as culpas, a culpa e os sentimentos de culpa, Isabel levava sempre a minha preferência.

No fundo, talvez a história dos homens fosse a história daquela pergunta fatídica, a história de como as mulheres se avaliavam umas às outras por detrás do olhar dos seus homens, e isso ameaçava dar à relação entre macho e fêmea, dar ao poder e à emoção – dar à vida – um carácter ainda mais retorcido. De uma coisa eu tinha a certeza, porém – quanto a Isabel como quanto a qualquer outra: que quando se cruzavam na rua elas miravam-se longamente, miravam-se com pormenor e de alto a baixo, e que nesse instante de exame tanto podiam estar a invejar-se como a empurrar-me de umas para as outras, tanto podiam estar a desejar-se mutuamente como apenas a ver se a tipa que passava devia ser tida em conta como rival ou aliada. Nesse ponto homens e mulheres hão-de ser sempre diferentes: elas julgam muito depressa as fêmeas que se oferecem a um segundo macho, traindo o que deixaram em casa; eles não – não as julgam de todo. Talvez porque elas as vejam, mais do que como um mau exemplo, como uma ameaça. Talvez porque eles as vejam, mais do que como uma ameaça, como uma oportunidade. As libertinas são essenciais à vida – na verdade bem podem um dia vir a ter algum préstimo.

A mim, a última vez que aquela pergunta se me formulou tinha eu trinta e nove anos. Encontrei Isabel em frente ao espelho, apalpando os seios excessivos da meia-idade e mirando longamente as rugas do rosto. Perguntou-me: “Estou a ficar feia, não estou?”, e então era como se não estivesse já a falar dela própria mas de outra mulher, de uma mulher estranha e hostil, de uma mulher por que passara e por quem não sentira nenhum desejo – e que saberia para sempre ser a sua maior rival. Então eu repeti mentalmente o seu nome – repeti-o com cuidado, até já não me lembrar de outro –, perfumei-a com o perfume de sempre e deitei-me a seu lado. Não foi magnífico: eu tinha um razoável défice de motivação erótica, ela queria sobretudo ter-me ali ao pé, e quando nos levantámos os dois de manhã eu já não pensava noutra coisa senão em sair à rua a passear tranquilamente a minha vida encaminhada, indiferente às formas da minha mulher e ao perfume que usava e ao seu próprio nome que me esquecia. Então dei-lhe a mão e segui com ela.
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