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Idália chorava porque queria aprender

Com as vindimas atrasadas passamos por Pegões e encontramos Idália Teixeira, que com 63 anos cuida sozinha de 17 hectares de vinha.
9 de Setembro de 2012 às 15:00
As temperaturas baixas no Verão criaram uvas de grande qualidade
As temperaturas baixas no Verão criaram uvas de grande qualidade FOTO: João Cortesão

Idália Teixeira é uma das cento e trinta e cinco sócias da Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões, e, sozinha, cuida de 17 hectares de vinha (o equivalente em área a 17 campos de futebol). Quando dizemos sozinha, isto não é uma maneira romântica de pôr as coisas. Se retirarmos a época da vindima e da poda, Idália, com 63 anos, faz o trabalho todo. Lavra a terra, faz as mondas, prepara e dá as caldas em cima do tractor. Aliás, quem a quer ver é em cima de um tractor. Sai de casa com os primeiros raios de sol, regressa quando este se põe ("quando já não deixa fazer nada").

Para replantar uma vinha nova que comprou há oito anos ("com dinheiro emprestado pelo banco e que ainda estou a pagar"), decidiu que a vinha ficaria perfeita se levasse terra de areia em determinados locais (os terrenos arenosos dão melhores vinhos). "Os homens, quando me viam a passar com o reboque carregado de areias, pensavam que eu não estava com o meu juízo todo. Hoje, dizem que aquilo não é uma vinha - é um jardim."

Tendo enviuvado aos 29 anos, ficou com a responsabilidade de criar duas filhas e cuidar das terras. Na região de Pegões, toda a gente lhe coloca o rótulo de mulher de armas. Isso não lhe diz muito. "A única coisa que sempre me interessou e parece que ainda me dá força é aprender. Nunca fui muito de lágrimas, mas lembro-me bem de chorar porque queria e precisava de aprender. Eu não sabia nada e chorava por causa disso. Ainda hoje não descanso enquanto não percebo de um assunto que ignorava."

No meio da vinha, meia dúzia de companheiras corroboram as afirmações de Idália enquanto cortam cachos da casta branca Fernão Pires. Como de costume, há sempre alguém nas vinhas para cantar ou fazer rir. Apesar de tudo, a vindima ainda é uma festa. Palmira, mais velha do que Idália, tem o humor a seu cargo. Enquanto a patroa diz que castas de uva tem (Fernão Pires, Castelão, Alicante Boushet e Syrah), Palmira, no meio do silêncio, sai-se com esta: "Olha lá, estás a esquecer-te dos colh... de burro." Os ditos do burro são a forma como os agricultores se referem aos bagos grandes da casta Moscatel.

Vindimas atrasadas

Se tivéssemos em conta o que se passou nas últimas duas décadas, a apanha das uvas brancas na região de Pegões já teria terminado há muito. Mas, este ano, as primeiras celhas chegaram à adega cooperativa no dia 24 de Agosto. Contas feitas, as vindimas levam um atraso de três semanas. Ainda assim, a análise dos mostos indica que a qualidade está garantida. Uvas amadurecidas sem choques térmicos garantem vinhos mais aromáticos. O problema é que a apanha das uvas tintas vai esticar-se para finais de Setembro e boa parte de Outubro. E, nesta altura, o risco das chuvas com a mudança de equinócio pode pregar partidas. Em particular nas regiões vitícolas a norte.

Seja como for, Jaime Quendera, director e enólogo da Cooperativa de Pegões e de vários outros produtores da região, está confiante na qualidade dos vinhos desta colheita. "Os mostos estão ricos e equilibrados em todas as suas componentes."

Ao contrário do que acontece noutras adegas, as vendas da cooperativa crescem anualmente e penetram em força em todos os mercados externos de referência. Isto deve-se, em grande parte, ao número de medalhas que o enólogo tem por hábito arrecadar. "No outro dia fiz as contas deste ano só para os vinhos feitos na cooperativa e na Casa Ermelinda Freitas e, quando cheguei às 150 medalhas, desisti de contar." Quendera será o enólogo português mais medalhado de sempre. E faz vinhos com uma relação qualidade/preço imbatível. Enquanto na maioria das adegas portuguesas os vinhos brancos da colheita de 2012 chegarão ao mercado na Primavera, em Pegões haverá vinho branco novo ainda em Setembro. Tudo porque os mercados externos estão sem vinhos da cooperativa. Aqui, por ano, produz-se, 7,5 milhões de litros de vinho.

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