ÍDOLOS: VELHAS GLÓRIAS

Alves Barbosa, Marco Chagas ou Joaquim Gomes subiram montanhas a pique, disputaram ‘sprints’ endiabrados e ganharam uma mão-cheia de Voltas a Portugal. Foram estes e outros homens que tornaram o ciclismo um desporto-rei
27.07.03
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ÍDOLOS: VELHAS GLÓRIAS
Foto Pedro Catarino
“No futebol, o jogador cai e tenta ficar no chão o maior tempo possível. No ciclismo, quando um atleta tem uma queda, certifica-se logo se a sua bicicleta está em condições para poder prosseguir a corrida.” Alves Barbosa sabe do que fala. Ele foi a primeira estrela da constelação de ciclistas portugueses. O atleta do Sangalhos, natural do Fontelo, deu nas vistas aos 19 anos, vencendo a Volta a Portugal em 1951. “Fui o mais jovem corredor a ganhar a prova. Vesti a camisola amarela do primeiro ao último dia”, recorda o ciclista, hoje com 72 anos. Durante uma década, Barbosa arrecadou quase tudo o que havia para ganhar. Em 1956 e 1958 voltou a ficar em primeiro na prova – tornando-se no primeiro corredor a vencer três Voltas. “Poderia ter ganho mais uma Volta, em 1955, mas a dez quilómetros da meta, um grupo de pessoas que assistia à corrida agarrou-me e agrediu-me, impedindo-me de me sagrar vencedor”, conta. Na altura, o seu único rival era Ribeiro da Silva, que aos 25 anos de idade morreu num acidente de viação. “Ele teria uma carreira gloriosa”, vaticina. Alves Barbosa brilhou também no 'Tour', em 1956. “Fui o primeiro português a entrar no ‘top ten’ em França”, anuncia. Quando abandonou a competição, Alves Barbosa continuou ligado à modalidade como treinador. “O ciclismo é a minha vida”, confessa.
O HOMEM DA MONTANHA
“Guardo alguma tristeza por nunca ter ficado em primeiro lugar numa Volta”, confessa Leonel Miranda, 59 anos, ex-ciclista do Spor-ting. “Eu era um ‘equipeer', explica. Por outras palavras, a sua principal missão era a de ajudar Joaquim Agostinho a cortar a meta com a camisola amarela e não ficar em primeiro. “Éramos vizinhos e grandes amigos e dei-lhe bastantes vitórias”, conta, sem rancores, o corredor que ganhou 20 etapas da Volta e chegou a ser apelidado de ‘Jalabert português’, graças à sua força para as etapas na montanha.
Em 1965, iniciava a carreira de profissional no clube de Alvalade. “O meu primeiro ordenado foi de três mil escudos”, afirma. Quatro anos depois, Leonel Miranda poderia ter chegado ao cimo do pódio da prova mais importante do ciclismo português, mas algumas “jogadas de bastidores” atiraram-no para o terceiro lugar. “Houve corredores que terão ingerido substâncias proibidas, mas na altura nada ficou provado”, lembra o atleta, que sempre correu pelo emblema do 'leão'. “Durante o Antigo Regime, só quando o clube se desinteressava pelo ciclista é que o deixava sair”, recorda. “Mas, felizmente, sempre me senti bem no Sporting”.
VELHO ‘LAU’ SEMPRE JOVEM
“É como o Vinho do Porto, quanto mais velho melhor”, enfatizavam os jornais em 1984, altura em que Venceslau Fernandes venceu a sua primeira e única Volta a Portugal. O velho 'Lau' contava já com 39 anos, mas a sua forma física estava longe do declínio. “Só parei de correr em 1991, com 46 anos, e apenas porque a minha médica me obrigou”, revela o ciclista, que envergou as camisolas do Benfica, FC Porto, Sangalhos ou Ajacto-Murphy. “Fui profissional das bicicletas, nunca deixei de trabalhar. Tinha que ajudar os meus sete irmãos e os meus pais que viviam, com dificuldades, da lavoura”, recorda. “A vida era dura”.
Hoje, Venceslau Fernandes tem outro desportista na família: a filha Vanessa Fernandes, uma das melhores atletas de triatlo (ciclismo, atletismo e natação) do nosso país. “Só com muito azar é que ela não irá aos Jogos Olímpicos, em Atenas”, opina.
O velho ‘Lau’, hoje com 58 anos, trabalha na sua oficina de bicicletas, em Vila Nova de Gaia, ajuda a filha a atingir o seu sonho e ainda tem tempo para se pôr em forma em cima de um selim.
O ÚLTIMO GRANDE HERÓI
Na infância sonhava em jogar futebol, mas as epopeias de Joaquim Agostinho contagiaram-no e acabou enredado no ciclismo. “Na minha primeira Volta, em 1984, com 19 anos, deixei todos de boca aberta durante a escalada da Serra da Estrela”, conta Joaquim Gomes. O feito entusiasmou-o e, em 1989, já com o emblema da Sicasal ao peito, venceu a Volta a Portugal. “Foi a vitória mais saborosa da carreira”, confessa. O ciclista conseguia ultrapassar um trauma causado por uma queda aparatosa, em 1987, que o obrigou a desistir dessa Volta. “Cada vez que corria pensava que me iria acontecer sempre algo de mal”, confessa. A partir de 1989, nunca mais ninguém o agarrou. Ano sim, ano não, Joaquim Gomes ganhava a mítica etapa da Torre. “Dá-me mais alento vencer na montanha, onde os momentos de folia começam antes de chegar à meta, do que num ‘sprint’, onde só nos apercebemos da vitória no fim”, enfatiza. Em 1993, bisa o primeiro lugar numa Volta e confirma-se como um dos melhores trepadores de todos os tempos.
UM RECORDISTA CHAMADO CHAGAS
Em Agosto de 1986, Marco Chagas deixou o seu nome inscrito na História do ciclismo português. Pela primeira vez, um corredor vencia a Volta a Portugal por quatro vezes. O atleta do Sporting ultrapassava as três vitórias de Joaquim Agostinho e Alves Barbosa. “Fiquei emocionado, ainda por cima porque se tratou de uma vitória ‘impossível’”, recorda Chagas, de 47 anos. “Antes da última etapa, o Benedito Ferreira detinha a camisola amarela, e um avanço sobre mim de três minutos. Mas tudo se inverteu no último dia. E acabei por lhe bater no contra-relógio por… 15 segundos”, conta.
Esse ano ficou também marcado pelo fim do ciclismo no Sporting. “Tenho pena que os três grandes clubes tenham abandonado a modalidade”, desabafa. O ciclista nunca teve quedas aparatosas mas recorda o triste Verão de 1984, quando o seu colega de equipa, Joaquim Agostinho, caiu no asfalto e perdeu a vida dez dias depois. “O ciclismo foi e continua a ser uma profissão de risco. Colocamos a vida em perigo sempre que descemos uma montanha a uma velocidade vertiginosa. E com a chuva, os perigos multiplicam-se ”, alerta. “No entanto, nunca trocaria uma bicicleta por um carro”, defende o agora comentador da Eurosport.
TÃO PERTO DA GLÓRIA
Firmino Bernardino correu durante quase toda a carreira com o 'leão' ao peito, mas foi ao serviço do Benfica, em 1976, que obteve a sua única vitória numa Volta. “Poderia ter feito épocas melhores se tivesse sido mais apoiado pelos treinadores”, comenta com amargura. E explica: “Naquela altura, eles não nos ensinavam tácticas de equipa nem corrigiam os nossos erros. Apenas nos mandavam correr pela estrada fora”.
Bernardino, que hoje vive do subsídio de desemprego, pertencia à equipa de ouro do Sporting de Joaquim Agostinho, Leonel Miranda ou Manuel Correia. “Eram verdadeiros monstros sagrados”, conta o ciclista, que ao contrário de muitos colegas nunca se tornou milionário. “Em 1968, o meu primeiro ordenado era apenas de
1500 escudos. E quando saí do Sporting, em 1974, só ganhava 10 contos”, recorda. Dois anos mais tarde, no Benfica, o seu salário seria reduzido para 5 contos mensais. “Posso dizer com franqueza que corria apenas por amor à camisola. Mas não me arrependo”, confessa o Rei da Montanha em 1970 e 1978.

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