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IGREJA: O VALOR DE UMA NOIVA DE BRANCO

O dilema das relações sexuais antes do casamento sempre foi matéria controversa. Mas a realidade assumiu a dianteira e, hoje em dia, os padres casam noivas que iniciaram a vida sexual antes do altar. E ir de branco já nem sequer é importante...
21 de Setembro de 2003 às 15:21
Porque é que aos olhos da Igreja, o sexo antes do casamento é pecado? A resposta mais imediata pode parecer simples - porque a Bíblia o diz-, mas a explicação não é assim tão taxativa. A virgindade é uma regra de conduta fortemente apoiada pelas autoridades religiosas. A Igreja Católica sempre considerou pecado toda a relação sexual praticada fora do casamento, bem como todo o acto sexual conjugal que não fosse realizado em função da reprodução. A partir do século XVI, a Igreja tornou-se particularmente severa contra todas as formas de relações sexuais pré-nupciais e, em certos casos, o sexo fora do casamento passou a ser motivo de excomunhão.
Na Idade Moderna, assistiu-se a um decréscimo da influência da igreja sobre as pessoas, ao mesmo tempo que se verificava uma reviravolta em relação aos costumes sexuais, retirando, de alguma forma, o carácter sagrado à virgindade. Nos anos 60, preservar a virgindade até ao dia do casamento, era uma regra longe de ser seguida à risca. Em Portugal, estas mutações deram-se mais tarde do que no restante Ocidente. Só a partir dos anos 70, é que a sociedade portuguesa passou a não enfatizar com tanta regularidade os valores que, na prática, poucos cumpriam. Assistia-se, pois, a uma nova cultura sexual que, em grande parte, foi apoiada por uma divulgação exaustiva dos vários métodos contraceptivos e por uma conduta liberal exibida em televisão.
“NÃO” À REALIDADE
Nos tempos que correm, quando se fala em manter a castidade até ao casamento, até os próprios cristãos colocam algumas dúvidas. E muitos não compreendem o porquê desta vontade de Deus. A questão que hoje se coloca a muitos jovens, sobre deixar de ser ou não virgem, há algumas décadas nem sequer poderia ser pensada. Tão certo como saber-se que não se devia roubar e matar, era que a relação sexual era para ser usufruída só depois do casamento. Um mandamento religioso que hoje é, muitas vezes, dado como ultrapassado.
Inconscientemente, todas estas questões acabam por formar um dilema para alguns padres católicos que não podendo ficar indiferentes a esta revolução sexual, enfrentam a difícil tarefa de decidir entre seguir as orientações oficiais da igreja ou adaptá-las à realidade vivida.
“A Igreja não tem que ser flexível”, atira Jerónimo Trigo. Padre há 23 anos, e professor de Teologia e de Moral na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa há 20, partilha da opinião de que a importância desta questão passa primeiro que tudo por uma reflexão das pessoas, a fim de perceberem se “são realmente crentes”. Para tal, há que ir de encontro aos “ideais cristãos”. E que ideais são esses? “Entende-se que, sendo a sexualidade uma energia tão vigorosa e tão capaz de aproximar as pessoas, de criar relações, só quando existem as garantias suficientes de que esta conjugalidade se pode unificar é que a relação sexual tem o seu enquadramento normal.
A relação sexual deve ser a causa e a consequência de uma vida vivida em comum, exclusiva e para todo o sempre”, explica, acrescentando que relações sexuais sem compromisso lhe parecem “despropositadas, empobrecedoras e descontextualizadas”. No entanto, Jerónimo Trigo não radicaliza e afirma que, nos casos em que duas pessoas decidem viver apenas em união de facto, não vê a relação sexual desse casal “como sexo daquele que se usa e deita fora, como se de uma coisa descartável se tratasse”, desde que ambos decidam “viver em conjunto num dinamismo coerente, exclusivo e com vista a um horizonte alargado”, completa, não deixando de sublinhar que a posição da Igreja vai, acima de tudo, no sentido da “não banalização da relação sexual”.
Em geral, os padres sabem que em muitas das cerimónias matrimoniais que realizam, os casais já têm uma vida sexual activa, mas outros ainda não concebem tão bem essa ideia. No entanto, tal como explica Jerónimo Trigo, “não se vai perguntar às pessoas se elas são virgens ou não”, adiantando que “isso cabe à consciência de cada um”. É por isso, que na opinião deste padre e professor “a Igreja deveria ser mais exigente no que respeita à admissão de noivos” porque “se não há compreensão dos ideais religiosos, não é na igreja que essas pessoas devem casar-se”. E questiona: “Há cada vez mais casamentos fracassados, não terá a Igreja meia culpa nisso?”
GRÁVIDA: CASA OU NÃO CASA
Quanto à necessidade de jovens grávidas se casarem, muitos padres já não conseguem ser tão tolerantes. “Já celebrei casamentos de mulheres grávidas e até de casais com filhos. O problema não está no facto da mulher estar ou não grávida, mas uma senhora com oito meses de gravidez vestida de noiva, não fica bem esteticamente”, afirma Jerónimo Trigo, adiantando que, nesses casos, costuma aconselhar os noivos a terem primeiro o filho e só depois ”reflectirem sobre o casamento com mais calma”. “Penso que quando uma mulher fica grávida, casar-se não é a solução. Não é o matrimónio que vai salvar a sua aparência”, afirma.
Mas, apesar dos padres já não serem tão exigentes quanto à virgindade, há uma coisa que as próprias mulheres ainda querem: casar conforme os costumes da igreja, de vestido branco, véu e grinalda. “Isto do branco ou não branco não passa de uma tradição, mesmo assim se se reparar as mulheres que casam pela segunda vez têm por vezes o cuidado de vestir a cor creme ou pérola”, remata.
Em última análise, segundo a Igreja, aos namorados e noivos não é lícito dispor do corpo do companheiro, ainda que se amem, pois eles ainda não se pertencem. De acordo com a religião católica, essa pertença só é dada com o sacramento do matrimónio. Dado curioso, é o caso de São Francisco de Assis e Santa Maria Madalena, que cederam às tentações da carne, arrependeram-se e tornaram-se exemplos de vida. Como diz o padre Jerónimo Trigo: “Tudo nesta vida tem o seu perdão”.
DE TABU EM TABU
Professora de Educação Moral e Religiosa Católica há 24 anos, na Escola Secundária Emídio Navarro, em Almada, Júlia Alves conta que, hoje, os jovens vivem uma realidade bem diferente. “A pressão social fá-los encarar a sexualidade de uma forma completamente distinta daquela de há uns anos”, adianta a professora, afirmando que “de assunto tabu, a sexualidade passou a tema rei”. No entanto, garante que o mesmo não se passa com o debate sobre a virgindade. “Nas minhas aulas falamos abertamente sobre sexualidade, mas relativamente à virgindade noto muito receio e vergonha e, esse sim, é agora o maior tabu”. E porquê? “Para uns, é assunto de ‘cota’, por estar tão ultrapassado. Para outros, trata-se de uma questão de evitar a exposição. Caso confessem a sua virgindade, são gozados”, conta. “Tanto se tem valorizado a sexualidade que aqueles que tomam a virgindade como opção de vida sentem-se criticados”, explica a professora, para quem “existem muitos mais casos de jovens que optam pela virgindade do que aquilo que se imagina”.
O QUE A BÍBLIA DIZ DO SEXO
1. Deus é a favor do sexo. Ele criou-o puro, limpo, bonito e deseja que as suas criaturas desfrutem plenamente dele no casamento;
2. O propósito do sexo é:
a) Procriação: a extensão do amor dos pais na concepção dos filhos.
b) Comunicação: unidade conjugal.
3. Deus planeou o sexo para o casamento.
Nota: Em Gen. 1:28 Hebreus 13.4; Tessalonicenses 4. 3-8; 1 Coríntios 6. 12-20
SÍMBOLOS Da CASTIDADE
Vestido de Noiva – maior símbolo da cerimónia de casamento, o vestido de noiva faz parte do imaginário das mulheres que sonham casar com toda a pompa e circunstância a que têm direito. Na Europa, durante a Idade Média, o vermelho era a cor predilecta. Simbolizava ‘sangue novo’ para a continuação da família. Outras cores eram também usadas por motivos simbólicos: azul significava constância e o verde, juventude. Foi a rainha Vitória que inaugurou, em Inglaterra, o primeiro visual de noiva, tal e qual conhecemos hoje. Apaixonada pelo primo, o príncipe Albert de Saxe Cobourg-Gotha, ela tomou a iniciativa de pedi-lo em casamento (o protocolo da época não permitia que alguém o fizesse à rainha). Com a chegada de uma nova classe social – a burguesia – o vestido de noiva branco passou a funcionar como um sinal que indicava que a mulher era virgem. O branco era a garantia para o futuro marido da sua descendência, já que a virgindade significava a legitimidade da prole. Com o passar dos anos, o branco começou a ser usado como símbolo de pureza.
Véu – Começou a ser usado na Roma Antiga. Não se sabe com exactidão em que ano, mas é de lá que vêm as primeiras notícias de mulheres a envergarem véus. O véu passou a fazer parte da tradição e uma referência à Deusa Vesta (da honestidade) que, na mitologia greco-romana, é a protectora do lar. Uma versão mais romântica indica que a face escondida sob o véu tornava a noiva mais valiosa. Outra versão ainda, e mais recente, é que o véu simboliza juventude e virgindade.
‘Bouquet’ – Quase sempre, o ‘bouquet’ da noiva é formado por flores. Elas simbolizam a vida, o crescimento, a fertilidade e afastam os maus espíritos. Muitas vezes, as recém-casadas optam pela flor de laranjeira por esta apaziguar os estados de ânimo, dar calma e proporcionar bem-estar. Para além disso, é uma flor que representa a pureza virginal e a fertilidade. Também o lírio significa pureza e inocência.
Detalhe - A noiva pode ainda usar um detalhe azul no vestido, véu, ‘bouquet’ ou roupas íntimas, a fim de usufruir da simbologia da cor: pureza, confiança, fidelidade e calma.
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