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Correio da Manhã

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Ilhas de gente

O Sr. Nicola é tripeiro de porte e alma, portista de garra e devoção, orgulhoso português de memórias antigas e entranhadas solidariedades.
29 de Setembro de 2013 às 15:00
Victor Bandarra, crónica, ligação directa

Na casa estreita colada à rua, ele e a mulher de sempre vão dando as boas-tardes e trocando piropos com os passantes. Conhecem tudo quanto é gente da freguesia do Bonfim, da canalha aos velhinhos. Nicola expande sorrisos quando fala do avô, Nicola de apelido, refugiado judeu da Sicília, provavelmente anarco-sindicalista. As voltas e reviravoltas da política italiana do início do século XX levaram o velho Nicola a galgar fronteiras e a assentar arraiais no Porto.

O Sr. Nicola vive paredes meias com uma das muitas "ilhas" portuenses. Todos falam das "ilhas" mas ninguém lá vai, só mesmo quem lá vive. Nicola movimenta-se à vontade pela "ilha", por entre estendais de roupa. Aponta as casinhas baixas, de porta baixa, quadradinhos de 4 metros por 4, paredes vivas onde se guardam memórias das condições infames em que viveram milhares de operários tripeiros durante décadas. Entre 1878 e 1911, em pleno surto industrial que fez crescer a grande burguesia portuense, a população da cidade aumentou para quase 200 mil habitantes. Sem parque habitacional condigno, nasceram as "ilhas", as traseiras junto às fábricas, poços de insalubridade e promiscuidade forçadas. O célebre médico municipal Eduardo Jorge denunciava, na altura, que um terço do Porto vivia em "ilhas de insalubridade". Não por acaso, foi no Porto que se registou o último surto de peste bubónica numa cidade da Europa Ocidental. Dez ou mais pessoas amontoavam-se em seu casulo. A retrete era comum. Em muitos casos ainda é. Todos dependiam uns dos outros. Foi assim e ainda é. Promessas atrás de promessas, as "ilhas" do Porto sobreviveram. A solidariedade também.

O Sr. Nicola sabe que as "ilhas", mais do que a sobreviver, estão a renascer, nas infames condições de sempre. Nos últimos tempos, filhos voltam a casa dos pais, jovens casais desempregados e imigrantes de Leste alugam cubículos nas "ilhas".

O Sr. Nicola nunca visitou a Sicília ancestral mas já ouviu falar da Máfia e da especulação imobiliária na ilha sulista. Tripeiro jocoso, gesto largo, cofia o bigodinho e, matreiro, revela em voz sibilante que "Portugal é o único país do mundo onde a Sicília fica a Norte". lD

Victor Bandarra crónica ligação directa
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