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Impressão analógica

O documentário ‘48’ narra a opressão de quase meio século de ditadura em Portugal através das fotografias dos presos políticos
Joana Amaral Dias 8 de Maio de 2011 às 00:00
Impressão analógica
Impressão analógica

Embora o documentário português ainda seja relegado para segundo plano (basta atentar na superioridade dos apoios estatais para a ficção) e muitos sejam filhos da paixão e obsessão dos seus criadores que lhes dedicam anos com baixíssimos orçamentos, frequentemente lutam contra a amnésia colectiva, contribuindo para o património cultural do futuro. É também esse o valor de ‘48’.

Considerando a escassez de trabalhos sobre o Estado Novo, só por existir, este documentário é indispensável. Escassez essa, de resto, coincidente com o modo como Portugal lidou com a ditadura, deixando-a sair impune. Aliás, esse tema perpassa ‘48’: um país que não soube ou não sabe o que fazer do seu passado. Isto é, sempre num registo contido, trata-se de um filme contra a corrente. E até irónico, já que, baseando-se nas fotografias que serviam para a PIDE e os seus desaparecidos inspectores cadastrar os combatentes pela liberdade, acaba por "fichar" um regime despótico, contribuindo para que o pretérito não continue em branco.

SUFOCO DA DITADURA

‘48’ é um diaporama sonorizado. A única coisa que irrompe o ecrã são os ditos rostos dos prisioneiros políticos que surgem gradualmente, em fade in, e desaparecem também paulatinamente, em fade out. As imagens nascem e morrem na escuridão. Ou seja, assiste-se a um trabalho específico de cinema, onde a questão da escala é fundamental: projectadas, as fotografias ganham um estatuto inatingível em televisão, mesmo num grande plasma.

Esse confronto a que o espectador é sujeito faz-se acompanhar apenas pelas impressões dos próprios retratados em voz off. Abnegados, descrevem a separação da família, a tortura, a tortura específica sadicamente aplicada às mulheres, a resistência, a humilhação, o nojo, os ideais, mas não lamentam as sombras do tempo. Riem, choram, falam, interrompem-se, calam-se, comovem-se e comovem-nos.

Como é o sufoco de uma ditadura? Como se sente esse estrangulamento diário de censura, vigilância e injustiça? Qual é a forma que tem a angústia de estar preso por delito de opinião? Como é a revolta de ficar detido, sem pernas (a filha de um preso espantou-se quando, anos mais tarde, descobriu que o pai podia andar) sabendo que, entretanto, os putos crescem, os pais morrem, a terra mexe mas o regime não?

É difícil captar essa sensação no cinema. Mas Susana Sousa Dias consegue. Nenhum outro plano interrompe ou distrai. Nada mais oxigena o ecrã. No entanto, o som testemunhal captado traz também o barulho do exterior, o ruído do trânsito, do quotidiano. Enquanto a vida corre lá fora, aquelas fotos, aquelas paisagens humanas continuam retidas em esperança e revolta. Com elas e a elas, o espectador fica preso também. Massacrado, asfixiado. ‘48’ é um filme de terror humanista. 

RESUMO

A ditadura através de fotografias de presos políticos

Realizador: Susana Sousa Dias

Em exibição

FESTIVAL DE CINEMA: INDIELISBOA

O mais ecléctico festival de cinema em Portugal, com filmes para quase todos os gostos, regressa agora às salas de Lisboa. Este ano, o Herói Independente é o brasileiro Júlio Bressane (na foto), com uma cinematografia low cost quase desconhecida por cá. Vale a descoberta.

Resumo: Oitava edição do Festival de Cinema Independente

Data: até quarta-feira

Locais: Culturgest; Cinema São Jorge; Teatro do bairro; Cinemateca Portuguesa

Preços: 2,5/4 euros + info. www.indielisboa.com

CINE-CONCERTO: TINDERSTICKS COM FILMES DE CLAIRE DENIS

Quarta-feira poderá assistir ao cine-concerto dos Tindersticks musicando excertos de filmes de Claire Denis, a cineasta francesa com um imaginário multiculturalista e sofisticadamente cru. O espectáculo remete a banda para um papel que relembra as orquestras do cinema mudo. E bem.

Resumo: A banda de Stuart Staples Tindersticks - Claire Denis Film Scores 1996-2009

Local: Aula Magna (Lisboa) 21h30

+ info. www.ul.pt

LIVRO: ‘RAPOSAS DE FOGO’

Mais do que um ‘Rebeldes sem Causa’ no feminino, ‘Raposas de Fogo’ é uma radiografia feminista da fragmentação da sociedade pós-guerra (II). Face ao colapso, um grupo de jovens mulheres toma o destino nas suas mãos, recusando o estatuto de eternas vítimas. Impiedoso e contagiante.

Resumo: Na América dos anos 50, as ‘Raposas de Fogo’, um gang feminino, têm entre 13 e 16 anos e lutam pelos direitos que lhes são negados

Autor: Joyce Carol Oates

Editora: Casa das Letras

FUGIR DE...

‘THOR’

Este ‘Thor’ podia chamar-se: ‘Desbaratar quilos de talento e trabalho em duas horas. Pergunte-me como’. A realização de Kenneth Branagh e as interpretações de actores como Anthony Hopkins ou Natalie Portman são soterradas por um maremoto de clichés. ‘Thor’ é uma narrativa esfarrapada, atravessada por tentativas de sedução bocejantes. Salvam-se alguns cenários da mítica Asgard.

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