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Inferno tropical

Burlou o banco em dez milhões de euros e fugiu para o Brasil. Quis casar à pressa e recusou ser repatriado. Há dois anos numa cadeia do Rio, Camilo Coelho já só pede que o deixem regressar.
17 de Dezembro de 2006 às 00:00
Gargalhadas cínicas fazem eco pelos estreitos corredores e descem por escadas sombrias e húmidas que ligam ao calor sufocante das celas. Cortam o silêncio da noite e dispensam gritos de ameaça, o mote está dado e leva selo de morte. Todos querem o “português rico” do presídio, entrincheirado numa galeria onde a luz do Sol nunca esteve e poucos se arriscam a fechar os olhos, vergados ao medo constante de caírem numa ‘tocaia’.
Camilo Coelho já não é o bonacheirão de sempre, dois anos agarrado à vida entre três paredes e centenas de criminosos em fúria, refém preferido nos sangrentos motins em Ary Franco. O noivado fictício deixou-o a um passo do paraíso, mas, numa manhã de azar, caiu às mãos da Polícia Federal e entrou na ‘Porta do Inferno’, assim é conhecida a pior cadeia do Rio de Janeiro. Acusado de ter dez milhões de euros do Totta & Açores onde era gerente, fez tudo para não voltar ao nosso país e a Seia. Mas o bancário é o alvo de três facções criminosas rivais – e, agora, já implora que lhe acelerem o pedido de extradição.
Uma carta por mês é o único contacto de Irene Coelho com o filho mais novo, 55 anos feitos na cadeia, desde que em Setembro de 2003 partiu à pressa para umas férias no Brasil. “Escrevo-lhe com coração de mãe e peço-lhe que tenha calma”, diz com a voz embargada de saudades e esperança de um regresso a salvo. Mas a vida de Camilo deu muitas voltas. Deixou a mulher e a filha em Seia – e, depois de onze meses fugido num país onde não cometeu qualquer crime, preparava-se em Agosto de 2004 para casar com uma brasileira e ser livre para sempre, quando foi apanhado por um mandado de captura internacional em Maricá, no Rio de Janeiro.
Leva mais de dois anos preso por burla de dez milhões de euros a clientes do banco (ver caixa) e fez de tudo para não ser deportado. Foi agora apanhado em violenta guerra de gangs e é o principal escudo humano na disputa pelo poder nas galerias do presídio. A Domingo entrou em Ary Franco e sabe que, entre os dois últimos motins, no curto espaço de três dias, o português passou horas de aflição com facas apontadas ao pescoço. “Só por muito pouco ainda não o executaram”, adianta fonte prisional.
COMANDO VERMELHO, TERCEIRO COMANDO E IRMÃOS DE ISRAEL
Comando Vermelho, Terceiro Comando e Irmãos de Israel odeiam-se entre si e ditam leis nas três galerias subterrâneas da cadeia. A última facção é considerada a mais perigosa e, formada por criminosos expulsos das outras duas, avançou sozinha para os dois motins deste mês. Condenados por homicídios, violações ou tráfico, há Irmãos de Israel a cumprir mais de 200 anos cada. E sem nada a perder, na segunda-feira, dia 4, foram os primeiros a avançar sobre as “celas dos estrangeiros”.
Dominaram os guardas e procuraram Camilo, “foi escolhido para principal refém”. Chamaram pelo português. E só ao fim de várias horas este teve a esperança de sobreviver, quando os agressores se renderam e voltaram às celas. Mas “nada foi feito para melhorar a situação” dos 400 revoltosos na galeria. E os presos recolheram “sem qualquer revista”, com facas e armas de fogo escondidas na roupa. A próxima rebelião estava por dias.
E quando o dia nasceu na quinta-feira seguinte já Camilo andava pelo chão, às mãos dos criminosos que o “queriam executar para chamar a atenção da Imprensa”. O crime financeiro e o facto de falar “a mesma língua” dão a Camilo um mediatismo dispensável, “é uma forma de pressionarem as autoridades”. A sorte do português foi a invasão das galerias pela tropa de choque, mas, para pôr fim ao motim, entraram com ‘shot-guns’ a matar. Dois presos morreram e várias dezenas ficaram feridos.
Camilo sobreviveu mas a Polícia bateu a direito e não perdoou. Os estrangeiros também ficaram feridos e sem “tudo que se possa transformar em arma”, quase toda a roupa foi levada e “deixaram-nos praticamente nus”. O próximo motim pode explodir a qualquer altura e, cada vez mais, Camilo “corre sérios riscos de vida”. No presídio sobrelotado por mais de mil condenados entre as cinco galerias, e onde só duas têm luz natural, o ódio pelos estrangeiros prende-se “com as melhores condições” – camas vagas na cela. Cada piso tem seis a oito celas de 35 metros quadrados, com capacidade máxima de 16 presos, mas a maioria comporta o dobro. No espaço em que os mais fracos dormem de pé e agarrados às grades, há redes suspensas no tecto e sobressai o cheiro a mofo, suor ou urina. A falta de higiene e os confrontos físicos nas caves são constantes.
PEDIDOS EM VÃO
Camilo já pediu várias transferências para prisões de maior segurança, mas sem sucesso. Só no final de Novembro fez dois pedidos com carácter de urgência, renovados na última segunda-feira. A guerra entre facções rivais não é aconselhável a estrangeiros à espera de extradição. “Não vão parar e podem matá--los para o caso ter repercussões internacionais”. O português nunca quis ser deportado mas já só quer sair daquele “inferno”. E pede agora às autoridades nacionais que acelerem o seu processo. Só que este tramita há mais de dois anos no Supremo Tribunal Federal, em Brasília, atribuído ao juiz Cézar Peluso.
A extradição foi determinada em Fevereiro – é acusado no nosso país por burla, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro –, mas foi o próprio Camilo a atrasar o processo, recorrendo da decisão e pedindo nova apreciação do caso. Está arrependido e espera pela decisão rápida que lhe salve a vida. Mas Maria Lúcia, assessora do juiz, adianta à Domingo que tal pode já não ser possível antes do início do próximo ano.
Mas na pequena aldeia de Pinhanços, arredores de Seia, há uma senhora de 79 anos que resiste a tudo o que lhe dizem do filho, será sempre a mesma “jóia de rapaz”. Irene já escreveu ao Presidente da República, Ministério Público ou Ministério dos Negócios Estrangeiros. O filho “está doente, sofre de alergias e tem tensão alta. Vive ali sem luz e está sempre constipado” – a mãe já só pede que a Justiça o traga de volta. Irene sofre de coração e tem “um grande desgosto com tudo isto”, pensa na neta com quem só vai falando ao telefone.
Camila, hoje com 12 anos, partiu com a mãe para Ponte de Sor e é lá que este ano vive e estuda, perdeu o rasto ao pai. Em Seia ainda todos se lembram das “artimanhas” de Camilo, o simpático gerente de conta que se passeava de BMW X5 e acenava a toda a gente “enquanto desviava os milhões dos outros”, acusa um popular. Por isso a professora Fernanda Coelho se “divorciou logo” e dá agora aulas no Alentejo. Fechou a grande vivenda amarela e partiu de vez.
VISITA GUIADA À PRISÃO
MIL VIDAS NO ABISMO
O ‘Maracanã’ enche todas as sextas-feiras para as boas-vindas aos novos presos, rapazes na sua maioria com pouco mais de 18 anos que se despedem da luz do dia. O mítico estádio carioca dá nome a um amplo e escuro salão, por onde entram e esperam em silêncio mais de 50 homens antes de caírem no abismo. E quando entram nas galerias apontam à facção do crime a que obedecem, decisão sumária que lhes pode custar a vida. Comando Vermelho, Terceiro Comando e Irmãos de Israel não se podem cruzar, mistura explosiva que leva os 280 presos de cada galeria a só verem o Sol uma vez por semana.
A cadeia tem 1030 presos e a galeria de Camilo Coelho está sobrelotada com 400, vigiados por um só guarda nas duas horas em torno do decrépito campo de futebol. A forma de os presos comunicarem chama-se ‘Internet’, mas não passa de uma rede de fios e cordas atadas às grades e onde os condenados vão passando bilhetes. E há o sistema do ‘Ratão’, a forma de ocupação rápida encontrada para terem relações sexuais numa cadeia onde são proibidas visitas íntimas. As mulheres entram para uma pequena área coberta e, enquanto um preso vigia a porta, outro tem relações em pé. Esta é suposto ser uma prisão de transição mas os meses parecem anos – e, na ‘Porta do Inferno’, os anos são para a eternidade.
A BURLA DOS DEZ MILHÕES E O 'NOIVADO‘ QUE O PODIA SALVAR DA JUSTIÇA
Enquanto se passeava de BMW X5 pelas ruas de Seia, o simpático gerente de conta no Banco Totta & Açores acenava a toda a gente com o seu “ar bonacheirão”, recorda um popular. Tinha a confiança do povo e os seus conselhos eram leis. Camilo Ambrósio Coelho tinha anos de casa e terá convencido comerciantes, advogados, construtores civis e outros clientes abastados a investirem em carteiras de negócios que o banco tinha no estrangeiro.
Além de seguro era rentável, os lucros não iriam tardar. Só que o dinheiro era todo desviado para uma conta sua, um esquema que ao todo lhe terá permitido amealhar dez milhões de euros. Só que o banco desconfiou, afastou-o – e, tempos depois, apresentou queixa-crime contra o funcionário. Camilo não perdeu tempo e, ao ver os bens confiscados e na iminência de ser preso, fugiu para o Brasil. Chegou ao Rio de Janeiro em Setembro de 2003 e precisava de casar, a forma de ter dupla nacionalidade e evitar ser deportado. Só que o divórcio de Fernanda Coelho não foi imediato, há ainda um período de nojo – e, onze meses depois, já ‘noivo’ de uma brasileira, foi apanhado. O banco pagou as dívidas aos burlados.
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