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Invocação de Nelson, o bardo de Copacabana

Envergonhados, nunca soubemos apreciar devidamente o génio de Nelson Rodrigues e do seu sofrimento.
António Sousa Homem 17 de Janeiro de 2010 às 00:00
Invocação de Nelson, o bardo de Copacabana
Invocação de Nelson, o bardo de Copacabana

Camilo e Nelson Rodrigues foram dois dos grandes reaccionários da nossa Língua, de cada um dos lados do Atlântico – e cada um à sua maneira. Descobri Nelson Rodrigues por acaso, quando o destino me levou até ao Rio de Janeiro em busca de cura para males de que julgava padecer (e, comigo, minha mãe, Dona Ester).

Para o nosso conservadorismo lusitano (e para o da minha família), Nelson Rodrigues seria um porta-bandeira da imoralidade, do desatino e das poucas vergonhas que chegavam do Brasil. Envergonhados, nunca soubemos apreciar devidamente o génio de Nelson Rodrigues e do seu sofrimento, comparado ao de um adolescente puro rodeado de pecado, como São Jorge sitiado pelos dragões.

A Tia Benedita nunca o teria compreendido; o velho Doutor Homem, meu pai, conservador de veia inglesa, determinaria que fosse catalogado entre os plumitivos, na barra dos polemistas morais.

E, na verdade, a impressão que me causou Nelson Rodrigues, de que me tornei leitor no final da década de cinquenta e durante toda a década de sessenta, foi a de uma explosão de vida no labirinto da nossa piedade. Uma piedade que cercava toda a nossa vida e a tomava de empréstimo como se fosse coisa sua.

A minha sobrinha Maria Luísa não gosta do título de um dos seus livros, ‘O Reaccionário’. Mas era assim que Nelson Rodrigues era conhecido e tratado – não só porque as esquerdas o odiavam mas, também, porque as direitas o desprezavam. Ele tratava das coisas miseráveis da nossa vida. Tratava da pureza, da inocência do amor, da desilusão que tomava de empréstimo todas as utopias da política.

Mesmo não apreciando o título, Maria Luísa descobriu nele a vitalidade de um jornalista que escrevia sobre o fio da navalha, sobre os abismos, sobre a banalidade e a maldade.

Só pude compreendê-lo inteiramente porque respirei as brisas de Copacabana, o seu espavento de velocidade e de plebeísmo, o seu perfume de imoralidade e romantismo. Em Portugal não poderíamos entendê-lo na época e só podemos, hoje, tratá-lo como um acontecimento de museu. Ninguém como ele falou do pecado e do arrependimento, da culpa e da alegria, com aquela simplicidade banal e eléctrica dos autores que não têm tempo de voltar atrás para verificar a gramática.

Fez-nos falta um Nelson Rodrigues que tivesse ensurdecido o túmulo em que se transformou o conservadorismo português, com os seus arrebiques e fardas. Mas, se ele tivesse existido, ali estaríamos, na primeira linha, escandalizados e de gramática na mão, perseguindo-o aos pinotes.

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