Irene Pimentel: “Portugueses contavam que eram espiões”

Historiadora Irene Flunser Pimentel conta em livro como Portugal foi o paraíso para espiões de todas as partes na II Guerra Mundial
08.11.13
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As atividades de espionagem em Portugal durante a II Guerra Mundial têm sido tema de vários livros e até filmes. O que a levou a pegar no assunto?
Quando fiz o livro sobre os judeus em Portugal durante a Guerra tinha um capítulo em que falava da espionagem. Quando se fala da II Guerra Mundial em Portugal tem de se falar dos espiões. O tema sempre me interessou muito, leio muitos livros de espionagem e policiais. Mas aqui falo de histórias reais.

 

Nota-se que houve um trabalho exaustivo de pesquisa. Onde encontrou as informações sobre a organização dos vários serviços secretos presentes em Lisboa?
A pesquisa passou por vários sítios. Muito do material vem dos arquivos ingleses, que são absolutamente fabulosos. Mas são dos arquivos com menos factos inéditos, até porque já foram vistos por outros autores portugueses, como o Rui Araújo ou o José António Barreiros. Também fui às fontes alemãs, que não são muito abundantes por uma razão que se prende com a própria história: é que o grosso dos arquivos da espionagem foi levado pelos aliados, que ganharam a guerra. Estive em Inglaterra e na Alemanha, mas apercebi-me de que devia haver muitas coisas nos Estados Unidos da América sobre os alemães. Consultei arquivos americanos, mas não presencialmente, eles têm um serviço muito bom de referências que podem ser consultadas online e depois pedi que me enviassem cópias de documentos. Foquei-me sobretudo nos ingleses e nos alemães e um pouco nos franceses e nos americanos. Mas em Portugal também se encontravam romenos, checos e até soviéticos. Essa pesquisa ainda está por fazer, são muitas histórias.

 

Apesar de todas as ameaças e pressões dos aliados e das forças do eixo, percebe-se que a neutralidade portuguesa dava jeito a todas as partes...Portugal era um país neutro, mas foi variando a sua postura conforme os resultados da guerra. Houve inicialmente uma aproximação aos alemães, que durou até 1942. A partir daí, quando se começa a perceber que os aliados iam ganhara a guerra, há mais proximidade com os britânicos. Uma das coisas que ficou na História e até na mitologia popular é que o Salazar nos salvou da guerra. É verdade que Salazar jogou bem, era muito pragmático nas relações externas, em que a ideologia não era tida em conta. Mas é preciso ver que a neutralidade portuguesa foi possível porque interessava aos dois campos beligerantes. Aos ingleses, para que a Península Ibérica se mantivesse neutra. Aos alemães, esta neutralidade interessava porque era em Portugal que adquiriam muitos dos produtos que usavam no esforço de guerra. Sobretudo pela questão do volfrâmio, mas também conservas e peças de lã.

 

Portugal era um sítio apetecível para se escapar aos horrores da guerra?Todos os espiões diziam isso e também os refugiados. Era um país onde se sentiam salvos. Embora, no início dos anos 40, tenha havido um momento em que não se sabia se os alemães entravam aqui, ou se vinham os espanhóis com apoio alemão. Para os espiões, Portugal era maravilhoso. Era como se estivessem em férias, num tempo em que a Europa estava a ferro e fogo. 

 

Alemães e ingleses frequentavam hotéis, casino, bares e clubes. Sabiam da existência uns dos outros?
Absolutamente. Os lobbies dos hotéis estavam cheios de espiões dos dois lados, que se escutavam e se provocavam mutuamente. Uma das grandes questões que marcou esta guerra foi a espionagem dupla - espiões que aparentemente trabalhavam para um dos lados mas que estavam ao serviço do campo oposto. Portugal serviu muito para introduzir falsas informações. A partir de certa altura, os alemães diziam nos seus relatórios que eram mais as informações falsas do que as reais, mas eles não tinham noção do quanto estavam a ser enganados.

A sociedade portuguesa dividia-se entre germanófilos e anglófilos. No meio de tanta propaganda, os portugueses estavam bem informados sobre o que realmente se passava na Guerra?
O grosso das pessoas não estava informada, até porque havia muito analfabetismo. Mas existia uma classe média, dos empregados administrativos que se encontravam no Rossio a ler os jornais. Havia conversas muito calorosas. Entre a população, havia mais gente a pender para os aliados do que para os alemães. Nas elites do regime, havia muitas divisões. Isto acontecia na Legião Portuguesa na Polícia Política (então a PVDE) e entre os próprios membros do Governo. Debatia-se a questão ideológica, mas muitos portugueses atuavam, à vez ou em simultâneo, para os dois lados. Muitos mudaram de campo, trabalhavam para os alemães e, a partir de 1943, passaram a apoiar o lado britânico, não tanto por questões ideológicas, mas pelas razões mais básicas, do dinheirinho.

 

Conta o episódio do plano do SD alemão para assassinar oposicionista alemão Otto Strasser, em que Schellenberg explica como os portugueses ludibriavam os alemães. Era difícil confiar nos portugueses?
O dirigente do SD [os serviços secretos das SS] queixava-se das informações falsas que recebia e lamentava o dinheiro que tinha que dar para que as atividades fossem desenvolvidas. Conta que teve de financiar os sapatos de uma família inteira, porque um dos vigilantes da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, antecessora da PIDE) disse que tinha gasto as solas enquanto perseguia e vigiava as pessoas indicadas por Schellemberg

 

Parece que nem de um lado nem do outro havia muita confiança nas capacidades dos portugueses serem espiões...
Nenhuma. Sempre que se fala nos portugueses, diz-se que não são de muita confiança. Os britânicos contam que a primeira coisa que os portugueses faziam quando eram recrutados, sobretudo pessoas mais do povo, era contar a toda a gente que eram espiões. Os alemães também dizem isso, mas queixam-se sobretudo de lhes estarem sempre a pedir dinheiro. E quando não tinham mais informações para dar, inventavam. Mas essa prática não era só dos portugueses. Houve casos de célebres espiões que o fizeram.

 

Há o célebre caso do espião ‘Garbo', que passou quase toda a guerra a inventar...
O ‘Garbo' é um caso muito especial, porque estava no topo. Era um espião quase esquizofrénico, um espião duplo, Mas ele tinha um grande apoio do Comité XX britânico. Os grandes espiões tinham um oficial que os apoiava, não inventavam sozinhos. É interessante porque os espiões duplos tinham que divulgar algumas notícias corretas, que os alemães pudessem corroborar, para depois poderem dar as grandes mentiras.

 

Discute-se muito o papel do banqueiro Ricardo Espírito Santo neste jogo de espiões...
Ele era um germanófilo e os ingleses qualificavam-no como tal. Ele acolheu os duques de Windsor em sua casa, que também simpatizavam com a Alemanha. Mas aconteceu com ele o que se passou com outros tantos, a partir de certo momento as coisas mudaram. A dada altura, um dos espiões da Legião Portuguesa ao serviço dos alemães começou a vigiar o banqueiro. Depois da guerra, muita gente disse que os Espírito Santo apoiaram os judeus porque casaram com judias, e é verdade que dois dos Espírito Santo casaram com judias. Isso foi utilizado para dizer que não tinham sido germanófilos, mas, se calhar, se a Alemanha tivesse ganho a guerra poderiam admitir que eram germanófilos, como eu acho que eles eram, pelo menos até 1943.

 

Os britânicos conseguiram, por volta de 1942 controlar todos os agentes alemães em Portugal. Eram mais competentes?
Sim. Há um livro sobre a história da espionagem que diz que os ingleses têm um especial jeito para aquilo, pelo seu fleuma, pela reserva que têm. Eles foram muito bons. Comparando com o OSS americana, a organização que antecedeu a CIA, nota-se que os ingleses tinham uma tradição, uma outra forma de estar. Eram os melhores espiões.

 

O que falhava na espionagem alemã?
Eles tinham duas redes de espionagem que viviam uma grande rivalidade, a Abwehr e a SD. As agências de espionagem são quase sempre rivais, mas os ingleses conseguiam complementar o trabalho do MI5 com o MI6. Os problemas germânicos têm a ver com o próprio regime e com a questão do estado SS [a força militar criado por Hitler]. Ao contrário do que se pensa, a dada altura existiam na Alemanha diversas fontes de poder. O regime não era uma força monolítica controlada por Hitler, há até quem use o termo policracia para referir diversos poderes estatais. A dada altura, as forças SS começam a dominar todas as polícias e os serviços secretos da SD. A Abwehr já existia e pertencia ao Alto-Comando do Exército Alemão. Instala-se uma rivalidade em que se escondiam e se traíam uns aos outros.

 

Canaris, comandante da Abwehr é apontado como um traidor...
Ele sempre negociou, nas costas de Hitler, com o MI6 britânico ou com o Vaticano. Faz parte daquela gente que, a partir de um determinado momento, quando se percebe que a Alemanha está a perder a guerra, começa a não achar muita piada a Hitler. Percebe que ele está a arrastar o país para uma derrota. Canaris não participa diretamente, mas muitos homens da Abwehr fazem o atentado contra Hitler em 1944. Há uma história trágica, a do célebre duplo espião Jebsen, raptado em Portugal e levado para a Alemanha pela Abwehr a quem ele pertencia e em quem confiava. A Abwehr, quando sabe que Jensen ia passar para os ingleses, quer neutraliza-lo porque ele poderia comprometer as redes que iam fazer o atentado contra Hitler. Quando, em 1944, Canaris é detido e depois executado, as redes de Abwehr são integradas nas SS e Jebsen é entregue à Gestapo SD e morto num campo de concentração.

 

Por outro lado, um grande amigo de Jebsen, o também espião duplo Dusko Popov tem a melhor das vidas em Lisboa...
Completamente. Adorava andar em bons carros, limousines, tinha amantes. Quer aqui quer nos Estados Unidos, para onde depois é enviado. Foi por causa disso que Hoover, o homem do FBI, não gostava nada dele. Há um relatório que Popov dá aos serviços secretos ingeleses em que conta o seu dia-a-dia em Lisboa : jantares, almoços, casino, hotéis, era uma vida muito interessante. Ele e o ‘Garbo' são os grandes espiões. Em grande parte a vitória na Normandia deve-se aos espiões duplos, que afastaram os alemães do verdadeiro local do desembarque.

 

Lisboa mudou muito nesta altura da guerra?
Completamente. De repente, Lisboa era uma cidade cosmopolita. E passou a figurar na mitologia do cinema, muitas vezes também no cinema de série B , e na literatura como um país de espiões. O grande problema desse cosmopolitismo é que a guerra acabou mas voltou tudo ao mesmo.

 

Ian Fleming  e Graham Green passaram por uma Lisboa que inspirou muitos romances...
Sim, lembro também o Isaiah Berlin. Eram agentes secretos na altura. O Ian Fleming era dos serviços secretos navais e o Graham Green do Gabinete Ibérico do MI6. Ele fez relatórios bastante completos sobre como os agentes secretos se deviam comportar em Lisboa. Avisava quem eram os portugueses a favor ou contra. Outro caso curioso foi o envio pela OSS [a agência americana] de uma senhora para Lisboa, que se fazia passar por jornalista. Ela avisou Washington que nunca mais se devia enviar uma mulher para um país latino. Estava constantemente a ser seduzida e abandonada, não conseguia atuar.

 

Os britânicos queixavam-se repetidamente da falta de atuação das autoridades portuguesas perante as atividades alemãs. Tinham razões de queixa?
Tinham, mas tem tudo a ver com a cronologia. Até 1942 pode-se dizer que o grande relacionamento era com os alemães. A espionagem e a propaganda alemã estavam completamente livres. Em 1942, dá-se o célebre desmantelamento da rede Shell, o que foi muito complicado para os britânicos.  Houve discussões em Inglaterra sobre o que fazer em relação ao velho aliado, que era um país neutro mas cada vez mais adjacente ao inimigo. O regime de Salazar prendeu os portugueses que trabalhavam nessa rede e expulsou os britânicos, que eram funcionários da embaixada. A ideia da rede era que, se a Alemanha invadisse Portugal, - o que chegou a ser temido em 1941 - haveria uma sucessão de sabotagens da rede viária, de fontes de energia, armazéns, etc. A nível oficial, estavam a ser negociadas essas ações de sabotagem, mas a rede Shell ia muito para além do que tinha sido acordado. Os britânicos queiram que houvesse muito mais demolições que os portugueses, para não deixar nada aos nazis.

 

O que motivava os portugueses que pertenciam à rede Shell?
Havia muitos portugueses na rede e o que os motivava não era tanto o dinheiro, mas mais razões ideológicas. Havia reviralhistas, aliadófilos e até comunistas, à revelia do próprio PCP. Havia em Inglaterra quem apoiasse o apoio a forças opositoras ao regime de Salazar. O regime português não tinha legislação nenhuma contra a espionagem estrangeira em solo português. Só em 1943, em parte também por causa da rede Shell, mas também quando as redes alemãs estão a ser desmanteladas em Portugal. Tinham sido denunciadas pelos ingleses.

 

A questão da base das Lages nos Açores foi outra questão tensa nas relações entre Inglaterra e Portugal...
É muito curioso porque os ingleses começam por ser muito radicais na questão da ocupação dos Açores e os americanos tentaram moderar o problema. Mas depois são os ingleses que contemporizam com o Governo português. A atitude de Salazar é muito interessante. Fernando Rosas usa a expressão ‘saber durar'. Uma das táticas dele era demorar, demorar, demorar. Não respondia às solicitações e fez durar a questão dos Açores até ser obrigado a aceitar a cedência da base. Mas conseguiu que o embargo do volfrâmio, vital para os alemães, só acontecesse em 1944.

 

Há um defraudar de expectativas quando acaba a guerra e nada muda em Portugal?
As oposições pensavam que a derrota dos nazis-fascistas levaria às derrotas das ditaduras ibéricas. Mal em 1949 Portugal já estava na NATO e todas essas esperanças se esfumaram. Os aliados ocidentais, com o início da Guerra Fria, apostaram em Salazar. Preferiam que o poder não caísse na rua ou que ficasse nas mãos de comunistas.

 

Lisboa volta a ser uma cidade provinciana?
Sim, volta a tornar-se pouco cosmopolita. Até pela partida dos refugiados, que Salazar não queria em Portugal. O interesse em Lisboa quase desaparece.

 

Depois da Guerra, a América afirma-se como a grande potência da espionagem...
Sim, já no final da Guerra a OSS tinha um grande plano estratégico para o que ia passara-se a seguir. A América torna-se a grande potência.

 

Como vê a crise atual com a descoberta da espionagem dos americanos a países amigos?
Acho tremendo o que aconteceu, embora nós soubéssemos que isto se passava. O que aconteceu foi que Snowden [o ex agente da NSA que denunciou a espionagem americana] concretizou o que já intuíamos. Mas que estivessem a espiar os governos aliados desta forma é demais. Vê-se nas reações oficiais uma indignação medida, porque perante as opiniões públicas tem de se protestar. Mas há a ideia de que os americanos estão ali para nos proteger. Os serviços secretos americanos sofreram um grande golpe, mas já estavam fragilizados. Como é que o 11 de Setembro não foi previsto?

 

Partilha a ideia de que hoje se confia demasiado na tecnologia para as operações de espionagem?
Sim, se olharmos para a II Guerra Mundial, a parte humana da espionagem era fundamental. A tecnologia foi muito importante - a descoberta da máquina enigma que decifrava as mensagens alemãs foi fulcral, até porque permitia saber se os agentes duplos eram acreditados pelos alemães. Mas a parte da investigação, da construção de personagens era fundamental. O agente ‘Garbo' tinha uma rede fictícia em que inventava a personalidade de 17 agentes que não existiam. Hoje parece que não interessa tanto o conteúdo do que se escuta, mas antes o facto de poder aceder-se aos contactos.

 

Em Portugal, a falta de jeito para a espionagem parece manter-se. Os assuntos dos serviços secretos acabam sempre nas páginas dos jornais...
Há uma questão histórica, durante muito tempo os "serviços de informação" (entre muitas aspas) estavam nas mãos PIDE, que era um serviço internacional. A PIDE era uma espécie de KBG, era ao mesmo tempo interna e externa. O lado externo era muito fraco, porque a PIDE funcionava sobretudo contra os adversários internos. Com a guerra colonial as coisas modificaram-se e a PIDE funcionou como os serviços secretos das Forças Armadas. Houve sempre tentativas de a Defesa Nacional criar o seu próprio serviço, o que a PIDE não queria. Com o 25 de Abril, a polícia que era ao mesmo tempo o serviço de informação externa foi extinta e não ficou nada. Durante muitos anos não funcionou qualquer serviço.

Se calhar não somos mesmo bons a guardar segredos...
Os ingleses diziam isso, se calhar tinham razão

 

Irene Flunser Pimentel tem 63 anos e é Historiadora

Pertence ao Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa

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4 Comentários
  • De Indulgente10.11.13
    historiadora de esquerda, sem objectividade e isenção. O Estadista cumpriu o que prometeu: livro-vos da guerra, mas não da fome. Houve racionamentos não corrupção, os horrores da guerra não se sentiram, defendeu a Nação.
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  • De segismundo c c de bragança09.11.13
    Os portugueses contavam que eram espiões. Se calhar até tinham um chapeu com um letreiro a dizer POLÍCIA SECRETA.
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  • De Ana Wiesenberger08.11.13
    Gostei muito de ler a entrevista. É fundamental sensibilizar as pessoas para a cultura. Um povo pouco informado, sem hábitos de reflexão e de crítica, é uma presa fácil para governos manipuladores. Conhecimento é poder.
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  • De João 08.11.13
    Se fosse uma noticía da Casa dos Segredos, toda a gente comentava. Mas como é algo histórico, nem 1% vai ler. Parabéns pela entrevista, parabéns à autora, está de facto um trabalho notável!
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