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Iris com pronúncia do Sul

Banda da Fuseta, no Algarve, sobe ao palco há 35 anos mas só um dos elementos se mantém.
Marta Martins Silva 2 de Março de 2015 às 12:17
Atuação da banda, que está a preparar o seu 8º álbum
Atuação da banda, que está a preparar o seu 8º álbum FOTO: D.R.

Eles já se queixaram "Oh mãe, aquele moçe batê-me" e aconselharam "Atira-te ao mar e diz que t’empurrarem (...)", num linguarejar algarvio com tendência conhecida para comer as sílabas ("Fic’almariado"), dar tonalidades diferentes às vogais ("O tê perfume e o tê olhar"), usar gerúndio ("Pensando naquele que está no mar") e expressões que exigem  dicionário para tradução ("Sem saber abanhar").

Iris não é uma novidade no panorama artístico nacional, mas o seu regresso é. Não que a banda tenha desaparecido para parte incerta alguma vez, mas prepara-se agora para lançar o oitavo álbum, depois de ‘Sueste’, o anterior,  ter vindo a público em 2009. Já tiveram editora, já a perderam, mas isso não impede que continuem por aí – a fazer uma média de 25 espetáculos por ano.

Já lá vão 35 anos de estrada do grupo inicial – que começou por tocar em 1979 em bailes para pessoas "que estavam mesmo lá para bailar"–, mas dessa formação só Domingos Caetano resistiu à passagem do tempo. Tanto tempo que já perdeu a conta aos músicos que por ali foram passando e desistindo, abraçando outras vidas, muitas vezes fora dos palcos, mais perto das famílias e de vidas convencionais.

"Nunca casei, fui casando, como a gente diz. Quis viver ao máximo aqueles tempos, tenho colegas que tiveram problemas, queriam ter esta vida mas também queriam ter a mulher em casa, mas uma mulher precisa de atenção, eles não podiam ser sacanas. A maior parte deles optou por ficar em casa",  conta aos 58 anos, sem pingo aparente de ressentimento pelos que abandonaram o barco que ele comanda ao leme.

"Digo-lhes sempre: esta separação não tem de nos pôr inimigos." Para compensar, outros vão chegando – muitos deles, nos últimos anos, saídos da Associação Cultural Fusetense, onde Domingos dá aulas de música. Alexandre e Gustavo, de 20 e  21 anos, foram as últimas aquisições do grupo algarvio.

"As meninas agora ficam passadas por eles", brinca Domingos, sem se importar que as fãs mais atrevidas sejam, no seu caso pessoal, coisa do passado.

Atualmente são cinco elementos – tem sido a média desde 1979 –, mas volta e meia acolhem mais um ou outro membro temporário. "Somos uma família. Se há algum músico que precisa de trabalho, nós integramo-lo na banda o tempo que for preciso."

POLÍTICOS INDIGNADOS

O tradicional linguarejar do Sul do País tem sido mesmo a marca distintiva desta rotativa banda. "Gosto de manter esta tradição algarvia, que mais do que uma tradição é uma maneira de ser do nosso povo. Tal como não faz sentido um coro alentejano cantar com o sotaque de Cascais. Eu gosto de recolher estas palavras. Mas ao princípio deu uma grande barraca, houve políticos aqui da nossa zona que me chamaram e me ameaçaram que eu não podia fazer aquilo, que estava a gozar com o povo. Eu disse: ‘Desculpa, amigo, eu estou fazendo o registo de uma coisa que é nossa, que é propriedade nossa e que desta forma vai ficando para as gerações que vierem a seguir’. E pega, porque as pessoas fixam as músicas. O nosso primeiro disco ainda continua a vender", diz Domingos, sobre o álbum ‘Vão Dar Banhó Cão’, de 1995.

"Até aí nunca tinha sentido necessidade de gravar, eu gostava era de tocar. Até que surgiu a ‘Oh Mãe!!’ [aquele moçe batê-me] – versão do tema ‘The house of the rising sun’, imortalizado pelos The Animals – e as pessoas ficaram abismadas, e as salas enchiam só por causa daquela música. E eu dizia: então, em vez de verem a malta tocar coisas a sério, vêm ver a malta tocar estas brincadeiras?"

POLÍCIA AO BARULHO

Das ‘brincadeiras’ ao contrato assinado com a Vidisco foi um curto passo para o algarvio que nunca se quis instalar em Lisboa, antes preferiu ter sede no Sul onde nasceu e se fez homem. Foi lá, aliás, que viveu, com a banda, um dos episódios mais insólitos, pouco tempo depois do lançamento do primeiro álbum.

"Fomos tocar a Vila Real de Santo António e quando cheguei ao palco, e olhei para o público, pensei: ‘Mas tanta gente, saiu tudo de casa?’ Nunca tínhamos passado por uma situação destas, quando acabámos de tocar e fomos para os camarins tivemos de fugir, teve de vir a polícia para nos levar de carro e nos proteger da loucura dos fãs."

Corria-lhes então a sorte de feição quando, em 1999, foi diagnosticado um cancro a Domingos, o pilar da banda.

"Destrambelhou-nos a carreira por completo. Tivemos de cancelar todos os espetáculos, mas conseguimos regressar em 2002, com o álbum ‘A2 Sul’, uma homenagem" à autoestrada que liga Lisboa a Albufeira, concluída nesse mesmo ano.

Passaram-se 13 anos e mais álbuns se lhe seguiram. "Temos as músicas no iTunes e em outras plataformas digitais, as pessoas podem comprar connosco, foi a forma que encontrámos de sobreviver quando não temos quem nos represente", orgulha-se e lamenta-se ao mesmo tempo o fundador da banda, que vive exclusivamente da música, em modo Iris ou em nome individual. ‘Nada me convence a parar (...) O que me resta é caminhar’, canta na música ‘Mundo à Sorte’. É o que tem feito, mesmo quando a sorte não sorri.

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