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Irmãos do mar

É um clube restrito:só aceita homens navegadores que já tenham percorrido distâncias, no mínimo, iguais à que separa Lisboa da Madeira (200 milhas), como capitães de bordo. Há 41 ‘irmãos’ no País
8 de Fevereiro de 2009 às 00:00
Irmãos do mar
Irmãos do mar

Descendem dos piratas da ilha de Tortuga – entre o Haiti e a República Dominicana – não de sangue, mas por convicção. Há em Portugal uma confraria que só aceita homens no seu restrito grupo. Todos são navegadores com experiência de comando de embarcações, sob vela, em viagens nunca inferiores como ir até à Madeira – 200 milhas náuticas, ou cerca de 360 km – e não precisam ter embarcação própria. Entre os 41 Irmãos da Costa portugueses destaca-se o mais internacional dos velejadores portugueses, João Cabeçadas, que já fez parte da tripulação dos veleiros ‘Esprit de Liberté’ e ‘La Poste’ e que integra a tripulação do ‘Alinghi’, veleiro suíço vencedor das duas últimas edições da Taça América. Ou ainda o arquitecto José Troufa Real. Este movimento, com mesas pelo Mundo inteiro, nasceu no Chile, onde o célebre explorador submarino Jacques Cousteau foi entronizado 'irmão'.

'Embora se possa ser levado a pensar que alguns rituais e princípios se assemelham, vagamente, aos da Maçonaria, não se pode dizer, com plena propriedade, que os Irmãos da Costa são os maçons do mar', explica Humberto Baptista da Costa, um dos mais antigos membros dos Irmãos da Costa no nosso País. 'Se entendermos que a Maçonaria pretende ser uma escola de aperfeiçoamento, pode-se admitir tal similitude: os marinheiros estão permanentemente em aprendizagem. Poderá isso ser considerado um ‘paralelismo’?'

Na Irmandade da Costa, a Mesa dos Capitães funciona como a direcção de uma associação. Os membros de cada Mesa nacional distinguem-se pelo cargo, mérito náutico e actos praticados entre os Irmãos. O ‘Grande Irmão’ (presidente da direcção) é identificado por ostentar três estrelas brancas, no pavilhão que iça, quando embarcado. Em Portugal, é João Baracho (com sobrenome ‘O Eterno’), 53 anos, engenheiro mecânico e empresário náutico. Rui Pereira Costa (‘Falcaças’), 54 anos, director de serviços públicos, é o ‘Grão Escriba’ (secretário-geral): usa duas estrelas. Pedro Pinto Correia (o ‘Chavelho’), 53 anos, bancário, é o ‘Guarda Mor do Tesouro’ (tesoureiro). No cargo de ‘Comodoro’ (ou presidente da mesa da assembleia geral) está o advogado João Gonçalves Gomes (o ‘Mandíbulas’). Peter Zickermann (o ‘Alemão de Cascais’), empresário, é o actual ‘Grão Vigia’ (presidente do conselho fiscal). E há o equivalente ao relações públicas, o ‘Vigia Internacional’ João Costa Lopes (o ‘Flush Deck’), empresário, despachante oficial (que divide o comando da caravela ‘Vera Cruz’ com José Inácio Júnior, o ‘Com Dor’, também ele ‘irmão’ e que, recentemente, efectuou um prolongado cruzeiro pelos mares da Antárctida).

Entre os ‘irmãos’ há vários oficiais da Marinha Portuguesa. À frente do ‘Crioula’ esteve João Silva Ramos, ex-bacalhoeiro da Armada Branca. José Malhão Pereira comandou o navio-escola ‘Sagres’. Malhão Pereira tem um veleiro Dufour 45, de 14 metros de comprimento, com quatro cabinas duplas, que proporciona viagens à família, incluindo os netos. Conta que numa navegação até à África do Sul foi ajudado por um ‘irmão’. 'Demos conhecimento a um ‘Irmão da Costa’ de Saldanha Bay, o senhor João Costa, da nossa estada na África do Sul, tendo-o informado dos nossos movimentos. Dado termos planeado visitar o Cabo, Saldanha Bay e Baía de Santa Helena, este ‘irmão’ encarregou a filha de nos receber. Esta, que trabalhava em Durban, tirou quatro dias de férias para nos acompanhar, proporcionando-nos uma inolvidável experiência. De facto, o seu conhecimento e experiência do território permitiu-nos visitar todos os locais com memórias da passagem dos portugueses pela área, e muitas outras zonas de interesse' – diz.

'A entreajuda, na Irmandade, não se limita aos seus membros. É bem mais abrangente e, normalmente, relaciona--se com situações no mar, onde os problemas podem atingir dimensões inimagináveis' – acrescenta Baptista da Costa, 72 anos, empresário de seguros, que já foi membro da primeira mesa portuguesa, a de Luanda, Angola, fundada em 1969. A bordo das embarcações contactam via rádio VHF e SSB (para longas distâncias). Não há rede de telemóveis, em alternativa podem usar telefone-satélite. Pelo Mundo fora reconhecem-se os membros da Irmandade por terem hasteada uma bandeira própria, inspirada na ‘Jolly Roger’, dos piratas. Também com fundo negro, em vez de uma caveira e dois ossos cruzados usa uma âncora e dois remos. A portuguesa integra a Cruz de Cristo.

'Entram para a Irmandade, em boa verdade, os que são navegadores' – explica o ‘Grande Irmão’ João Baracho. 'Não me sinto à vontade de ter na minha Irmandade alguém que não percebe o que estamos a falar. É elitismo a partir do momento em que somos rigorosos nas pessoas que escolhemos.' Só por convite poderão ser aceites grumetes – o grau mais baixo, antes de ser ‘irmão’. E será durante uma faina – jantar, onde são convidados palestrantes para falarem de temas relativos ao mar – que os novos membros são iniciados, segundo rituais próprios (ver caixa).

Fala-se que só em Itália sejam aceites mulheres. Em Portugal, elas acompanham os maridos nas fainas, realizadas, a maioria, na Associação Naval de Lisboa. 'Da Irmandade de Portugal não faz parte nenhum autarca, deputado ou membro do Governo', nem elementos da Polícia Marítima, assegura Baptista da Costa. 'Um membro vale essencialmente pelo seu carácter, nível de conhecimentos náuticos e elevado sentido fraternal e espírito de entreajuda. Certo que o ‘lobby’ é, hoje em dia, um mal aceite – já foi considerado como corrupção na óptica de tráfico de influências – e inevitável. Mas se algum irmão ajuda outro, fá-lo, essencialmente, por espírito de fraternidade e não a título de favores recíprocos.'

CJAPEÚ TRICÓRNIO E RITUAIS DE RECRUTAMENTO NUMA CONFRARIA DA QUAL FEZ PARTE JACQUES COUSTAU

O recrutamento para os Irmãos da Costa é selectivo e acontece durante uma faina (um jantar, normalmente) depois do padrinho apresentar o candidato ao Capitão da Mesa. O candidato ajoelha-se perante este, cruza os braços sobre o peito e é-lhe feito prometer obediência ao octálogo (as oito regras básicas em que se fundamenta a Irmandade, entre elas, a sétima: 'não sejas orgulhoso nem violento; ao sê-lo, conseguirás que os teus irmãos se afastem de ti e ficarás sozinho com a Peste').

O candidato, com o braço estendido e a mão esquerda sobre o ombro direito, responde: 'prometo'. Depois, ao aceitar o tratamento tradicional entre os Irmãos da Costa, o Capitão bate-lhe com um remo, simbolicamente, sobre os ombros. E é tornado grumete que, tal como na Marinha, é o cargo mais baixo. Só terá de pagar anualmente, tal como todos, 25 euros para despesas administrativas desta associação. Outro dos rituais nestes encontros é a indumentária – 'embora não tão espampanante como a de outras confrarias', dizem. Estes homens do mar vestem blazer preto ou azul-marinho, com o emblema bordado a prata no bolso de cima, camisa branca ou azul-clara, gravata negra tendo como motivo o símbolo da Irmandade, sapatos pretos e um tricórnio na cabeça, semelhante ao usado pelas marinhas de guerra nos séculos XVII e XVIII.

É a tempos tão remotos que a heráldica dos Irmãos da Costa foi buscar alguns dos seus símbolos. O pavilhão é inspirado na famosa bandeira pirata ‘Jolly Roger’, sobre fundo negro, que neste caso ostenta uma âncora com dois remos cruzados em baixo. Um motivo criado pelos chilenos em 1951. O célebre explorador, ecologista, cientista e navegador Jacques Cousteau (na foto ao centro) foi entronizado Irmão da Costa em Arica (Chile), em 1978. Entre os ‘irmãos’ célebres figurava também o francês Eric Tabarly, por muitos considerado o maior velejador do século XX. Outro nome é Bernard Moitessier, o 'vagabundo dos mares'.

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