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“Isolado como uma ilha”

Livro reúne 31 testemunhos de quem conheceu de perto Marcelo Caetano e os seis anos do seu governo
7 de Outubro de 2012 às 15:00
A tomada de posse como Presidente do Conselho (1968)
A tomada de posse como Presidente do Conselho (1968)

Marcelo Caetano é uma personagem complexa, protagonista de um momento histórico que conduziu à viragem do País, e ainda hoje misterioso para muitos. Assim o define o historiador Rui Ramos, que assina, em parceria com Manuel Braga da Cruz, a organização de um livro de depoimentos sobre o último Presidente do Conselho no Estado Novo.

A ideia surgiu em 2008, quando se celebravam os 40 anos da chegada de Marcelo Caetano ao poder e se reuniu um ciclo de personalidades "importantes do debate político, da Assembleia Nacional mas também da oposição". ‘Marcelo Caetano – Tempos de Transição’, com chancela da Porto Editora, chega agora às bancas e reúne mais de 30 testemunhos dos protagonistas de então.

O MARCELISMO

Analisar os efeitos do marcelismo à distância de quatro décadas é um exercício que ainda hoje divide historiadores. "Há um grande debate sobre como interpretar esse Governo, se houve continuação ou ruptura em relação a Salazar. E, mesmo colocada nestes termos, não é fácil dar uma resposta de sim ou não a essa questão", frisa Rui Ramos.

Marcelo Caetano "tinha do salazarismo uma ideia diferente daquela que as oposições a Salazar defendiam. Concebia o que estava a fazer de uma maneira diferente, e entre os seus colaboradores havia opiniões diversas", que no livro mostram ser até antagónicas.

Ana Maria Caetano, única rapariga entre os quatro filhos de Marcelo, afirma que o pai "não era um ditador nem um democrata. Tinha vivido os tempos da I República e isso marcou-o muito. Havia na sua geração um desejo de paz e ordem, após o caos desse período. Se tivesse nascido num país com regime democrático, teria sido um excelente parlamentar, mas as circunstâncias foram diferentes".

A intimidade de quem privou com o homem que foi Presidente do Conselho entre 1968 e 1974 é ainda revisitada por Marcelo Rebelo de Sousa, amigo da família, e Pedro Feytor Pinto, director dos serviços de informação entre 1970 e 1974.


SOZINHO

Colocado no Governo pelo Presidente Américo Thomaz, Marcelo Caetano, que nos anos 1950 tinha sido o delfim de Salazar e mais tarde dissidente desse mesmo estadista, era visto simultaneamente como uma esperança de renovação e uma continuidade do regime.

Com vários reformistas no Governo, "que davam mais importância às mudanças técnicas, sociais e económicas, os chamados de tecnocratas, e outros, da ala liberal, que privilegiavam as mudanças políticas, era difícil a Marcelo Caetano encontrar, no meio, uma sintonia", diz Rui Ramos. "É fascinante ver como aquele bloco, que existe como homogéneo, era tão variado, fragmentado, e estava a desfazer-se, como alguns protagonistas dão a entender."

Isolado como uma ilha, nas palavras de Ana Maria Caetano, Marcelo "tentou procurar equilíbrio entre os que defendiam a continuidade do regime sem mudanças e os que queriam um regime mais liberal, mas acabou por desagradar a toda a gente. Talvez tenha chegado a Presidente do Conselho demasiado tarde. Para ele, a ideia de estar ao serviço da nação era um imperativo e pensou que poderia fazer uma coisa melhor usando as suas qualidades intelectuais. Foi uma miragem. Ficou muito desiludido por não ter conseguido alcançar os objectivos".

No livro, a leitura renovadora é feita pelos políticos da ala liberal, João Salgueiro, Elmano Alves, Nogueira de Brito, Mota Amaral e Pinto Balsemão, e os que acompanharam a Revisão Constitucional de 1971, Jorge Miranda e Galvão Teles. Já os grandes temas da governação, economia, finanças e obras públicas, são analisados por J. Mota Campos, Rogério Martins, Xavier Pintado, João Oliveira Martins e Alexandre Vaz Pinto; educação, segurança social e saúde vistas à lupa por Veiga Simão, Silva Pinto, Raquel Ribeiro e Duarte Ivo Cruz.

A QUESTÃO DO ULTRAMAR

Na época, Portugal não acabava aqui. O País estava em "franco progresso económico, mas a guerra no Ultramar era a grande questão do Governo", salienta Rui Ramos. O próprio Marcelo Caetano assumiu que "condicionou toda a sua actuação" e, no livro, Abdool Karim Vakil, Walter Marques, Abel Couto, José Capela e Fernando Amaro Monteiro falam de um ideal que ajudaram a construir. Também Rui Patrício, José Manuel Villas-Boas e Luiz Figueira analisam a diplomacia exercida no tempo em que Portugal ainda detinha um império e tentava integrar-se na Europa.

Miguel Caetano, filho, lembra que o pai vivia "mal essa situação. Se tomadas nos anos 1950 ou 60, as soluções para as colónias teriam sido outras, mas nos anos 1970, já com os movimentos de libertação, apoiados pela União Soviética e pelos EUA, a Suécia e a ONU, o ambiente era de uma hostilidade terrível".


Marcado pela geração que iniciou as revoltas estudantis, Miguel Caetano, 77 anos, recorda que em casa "havia liberdade e responsabilidade. Fomos educados de uma forma bastante autoritária, mas também responsável. Era marcante na atitude do meu pai a entrada na faculdade, dava-nos a chave de casa e ficávamos responsáveis pelo que fazíamos, livres de entrarmos à hora que queríamos, nunca controlou nada. Isso levou-me a fazer as minhas escolhas, falei com ele e não escondi quando integrei as associações académicas nos anos 50".

O olhar paternalista com que sempre viu as novas gerações, influenciado pelos muitos anos como professor de Direito, dava a Marcelo Caetano uma aura de respeito que era seguida por todos os ex-alunos. "Havia esperança de que as coisas mudassem. O País estava diferente, já não era uma sociedade rural, vivia-se progresso económico, que se estendera ao progresso social", lembra Rui Ramos.

CASA ABERTA

Os estudantes revoltosos, as elites que não queriam ir para a tropa e líderes políticos mais extremistas eram pessoas que entravam em casa de Marcelo, diz o filho Miguel. "Eram do nosso meio, eu próprio estive ligado aos católicos progressistas. Tinha havido o Concílio Vaticano II, o bispo do Porto foi afastado e tomei oposição por isso", recorda. "Nessa altura o meu pai nem estava em actividade política, tinha sido afastado, mas era um homem do regime e, como tal, não podia concordar, apesar de entender que cada geração devia tomar as suas causas".

No livro, são Zita Seabra, António Reis e José Miguel Júdice que relatam como a ditadura começou a sofrer oposição.

"Marcelo Caetano tinha consciência do jogo de equívocos em que estava. Havia vontade de mudar, criar o Estado Social, uma economia mais concorrencial e procurar a integração europeia. O que não me parece que existisse é a mesma determinação numa transição política para uma democracia pluralista, de partidos, com eleições livres. Marcelo Caetano estava convencido de que o autoritarismo era a via melhor para mudar Portugal", diz Rui Ramos.

"ERA UM PAI EXTREMOSO, EMBORA CULTIVASSE UMA CERTA DISTÂNCIA"

Ana Maria Caetano, 75 anos, diz de Marcelo Caetano que como pai "era extremoso, embora cultivasse uma certa distância, sobretudo em relação aos rapazes. Tenho a noção de que não era tão exigente para comigo. Criámos grande cumplicidade, falávamos de tudo. E tínhamos grandes zangas, que não duravam mais de um dia". Educada no regime, cuidou da mãe, durante os três anos da doença mental desta, e acompanhou o pai em actos oficiais, num papel de primeira-dama que caiu ao lado do regime.


"Depois do 25 de Abril, o meu pai foi enviado para a Madeira, antes de partir para o Brasil. Ficou com as contas congeladas, sem dinheiro. Lembro-me de ir visitá-lo e levantar o meu ordenado de três contos para lhe dar, mas recusou. Disse que lhe tinham atribuído 11 contos para sair do País e que era suficiente. Quando chegou a São Paulo, nem sequer tinha dinheiro para pagar o hotel. Foi ajudado por um antigo aluno, que o alojou em casa. No Brasil, tinha muito amigos e era admirado."

NOTAS

ORIGENS

Nasce em Lisboa a 17 de Agosto de 1906. Em 1930, casa-se com Teresa de Barros. Morre no Brasil em 1980.

PODER

Em Setembro de 1968, Marcelo Caetano substitui Oliveira Salazar na Presidência do Conselho.

RENOVAÇÃO

Na tomada de posse, aludiu a liberdades e tolerância de ideias. Na televisão, protagonizava ‘Conversas em família’.

REPRESSÃO

Mantém a polícia política e a censura, face às lutas estudantis e aos protestos contra a Guerra Colonial, e isola-se no Governo. 

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