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Correio da Manhã

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JÁ FAÇO PARTE DA MOBÍLIA OLÍMPICA

Nasceu Maria Fernanda Moreira Ribeiro, já lá vão 35 anos, em Novelas, uma recôndita aldeia do concelho de Penafiel. Pouco dada à escola, começou a correr nas margens do Sousa e aos oito anos o pai, apercebendo-se dessa paixão, ofereceu-lhe uns ténis que custaram apenas 290 escudos.
1 de Agosto de 2004 às 00:00
Aos 11, na Nazaré, era ainda uma miúda quando correu a meia-maratona e espantou muita gente: ficou em segundo lugar a apenas quatro segundo da vencedora, a já então famosa Rosa Mota.
Os seguidores da modalidade passaram a conhecê-la apenas por Fernanda Ribeiro, a mulher do Norte, lutadora e persistente, que em 1996 arrecadou a medalha de ouro dos dez mil metros, nos Jogos Olímpicos de Atlanta. Acabara de cumprir o seu maior sonho. Apesar das muitas lesões não abandonou as pistas e estará dentro de duas semanas em Atenas, onde completa a sua quinta olimpíada.
Não tem filhos, não sai à noite, mas afirma que não faz do desporto um sacerdócio, antes uma fonte de prazer. É por causa disso que vai à Grécia. Disso e do orgulho de poder dizer ao mundo que está há 20 anos ao mais alto nível. Ninguém o merece mais do que ela.
Lembra-se do seu primeiro par de ténis?
Perfeitamente, nunca mais em esqueço. Comecei a competir aos nove anos, com uns ténis que custaram 290 escudos. Não eram de marca, porque os meus pais não me podiam dar outros, mas corria tanto com eles! Agora que tenho todas as condições e bom equipamento, aparecem-me tendinites. Lembro-me desses ténis durarem muito tempo, de ganhar montes de corridas com eles.
Guarda-os como recordação?
Já não os tenho. Palmilharam tanto que acho que se desfizeram.
Passaram 26 anos desde então, e em Atenas marca a sua quinta presença nos Jogos Olímpicos. Sente-se a ‘avó’ da prova?
Sinto-me mais velha do que os outros. Ir à Grécia quer dizer que ando na alta competição há pelo menos 20 anos, por isso posso afirmar que já faço parte da ‘mobília olímpica’; sou daqueles móveis que valem bastante dinheiro. Desta vez, consegui o apuramento à terceira tentativa. Foi difícil mas estou muito feliz por isso.
São objectivos como a data mítica das duas décadas ao mais alto nível que ainda a fazem correr?
Quando chegamos ao primeiro lugar do pódio, os objectivos em termos de prémios ou medalhas deixam de existir e temos de nos agarrar a outros menos visíveis. No final dos últimos Jogos Olímpicos (JO) afirmei que a próxima etapa seriam os de Atenas, e foi por eles que lutei.
Inspirada por alguém?
A determinada altura conheci o Zequinha Barbosa, atleta brasileiro que nas minhas segundas olimpíadas disse-me que queria chegar aos quintos Jogos, aquela marca mítica dos 20 anos no topo. Respondi-lhe que se ele acalentava esse desejo, também eu tentaria igualá-lo. Agora, às vezes, ponho-me a brincar e digo que o próximo objectivo são os sextos.
É só na brincadeira ou pensa mesmo no assunto?
Só na brincadeira, mas nunca vou dizer que acabo por aqui, embora saiba que é cada vez mais difícil garantir o apuramento. Como não gosto de prometer e não cumprir, vou gerir a carreira ano a ano, e depois logo se vê, até porque nessa altura terei 39 anos. Vai depender da forma como correr a maratona.
Parece contraditório, um atleta correr distâncias cada vez mais longas à medida que envelhece.
É verdade, mas trata-se de uma situação normal, porque à medida que envelhecemos perdemos velocidade, embora mantenhamos a resistência.
Mas não é nada científico?!
Não, até porque há quatro anos diziam que eu não tinha velocidade e em Sidney bati o recorde nacional dos dez mil metros. Tem muito a ver com o gosto de correr, e eu não ando no atletismo por obrigação, mas porque ainda adoro isto. Dá-me muito gozo entrar na pista, sentir aquela adrenalina, olhar para as adversárias… Corro por prazer.
E a questão monetária?
Vivo do atletismo, é a ele que vou buscar o meu sustento, mas não sou doente pelo dinheiro. Sou incapaz de ir a uma competição só por isso, e se me encontrar lesionada ou a prova não for importante recuso-me a participar. Ganho bem, e até já ganhei mais, não tenho queixas nesse aspecto. Muitas vezes o meu treinador até diz que deito dinheiro fora. Se ele fosse determinante fazia as provas todas e estava rica. Mas não estou.
Nunca teve uma crise existencial?
Há alturas em que digo que vou abandonar o atletismo, que estou cansada de vir aos treinos todos os dias, mas não me vejo a fazer outra coisa. Dou-lhe um exemplo: sou vereadora na Câmara Municipal de Penafiel e aquilo não me diz nada.
Então porque é que aceitou o cargo?
Não me considero política, nem percebo nada do assunto, mas aceitei apenas porque queria fazer algo pelo desporto em Penafiel. Pediram-me para entrar numa lista, respondi que sim e queria cumprir o mandato num espírito de missão. De resto, voto nas pessoas e não nos partidos, pelo que não tenho muito a ver com o meio. Sou incapaz de chegar a um sítio, prometer uma coisa e não saber que não a vou cumprir.
Mas tem consciência de que a sua imagem ajuda a ganhar votos?
Claro que sim, e se calhar isso aconteceu em Penafiel. É o preço a pagar pela felicidade de ajudar a cidade a ter mais desporto. E acho que já consegui um bocadinho.
Como é que reage quando lhe chamam ‘senhora vereadora’?
Nunca reajo, continuo a ser a mesma Fernanda de sempre. A vereadora não existe, e as pessoas ligam mais à minha faceta enquanto atleta do que à vertente política.
O que é que mudava mesmo no desporto?
Quem está na alta competição e vê a forma como são tratadas as modalidades ditas amadoras apercebe-se de que este é um meio complicado. Querer fazer algo para alterar a conjuntura e não poder ainda é mais difícil. Sofro muito com isso.
Continuamos a viver uma ditadura do futebol?
É uma questão complexa. Os grandes clubes ficaram sem as pistas de atletismo e neste momento os atletas têm de treinar todos juntos, o que é mau. Com a história do Euro 2004 passámos a ter campos de futebol. Os estádios antigos tinham pista, vários equipamentos para outras modalidades; ora isso deixou de existir. Já estávamos mal e aos poucos vão-nos tirando o que era nosso.
Que diagnóstico faz do estado do atletismo português? Está em coma profundo?
Fala-se muito sobre o declínio do atletismo, diz-se que temos uma crise de bons atletas, mas há muita gente nova com valor. Se calhar ainda não atingiram um grande resultado porque as vitórias são difíceis de conquistar. Não se compra uma medalha no supermercado. Eu estive muitos anos sem ganhar uma e neste momento tenho 17 ou 18.
Mas também não temos a chamada geração de ouro do atletismo, da qual a Fernanda é a última descendente.
Tivemos uma época de atletas muito boas, como a Rosa Mota, a Albertina Dias, a Aurora Cunha e, a fechar, eu. Mas de um momento para o outro o atletismo perdeu-se ao nível dos fundistas.
Foi a mais jovem dessa geração…
E agora sou a veterana. Passei por tudo e também atravessei uma crise na carreira, que só não se nota porque já ando nisto há muito anos.
Qual foi a sua fase mais turbulenta?
A passagem de júnior para sénior, na qual deixei de conquistar medalhas. As pessoas não entenderam esse período, e quando fui aos JO de Barcelona aquilo correu mal, ninguém subiu ao pódio. Tinha de haver alguém criticado e calhou-me a mim essa parte. Logo eu, que não era candidata a nada. Fiquei tão desiludida com as afirmações injustas que pensei em abandonar. Valeu-me a ajuda do meu treinador, dos amigos e da família.
Ter ganho muitas provas depois serviu como uma bofetada de luva branca em muita gente?
Sim, lembro-me de ter dito ao meu treinador que ia chegar longe, que conseguiria vencer. Mas muitos dos que me ouviam, não me conheciam e nunca acreditaram.
Chegou a correr por raiva?
Não. E o que mais custou foi ouvir pessoas que me criticaram virem depois, quando estava no topo, afirmarem que sempre estiveram comigo, que nunca duvidaram das minhas capacidades. Deu-me gozo passar por elas nessa altura. Sempre tivemos muitos treinadores de bancada, aprendi a viver com isso e neste momento, acho que já nada me afecta.
A Fernanda é uma pessoa de fé. Acha que isso foi importante na altura?
Quando uma pessoa acredita, esse aspecto é sempre importante.
Chegou a prometer que ia à missa todos os dias durante pelo menos uma semana. Cumpriu?
Era uma promessa, mas isso foi há tantos anos. Se não me engano, ainda era juvenil.
Não respondeu…
Acho que fui. Quando uma pessoa tem fé faz muitas promessas. Eu peço ajuda aos santos todos, já fui a pé até Fátima, benzo-me antes da competição. Mesmo na prova, se as coisas estão a correr mal peço a intervenção divina, como peço o apoio dos amigos e da família. Não ajuda a fazer uma ponta final mais rápida, ajuda, isso sim, a não desistir.
Por falar em fé, o atletismo envolve uma espécie de sacerdócio?
Apenas por uma questão de opção, não tenho uma vida igual à das outras pessoas. Sou incapaz de me deitar às três ou quatro da manhã, embora haja atletas que o fazem. Mas também não sou uma freira fechada num convento. Só não vou às discotecas porque não gosto, mas tenho uma alimentação normal, sem restrições.
Optou por não ter filhos.
Há atletas que o fizeram, que são casadas e constituíram uma família. Talvez ainda não tenha chegado o meu dia porque não tive essa vontade de abandonar a carreira, de ter marido e filhos.
Acha que algum dia se arrependerá disso?
Nunca me arrependi, o que não quer dizer que não venha a acontecer. Muitas vezes comento esse assunto com as minhas colegas, e digo que se calhar não os tive porque vivi sempre rodeada pelos meus sobrinhos, que são quase como se fossem meus filhos. Eles travaram essa vontade de ser mãe.
Vem de uma família numerosa…
Tenho seis irmãos e 13 sobrinhos; miúdos não faltam na família. Tenho uma afilhada a viver comigo. É habitual levá-los todos ao café, para aqui e para acolá. Sou uma espécie de ídolo deles.
Que promessa lhes faria para Atenas?
Toda a gente sabe que eu adorava ganhar medalhas, mas tenho os pés bem assentes na terra, sei que cada vez é mais difícil chegar ao pódio. Prometo apenas dar o meu melhor, lutar muito, mas é claro que queria chegar a uma final e conquistar uma boa classificação. É que depois de ganhar uma medalha de ouro qualquer outro resultado não presta. Isso aconteceu comigo quando fiquei com a de bronze. A idade vai pesando, e nem sempre as provas correm bem.
Sente o peso da idade?
Da idade, não, mas das lesões, sim, porque são elas que não me deixam treinar e atrapalham a recuperação. Dantes recuperava mais depressa, os anos notam-se acima de tudo aí. Mas nunca pensei que já sou veterana, que é difícil competir.
Falou das lesões, e a verdade é que esteve durante muito tempo afastada das pistas devido a elas.
Se não fosse muito teimosa já tinha acabado a carreira, não andava aqui estes anos todos. Tenho problemas nos tendões de Aquiles, uma maleita muito má para um atleta. Ainda antes de 1996 tive um médico que deu a minha carreira como terminada, e curiosamente passados uns tempos estava a ser campeã olímpica. Tenho tido coragem, mas as lesões estragaram um bocado a minha carreira.
A teimosia é uma característica de infância?
Não sei, se calhar. Reclamo muito antes do treino, mas quero fazer as coisas. Os meus colegas dizem que sou difícil porque se estou bem, faço tudo para não ficar para trás. Fui sempre assim, lutei muito por aquilo em que acredito e desejo.
Talvez por ser uma mulher do Norte.
Provavelmente. Todas as atletas desta região que conheci lutaram e sofreram muito. As pessoas do Norte têm essa característica porque vêm quase sempre de meios pobres. Eu vim de uma aldeia e tudo o que conquistei foi com muita luta. É natural que isso tenha moldado a minha personalidade.
Nasceu em Novelas. Continua a ter lá casa?
Continuo, só não estou lá a viver porque tenho treinos e tratamentos na Maia. Mas aquele é o meu local, quando acabar a minha carreira é para Novelas que quero ir viver.
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