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“Já não vejo para desenhar. É uma raiva”

O último dos surrealistas, Cruzeiro Seixas, nasceu pobre, teve mil e um empregos e a amizade de uma vida com Cesariny
Fernanda Cachão 2 de Setembro de 2019 às 18:40

A última vez que Artur do Cruzeiro Seixas apareceu em público foi nesta Feira do Livro de Lisboa, por causa da edição do seu ‘Diário não Diário’, pelo Centro Português de Serigrafia, e para fazer com graça e espírito a apresentação de mais um volume da coleção da E-primatur que reúne a obra de um amigo, Mário Henrique Leiria. Encontrámo-nos em poucos metros quadrados, na Casa do Artista, entre memórias e arrependimentos, com o último dos surrealistas.

Tem 98 anos. Qual é a sua recordação mais antiga?

Nós saímos da Amadora quando eu tinha cinco anos mas, estranhamente, a recordação mais antiga que tenho é de uma oliogravura, que não prestava para nada, que estava pendurada bem alto no corredor, do Camões lendo ‘Os Lusíadas’ ao D. Sebastião.

Como eram os seus pais?

Eram pessoas excecionais, acho eu. Havia um grande respeito de um pelo outro, coisa muito bonita. O meu pai era funcionário do caminho de ferro e tinha um ordenado muito pequeno, mas era incapaz de ganhar mais dinheiro fosse no que fosse, portanto era uma obra de arte vivermos do dinheiro que ele ganhava. A mãe sabia francês, tocava piano e já a minha avó e o meu bisavô eram pintores e desenhadores. Eram ambos brasileiros.

Quem é que o influenciou mais, o seu pai ou a sua mãe?

A minha mãe era uma figura admirável, o pai era mais apagado, em tudo o mais impressionante era viver com um princípio de honestidade. Eu admiro imenso a honestidade e, por isso, estou fora deste mundo. Hoje, infelizmente, há aldrabões de toda a espécie.

Na vida pública?

Infelizmente.

Acompanha as notícias?

São de grande repulsa e raiva porque, realmente, essa gente não tem caráter nem vergonha e não sabe o que fazer ao dinheiro. Ninguém se lembra de fazer uma coleção de obras de arte a sério.

Temos agora a história do Joe Berardo…

Não simpatizo com aldrabões e não quero com isto dizer que ele seja um aldrabão. Eu visitei uma única vez o museu dele e achei-o pobrezinho. Naturalmente, alguém teria de roubar muito mais para fazer um museu a sério…

Quando é que soube que era um artista?

Minha querida amiga, foi quando estávamos na Amadora. Aos cinco anos, a minha mãe disse-me que não tinha dinheiro para brinquedos, mas deu-me papel, lápis e borracha. Depois, a minha mãe fazia uns buraquinhos nos desenhos e com um fio pendurava-os pela casa, nos fechos das portas. Desde miúdo que sei o que é uma exposição.

Aos 14 foi para a António Arroio.

Fui porque era a escola mais barata, não por outra razão. Tenho a pior impressão dos professores. A única coisa para a qual tenho habilidade é para desenhar e chumbei a desenho. Uma série de vezes.

Mas foi lá que conheceu colegas depois importantes na sua vida...

Andava lá toda a gente que depois veio a fazer nome na cultura, e desde logo o grande encontro foi com o Cesariny [poeta e pintor, 1923-2006].

Lembra-se de quando o viu pela primeira vez?

Lembro. Foi encantador porque era um rapazinho muito bonito, o que facilita as coisas, e a nossa conversa foi logo sobre cultura, não foi sobre futebol ou meninas, foi sobre aquilo que nos apaixonava.

E percebeu logo que ele poderia vir a ser uma pessoa especial?

Logo nas primeiras conversas, nos primeiros encontros. Percebi logo que o Mário tinha uma cultura muito vasta para um miúdo daquela idade. Ele foi um segundo pai para mim, apesar de ser mais novo do que eu uns dois ou três anos. Ele já tinha lido bastantes coisas que depois me recomendou e que me deram diretrizes que doutro modo não teria.

Conspiravam contra Salazar?

Ah, era a nossa grande raiva. Noutro dia apareceu o Otelo na televisão a dizer uma coisa engraçada: os portugueses precisavam de um Salazar que fosse democrata, ou seja, um homem honesto e democrata ao mesmo tempo, pois parece que as duas coisas juntas são difíceis de encontrar. Mas ainda não houve coragem para dizer que o António Ferro merecia homenagem. O Almada Negreiros foi beneficiadíssimo. Todas as encomendas que havia aos artistas eram feitas pelo Estado e isso era uma coisa bem feita, que acabou com a revolução.

Como era a vossa relação com a polícia política?

Era estar sempre na linha de equilíbrio entre ir para a prisão e ser um tipo livre. Eu tenho ficha na PIDE.

Porquê?

Porque respirava e eles não queriam sequer isso. O Salazar era um homem sério mas era tacanho, católico praticante e metido em pequenos círculos, cada vez mais apertados, a moral e não sei o quê mais…

E a moral do regime não era a vossa?

De maneira nenhuma. Sonhávamos com um mundo livre, pelo menos com este remendo de mundo livre que temos hoje.

Qual foi a sua primeira grande paixão?

Posso contar?! A primeira grande paixão - eu não tenho segredos, sabe? - foi uma paixão homossexual por um jovenzinho muito simples que era estofador e que vivia numa casa onde era tudo ao contrário do que se passava na dos meus pais, onde era tudo ordem e respeito; na dele era zaragata todas as noites em que a polícia tinha de intervir. Vivia com muita gente, e em casa tinha uma sala muito grande dividida por colchas e atrás de cada uma delas, uma cama, espantoso, não é? E ali vivia imensa gente, casais e tudo. O pai dele era estivador no porto de Lisboa, um brutamontes que quando vinha do trabalho, bêbado, batia nuns quantos, que batiam também, e a polícia vinha e levava-os a todos, batia-lhes igualmente e mandava-os embora no dia seguinte. Aquela espécie de flor – desculpem-me se sou excessivo – vivia no meio de toda aquela embrulhada. O nosso encontro foi uma revelação e, por ter podido conhecer o outro lado da vida, estar-lhe-ei sempre muito grato.

Participou no grupo dos surrealistas mas a certa altura foi-se embora…

Lembrei-me de África, pois não havia dinheiro para manter aos meus pais e a mim. Eu não tinha dinheiro para ir para Paris como outros faziam, como o Cesariny. Até o António Maria Lisboa [poeta, 1928-1953], que vivia com muitas dificuldades, foi. Para mim era impossível. Lembrei-me de uma coisa que me apaixonava que era a negritude, que era existir gente ainda em estado de opressão. E fui para Angola, onde tinha pessoas da família colocadas em altos cargos. O governador era primo de minha mãe. Estive uns poucos de meses hospedado no palácio do governo. Gente da situação mas que nunca insistiu comigo para idas à missa, para estar presente em coisas oficiais. Lembro-me de um hóspede muito rico, que dava dinheiro a Franco, e de um dia ficar sentado ao pequeno-almoço ao lado dele. Aproveitei para perguntar se ele tinha no seu palácio de Madrid uma grande coleção de pintura, ao que respondeu: ‘No soy un complicado sentimental’. Para ele, a pintura era uma complicação sentimental e mais nada.

E o Cruzeiro Seixas é um complicado sentimental?

Eu acho que não.

Quando é que entra a poesia na sua vida?

Quando fiquei em África muito sozinho. Tinha o Cesariny e aquele rapazinho que me acompanhou e de repente fiquei sozinho, com aquele ideal de libertar aquela gente da escravidão e comecei a escrever poesia. Durante o primeiro ano escrevi quase toda a minha poesia e depois parou, quando comecei a conhecer gente.

O que foi feito desses escritos?

Andei toda a minha vida aos saltos. São inúmeras as coisas que perdi. As minhas coisas, tal como os poemas, andaram de mão em mão. Não sei como foram ter à Fundação Cupertino de Miranda [exposição ‘Ao Longo do Caminho’, até 29 deste mês] que editou três volumes e agora vai reeditar, além de um volume de inéditos.

Só esteve em Angola?

Estive também em Moçambique, Guiné, Índia portuguesa, Timor e Macau. Fui funcionário de uma companhia de navios mercantes que fazia a volta do colonialismo português. Uma viagem levava um ano.

A bordo o que é que fazia?

Serviço de escritório. Era formidável. Às vezes, não podia sair nos portos. Em Hong Kong, por exemplo, saí pouco. Só uma vez. Mas era lindo ver as chinesas nos riquexós, a mostrarem as pernas até aqui [pela coxa], mas com os vestidos fechados até acima - era ali e não nas pernas que estava a vergonha delas. Eram lindas, lindas, lindas.

E África como era?

Uma coisa horrível. A miséria e os portugueses a enriquecerem. Logo na primeira viagem, da amurada do navio, quando este atracou, vi uma fila de uns 20 pretos todos amarrados uns aos outros. Perguntei o que era aquilo e responderam-me com ironia que eram "voluntários à corda". Eram obrigados a trabalhar a bordo e levados atados como animais.

Tem ali uma espécie de régua…

Roubei-a de um altar de uma igreja, aquilo era para quando o padre ia de oito em oito dias ensinar a missa à pancada. Apanhavam nas solas dos pés. Até velhos de 70 anos, como se fossem miúdos.

Acabou por percorrer Angola de camião…

Andei a levar carga aqui e ali. Nunca se sabe o que vai acontecer porque eram caminhos de terra batida e se o carro avariasse passavam dias sem aparecer ninguém. Houve gente que morreu à espera.

Assistiu ao início dos movimentos de independência?

Eu fiz duas exposições lá, pró-movimentos de independência. A primeira em 1953, 48 desenhos no Salão da Restauração. Fez alarido, mas nessa a PIDE não se meteu.

Mas chegou a ter problemas?

Sim, ameaçaram-me que não me deixavam sair de Angola. Mas depois deixaram porque já estavam de cabeça perdida, pois ia começar a guerra. Eu vim embora nessa ocasião. Tinha feito uma outra exposição, francamente escandalosa, com o Alfredo Margarido [poeta, tradutor e jornalista, 1928-2010], numa casa em ruínas. Nessa altura, o Salazar era arrasado por todo o Mundo, de maneira que bastava dizer, em Lisboa ou em qualquer parte, que se era um tipo perseguido que se era logo socorrido. O Alfredo Margarido fez isso: pôs-se a correr por uma rua de Lisboa a dizer "estou a ser perseguido pela PIDE", e meteu-se na embaixada de França. Foi recebido com honras e acabou na Sorbonne.

E o Cruzeiro Seixas o que fez?

Eu vim depois e continuei a minha vida.

Porque é que diz que a exposição foi escandalosa?

Houve controvérsia nos jornais. Essa documentação, há quem esteja agora a juntá-la toda porque eu perdia-a.

Nunca foi muito apegado às suas coisas, pois não?

Sabe, era obrigado a não ser. De repente tinha de ir trabalhar para outro sítio e tinha de abandonar tudo.

Li numa entrevista sua que afinal não gosta de pintar…

Eu não gosto é que me considerem um artista. Faz-me lembrar quando era novo e havia aqueles senhores empertigados, que tinham pera e usavam laço à ‘la lavandière’ e de quem se dizia: "Aquele senhor é artista!..." Hoje já não usam laço ‘à la lavandière’ mas continuam a achar indispensável terem ateliê e um ateliê, ao fim ao cabo, é uma loja onde em vez de se venderem batatas e bacalhau se vende pintura. Para mim era aquilo que eu não gostava de fazer; eu não gostava, nem gosto de vender, não tenho prazer nenhum nisso. Eu gosto é de dar, de maneira que passei a vida a dar. Eu não fui um pintor de óleo porque não tinha dinheiro para comprar uma tela, sequer. Como passei a vida empregado, a minha obra foi toda feita nas gavetas dos empregos e tem toda este tamanho [faz gesto com as mãos], que era o tamanho das gavetas dos empregos. De vez em quando, o chefe vinha ver o que eu andava a fazer e eu fechava a gaveta. Eu era um péssimo funcionário, evidentemente.

Teve muitos empregos?...

Demasiados para lembrar agora. Um dos mais importantes, por ter sido o primeiro, foi ainda nos anos 40, durante a guerra, numa coisa de abastecimento. Por causa do racionamento, havia vários postos que tratavam do abastecimento de cada bairro. Eu fui colocado no Lumiar.

Na década de 80 vai para o Algarve, porquê?

Isso é uma história complicada. O Cesariny era uma pessoa muito social, que gostava muito de fazer vida em sociedade e tirar vantagens disso. Não é realmente nada de fora do vulgar, isso é comum. E ele já tinha feito tantas relações ao mais alto nível que não se comparava com o miserável que eu era. Era a Vieira da Silva [pintora, 1908-1992], que era um dos sonhos dele e aquilo tudo, e eu comecei a afastar-me. Ou inventei eu tudo, e não estava de facto a ser a posto de lado, mas de facto senti-me preterido. Nessa altura estava num emprego que a Natália Correia [escritora, 1923-1993] me tinha arranjado, na secretaria da Cultura, e que detestava. Um dia apareceu um homem espalhafatoso que se chamava Tomás Ribas, que ficou muito contente por me ver ali. Perguntei-lhe onde ele estava: "Estou a dirigir a secção da cultura do Algarve." Morei em Faro, dois, três anos.

Li numa entrevista sua: "Tive muita gente que me amou, fui muito amado." Tem saudades de alguma coisa ou de alguém hoje em dia?

Eu acho que fui muito amado mas eu queria mais, pois quando se é velho cai-se numa grande solidão. Hoje quase posso dizer que estou arrependido do caminho que segui porque faz-me falta uma pessoa ao lado, seja ela o que for, faz-me falta o papel do casal. O botão que não está apertado, o lápis que não se sabe onde se deixou. As pequenas coisas do dia a dia. Não vejo solução para este estado de coisas. Não estou a gostar nem a achar graça, mas agora com esta idade…

O Cesariny era contra o casamento. Também é contra o casamento homossexual?

Não ponha o caso como ser homossexual ou não, ponha o caso como encontrar uma companhia. Encontrar uma companhia é uma coisa muito bonita, alguém que nos compreenda e que esteja disposto a entrar no mesmo jogo, guardando o seu jogo também. Mas isso é muito difícil e não se encontra por aí. No meu caso resultou numa grande solidão. As coisas nunca são como nós queremos, mas às vezes somos nós os culpados dos nossos próprios desastres. Somos nós que abrimos o buraco onde vamos cair. Alguns desses relacionamentos pareciam ser para durar séculos mas acabaram meses ou anos depois. São grandes fogachos que aparecem e desaparecem. A vida não é nada simples.

Alguma vez imaginou que pudesse chegar aos 98 anos?

Jamais. O médico tinha dito que eu morria aos 20. Acontece uma coisa: o corpo está morto. Tenho dificuldade em me deslocar, como viram, a única coisa que está ainda como se tivesse 15 anos é a cabeça. Curiosamente. A cabeça funciona como a de um garoto, eu tenho de estar constantemente a repreender-me a mim mesmo.

Isso deve ser o cabo dos trabalhos…

Agora já não faço nada. Eu não vejo para desenhar. Isso é outra raiva que leva também a outra grande solidão. A grande companhia é poder desenhar e pintar e hoje quero desenhar e sai uma porcaria. Ler também não posso.

Como passa os dias?

Felizmente que ainda acontece um milagre: tanto durmo de dia como de noite. De maneira que passo dias inteiros a dormir, que é uma maneira de não pensar. Porque nem todos os dias vem gente, nem todos os dias se arranja quem venha ler.

Não sei se se preocupa com estas coisas, mas como é que gostaria de ser lembrado?

A minha vaidade não é desenhar bem ou mal. Aquilo com que me envaideço é sair da vida tão pobre como quando comecei. É uma coisa quase milagrosa. Hoje em dia toda a gente quer enriquecer.

Essa atitude é surrealista…

Ter demais é uma coisa estúpida.

Imagine que pode encontrar o Cesariny novamente…

… quem me dera.

O que lhe dizia sobre Portugal?

Só essa ideia me comove, minha senhora. O Mário representou muito para mim. É a figura mais importante da minha vida. Com todas as suas loucuras, com todos os seus disparates, com todos os seus erros, que eram muitos. A dada altura, por exemplo, o Mário foi a Paris, contactou com o André Breton [escritor e teórico do surrealismo, 1896-1966] e teve a ousadia de discordar dele e isso numa altura em que nós podíamos ter ingressado no surrealismo internacional, deixou-nos cingidos a Lisboa.

O que lhe diria se o encontrasse agora?

Não havia palavras. Dava-lhe um grande abraço.

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