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“Já sabíamos que a guerra estava perdida”

Devo a minha vida aos meus camaradas de armas, aos fuzileiros e à força aérea. Sem eles, o número de mortos teria sido muito maior.
9 de Setembro de 2012 às 15:00
Em pleno Janeiro de 1967, uma parte dos guineenses que viviam no mato eram nossos amigos. Partilhávamos comida e eles faziam pequenos trabalhos
Em pleno Janeiro de 1967, uma parte dos guineenses que viviam no mato eram nossos amigos. Partilhávamos comida e eles faziam pequenos trabalhos FOTO: D.R.

Tinha 21 anos quando assentei praça no Regimento de Infantaria 3, em Beja. Fui depois para a Amadora, para a 2ª Companhia do Regimento de Infantaria tirar a especialidade de atirador especial. Depois, estive dois meses na Bateria da RAS, no Pragal, em Almada. Embarquei a 7 de Maio de 1966 no navio ‘Uige’ para a Guiné-Bissau. Foram seis dias de viagem. Enjoámos todos. Assim que chegámos ao porto de Bissau não pudemos atracar, porque o porto não tinha fundo suficiente. Só no dia seguinte é que desembarcámos em lanchas da Marinha.

Missões no mato

Fomos pelo rio Gêba até Banbdinca. Passámos aí a noite e no outro dia de madrugada fomos de camião para Nova Lamego. Ficámos aí aquartelados e ao fim de poucos dias fomos escalados para várias missões, que eram sempre no mato. Íamos de noite, a pé, até ao objectivo e atacávamos de manhã. Não sei se matei alguém. As noites eram escuras como breu e não víamos nada. Ao fim de uma dúzia de missões, todos percebemos que a guerra estava perdida. Restava-nos lutar pela nossa vida e pela vida dos nossos camaradas, Marinha e Força Aérea incluídas. Só podíamos contar connosco. No fim das missões, carregava com os camaradas mortos. De dia para dia, o número de baixas crescia.

Ao fim de nove meses fiquei doente com hepatite B. Levaram-me no avião ‘Dakota’ até Bissau, mas estava demasiado doente e vim para Lisboa. Era para ser de avião, mas não havia espaço. Já eram muitos os feridos e doentes da guerra. Acabei por embarcar novamente no navio ‘Uige’. Fui muito bem tratado pelos enfermeiros do Exército e da Marinha.

Fui para o Hospital Militar da Boa Hora, em Lisboa. Fiquei lá três meses. Por um tempo estive desenganado pelos médicos, mas depois recuperei e quando saí deram-me 60 dias para convalescença. Depois chamaram-me para fazer exames e mandaram-me para casa. Pensei que já não tinha de voltar para a guerra. Estava demasiado fraco. Mas passadas 48 horas recebi um telegrama para embarcar de novo para a Guiné. Fui para cumprir os nove meses que me faltavam de comissão.

Apresentei-me no Quartel dos Adidos de Brá e aí um capitão viu-me tão fraco que me perguntou se queria ficar no quartel em Bissau ou voltar para a minha companhia no mato. Não hesitei. Se era para morrer, que fosse junto dos meus amigos e camaradas. Fui recebido em festa. O meu regresso era para eles um sinal de esperança. O meu capitão colocou-me na messe dos sargentos.

Mas uma noite tive de fazer guarda a quatro caixões. Lá dentro estavam quatro amigos mortos. Foi dos piores momentos da minha vida. Foi uma grande dor. Tinha enorme respeito pelos meus amigos.

Ao fim de três dias, fomos alvo de um grande ataque durante toda a noite. Senti que ia morrer.

Por fim, lá chegou o dia do regresso a Lisboa. A bordo do ‘Uige’ estávamos em festa, mas o comandante mandou-nos calar: "Tenham calma, porque ainda não estão livres disto."

Passados 15 minutos, fomos atacados. Tivemos de voltar para trás e passar a noite no quartel. Só seguimos viagem no dia seguinte, desta vez no ‘Kuanza’, mas com o apoio de aviões-bombardeiros e dos fuzileiros. Sem eles não teríamos chegado vivos.

PERFIL:

NOME: José Silva

COMISSÃO: Guiné (1966-68)

FORÇA: Batalhão 1887, Companhia de Caçadores 1546

ACTUALIDADE: Tem 69 anos, é casado e tem dois filhos. Está reformado e vive no Barreiro.

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