JOÃO CÉSAR MONTEIRO: O HOMEM E O MITO

"Sempre mais as vozes que as nozes." A verdade é que a existência deste homem foi sempre teatral e a obra polémica. No último acto, morreu antes da estreia do derradeiro filme.
15.06.03
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De João César Monteiro conta-se as mais bizarras histórias. Que escolhia as actrizes ao acaso em plena via pública, que durante as filmagens andava completamente nu nos estúdios, que tinha uma verdadeira paixão por mulheres muito mais novas, que tinha um feitio terrível e maltratava as pessoas, que era em tudo igual a João de Deus, personagem apontada como sendo o seu alter-ego. “São mais as vozes que as nozes”, dispara Margarida Gil em jeito de comentário às lendas criadas à volta de um dos mais brilhantes e polémicos cineastas portugueses, dando logo em seguida um exemplo de como os boatos corriam céleres: “A certa altura chegaram a dizer que vinhamos directamente de avião dos mais inóspitos locais para Lisboa, quando afinal até estávamos cá”. Hoje, a realizadora que com ele viveu durante
25 anos e do qual teve um filho, Pedro, relativiza todo o imaginário criado à volta de um pouco tolerado César Monteiro, para quem a máxima liberdade invocada acabou por ter custos elevados durante muito tempo. “Depois acabaram por aceitá-lo tal como ele era, mas isso aconteceu ao fim de bastante tempo, quando perceberam que não iam modificar a sua maneira de ser. Mas, ficaram alguns inimigos de estimação, que tanto soube preservar”.
Em relação às lutas travadas pelo realizador, Margarida Gil adianta que talvez tenham ajudado a criar a imagem de um lobo que vestia a pele de cordeiro, quando na realidade se tratava do contrário. “O João era muito afectuoso, profundamente leal, brincalhão e ‘teatreiro’ que, muitas vezes, afastava as pessoas por levá-las a pensar tratar-se de alguém pouco comunicativo, mal-humorado ou de trato difícil.” Por detrás de todos os mitos – diz – estava alguém “com uma enorme capacidade de renascer, de combater a adversidade e seguir em frente”.
O sucesso traça-lhe um estereótipo em nada condizente com a realidade. Margarida Gil traça um perfil radicalmente diferente, de alguém extremamente culto, escudado num mundo quase só seu, onde existiam muitos livros e discos. “O João tinha uma esfera muito fechada na qual era muito difícil, ou muito fácil, entrar. Vivia rodeado de literatura e era um melómano convicto. Era uma pessoa de rotinas, distante do mundo que retratava nos filmes, que deram ao público uma ilusão de uma vida nada correspondente à realidade. Se assim fosse teria sido preso”.
Sobre a faceta paternal, a mulher que melhor o conheceu não tem dúvidas de ter vivido com uma pessoa distraída “mas fisicamente muito terna, que o demonstrava de forma intensa junto do filho, até pela capacidade de revelar um lado muito presente”. Por César Monteiro não esconde a admiração, com ele aprendeu a partilhar gostos e atitudes. “De outra forma, teria sido impossível termos vivido 25 anos juntos”, conclui.
CRÍTICAS NEGRAS
Paulo Branco, produtor de cinema e um dos homens que sempre apoiou o realizador nos momentos mais difíceis, especialmemte em tempo de críticas, prefere remeter-se a um silêncio quase sepulcral, destacando acima de tudo a qualidade da obra deixada. “Mais interessante do que dizer se o João era isto ou aquilo será observar os filmes que fez, que ficam com certeza e todo o mérito na história do cinema”. Em 2000, quando a polémica à volta de “Branca de Neve” rebentou, Paulo Branco defendeu a película, quase toda construída num negro que invadia o ecrã, com a afirmação de que verdadeiramente preocupante era que os filmes realmente ‘buraco-negro’ – aqueles que são financiados e pagos pelo contribuinte – não chegavam sequer a ser feitos, pondo desde logo em causa a celeuma à volta da atribuição de subsídios estatais a um filme como aquele. A palavra de uma figura tão conhecedora do panorama cinematográfico português e internacional não chegou para calar os detractores, mas deu alento numa fase em que muitos esperavam que César Monteiro não mais voltasse a filmar. Enganaram-se. E o realizador, uma vez mais com Paulo Branco, presenteou-os com ‘Vai e Vem’, a última e uma das mais marcantes obras. N
FILMOGRAFIA
Sophia de Mello Breyner Andresen* (1968); Quem Espera Por Sapatos
de Defunto Morre Descalço (1970); Fragmentos de Um Filme-Esmola:
A Sagrada Família (1972); Amor de Mãe (1975); Que Farei Com Esta Espada? (1975); Veredas (1978); O Amor das Três Romãs (1979); Os Dois Soldados (1979);
O Rico e o Pobre (1979); Silvestre (1982); À Flor do Mar (1986); Recordações
da Casa Amarela (1989); O Último Mergulho (1992); O Bestiário* (1995);
A Comédia de Deus (1995); Lettera Amorosa* (1995); Passeio Com Johnny Guitar* (1995); Le Bassin de John Wayne (1997); As Bodas de Deus (1999); Branca de Neve (2000); Vai e Vem (2003)
*Curtas-metragens.
retrato
PERFIL
João César Monteiro nasceu na Figueira da Foz, a 2 de Fevereiro de 1939. Aos 15 anos, mudou-se para Lisboa e, em 1963, estudou cinema no London School of Technique. Foi duas vezes premiado no Festival de Veneza (Leão de Prata por ‘Recordações da Casa Amarela’ e Grande Prémio do Júri por ‘A Comédia de Deus’). Protagonizou a maior polémica do cinema nacional, em 2000, com ‘Branca de Neve’. Era casado com Margarida Gil. Faleceu este ano, em Lisboa, um dia após ter completado 64 anos de idade.
HISTÓRIAS DE AMORES
“Tenho quase 55 anos e, aos 17, comecei a namorar com o João César”, recorda Magda Bigote Figueiredo. “Demo-nos durante algum tempo e sempre tive uma ternura muito especial por ele”, diz, acrescentando: “Nos últimos anos e, como vivi no estrangeiro, não o via com frequência mas, se nos vissemos, conversávamos muito bem”. À seme-lhança de (quase) todas as pessoas que com ele privaram, Magda também é fiel depositário de episódios curiosos. “Um dia, tinha chegado do Liceu e estava em casa a almoçar quando recebo um telefonema do António Pedro Vasconcelos, porque o João César não queria sair da cama. Dizia que lhe apetecia morrer. Ele andava muito deprimido porque, nesta altura, não conseguia apoios financeiros para fazer cinema”. O que aconteceu depois? “Fui a correr para casa dele, conversámos e ele acabou por sair, arranjar-se e uma hora depois estávamos no ‘Vává’ a tomar café”, relata. “Penso que ele era uma pessoa extremamente interessante, de uma enorme doçura mas, às vezes, fazia-se passar por louco sem o ser”, remata.
Da fama de gostar (mais do que isso!) de mulheres, nunca se livrou. Geralmente, mais novas que tratava como princesas ou musas. Gostava que dançassem para ele. M. foi uma das suas mulheres e uma daquelas que não dá o nome. “Batia sistematicamente a portas fechadas, quando não conseguia subsídios para os seus trabalhos.” Nos idos anos sessenta, o cineasta conheceu Laura (nome fictício) com a qual manteve uma relação. Ele aparecia sem a avisar. Simplesmente, aparecia. “Dizia sempre a mesma coisa: Tens Brahams? Então põe”, recorda, prosseguindo: “Penso que o que nos reuniu foi um certo pendor para o ‘nonsense’, uma estranheza em relação à vida, tal como ela se ‘apresentava’ e, também, as nossas concepções éticas”.
Laura testemunha, ainda, um certo amor maternal compulsivo. “O João men-cionava sempre a mãe. Falava muito da mãe. Penso que o deve ter feito com todas as mulheres”, comenta. “Para mim, tudo isto foi ontem... e o João foi uma das crianças mais lindas e espantosas que conheci.”

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