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João Medeiros: “O grande jogador procura soluções”

Autor de ‘Virar o Jogo’ explica como os ensinamentos da alta competição podem ser aplicados na vida de todos nós.
Fernanda Cachão 9 de Junho de 2019 às 11:00
João Medeiros
João Medeiros
UK Sport foi criada pelo governo inglês para melhorar as performances desportivas para os Jogos Olímpicos de 2012. João Medeiros, jornalista português com percurso invulgar - emigrou e chegou a diretor da ‘Wired’ - interessou-se pela história e acabou por publicar ‘Virar o Jogo - como atletas subvalorizados e cientistas pioneiros descobriram o que é preciso para ganhar’, em Portugal editado pela Vogais.

Dê-me um exemplo de um atleta subvalorizado em Portugal que deu a volta?
Se calhar, o Bruno Fernandes que não teve grande sorte na carreira inicial em Itália e depois veio para o Sporting e hoje é um atleta cobiçado. Às vezes, os atletas não se dão num determinado contexto. O contexto para o atleta é extremamente importante. As pessoas não se apercebem o quanto é difícil para um jogador de futebol - por muito milionários que sejam - a adaptação a um novo contexto, a um país, a uma língua, a uma equipa, a sistemas de jogo e ainda lidar com as pressões da família que também tem dificuldades de adaptação. Um talento não tem um desempenho igual em todo o lado. Vê-se isso muito no futebol, à exceção do Ronaldo que, pelos vistos, adapta--se bem em qualquer lado.

A superação está na tentativa e no erro, ou seja, o talento está sobrevalorizado?
O talento inato sim. Eu nunca vou ser campeão de natação, nem nunca vou correr os 100 metros ou jogar basquetebol, pois há critérios físicos que são determinantes, mas passando essa barreira, a dos limites físicos, o talento prospera quando os jogadores estão preparados para sair da zona de conforto. O grande jogador está sempre à procura de soluções para diversos problemas, se nunca falharem não saberão o que é possível. O Ronaldo é exemplo disso. É isso que o define como jogador. Quando era jovem, era um ponta de lança, hoje é um jogador com características diferentes. Ele supera as expectativas porque se põe sempre à mercê do falhanço.

É esse o maior talento do Cristiano Ronaldo?
Sim, a persistência mental. Aliás, na sua geração - a do Ronaldo, do Nani e do Quaresma - vê-se onde está a persistência. Quando apareceram eram semelhantes a nível técnico, mas a persistência e disciplina mental do Ronaldo, o jogador que está sempre a tentar mais e mais, faz a diferença.

Fala da teoria das 10 mil horas de prática que, segundo Gladwell, é o necessário para alguém se tornar mestre em qualquer área...
Menciono no livro para dizer que foi uma parangona. Os grandes jogadores fizeram-se na rua, a brincar, desde miúdos. Se uma pessoa começa obcecada pelo resultado, sem alegria, arrisca-se antes demais a um ‘burnout’. Todos os grandes atletas começaram a brincar. Isso aplica-se a adultos que queiram aprender coisas. Tudo deve começar com exploração, brincadeira, seja no futebol ou noutro tipo de habilidade. É a improvisação, a curiosidade, que nos torna únicos e bons. A outra parte da superação é o descanso; o cérebro aprende quando está a descansar. Acho que na vida não levamos isso muito a sério.

O que é que isso quer dizer da China e do trabalho que o país está a fazer no futebol?
Eles levam muito a sério a regra das dez mil horas. Querem fabricar gerações de jogadores. A China anda obcecada com o futebol há cinco ou dez anos, mas podiam aprender com países que tiveram sucesso no futebol, como a Espanha, a Alemanha, o Brasil ou a Holanda, onde há a cultura do jogo de rua. As academias desses países levaram para os treinos essa cultura. Pegaram em crianças - e estou a falar em crianças porque é o que a China está a fazer - e adaptaram os treinos. Nessas novas academias, em que os treinadores são sobretudo designers de ambiente, as equipas têm de arranjar soluções por si próprias, o que permite perceber a complexidade do jogo.

O ‘Virar o Jogo’ - e estou a pegar no título do seu livro - tem que ver também com o prazer de se aprender qualquer coisa?
Claro.

Podemos então dizer que os portugueses - por comparação com os nativos no país onde vive - são mais de improviso e talento inato do que perseverança e ambição?
O português tem talento para o improviso. A Inglaterra - não digo agora porque está um caos - sempre foi um país com estruturas muito fortes, em que tudo funciona, onde as regras na maior parte da vezes funcionam, por isso a expectativa é de que as coisas funcionem. Em Portugal, a expectativa é contrária, é de que alguma coisa irá acabar por correr mal. Quando alguma coisa corre mal, os ingleses paralisam um bocado, já os portugueses aprenderam a improvisar e isso acaba por ser fantástico. Isso vê-se muito bem em portugueses lá fora - dão-se bem porque a capacidade de improvisação é fantástica.

Podemos então temer pelo povo inglês se houver um Brexit à bruta?
Sim. Tem que ver com essa noção de que ‘nós somos a Inglaterra’. Existe uma soberba antiga, uma imagem da glória passada, que não existe em Portugal. Eles ainda acham que estão em guerra com a Alemanha. Uma pessoa que se adapta consegue percecionar diferentes realidades e tirar lucro disso.

No seu livro cita Cruyff a propósito de Guardiola: "Os fracos têm de desenvolver uma inteligência especial, uma capacidade de encontrar alternativas."
No futebol, por ser um jogo complexo e por permitir diversos tipos de jogadores, por não ser um jogo de força, torna-se mais evidente. Um jogador mais fraco tem de desenvolver outro tipo de capacidades, tem de ter inteligência e visão de jogo. E há exemplos disto mesmo: Figo, Rui Costa, Xavier, Iniesta e Messi são jogadores que têm capacidade de ler o jogo, os passes, que vai além da capacidade física.

Nesse aspeto, o futebol é um desporto mais à dimensão humana?
Sim e isso explica por que é tão popular. Tem o drama de ser um desporto de equipa mas também um jogo de diversas personalidades.
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