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João Queiroz e Melo: “Fazer um transplante era quase um roubo”

O pioneiro dos transplantes de coração em Portugal lembra o passado e defende que a crise é boa para repensar e mudar o SNS
19 de Fevereiro de 2012 às 00:00
O médico teve o coração de Jorge Sampaio nas mãos
O médico teve o coração de Jorge Sampaio nas mãos FOTO: João Miguel Rodrigues

João Queiroz e Melo, 66 anos, foi o cirurgião que fez o primeiro transplante cardíaco em Portugal. É director adjunto do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica.

- Portugal tem cirurgiões cardiotorácicos suficientes?

- Não. E o problema agravar-se--á no futuro. O parque humano da cirurgia cardiotorácica está muito envelhecido e a especialidade não atrai os internos, sendo previsível que dentro de dez anos comecem a faltar técnicos no Serviço Nacional de Saúde [SNS].

- Por que razão a cirurgia cardiotorácica não atrai?

- A esmagadora maioria dos serviços de cirurgia cardiotorácica são do SNS e é praticamente impossível [só para pessoas excepcionais] compatibilizá-lo com prática privada. O problema é que aquilo que o SNS paga habitualmente não é satisfatório, quando comparado com os colegas de outras especialidades. Por isso, os melhores internos não escolhem esta área. Quando se paga a um interno 1500 euros brutos não se consegue cativar. Um cirurgião não pode ser tratado como qualquer funcionário administrativo vulgar, como acontece agora.

- Como antevê o impacto da crise no sector da saúde?

- A actual crise é uma ocasião óptima para pensar num futuro sustentável. Segundo a Organização Mundial de Saúde, calcula-se em 40 por cento o desperdício nos cuidados de saúde. Logo, racionalizando não é preciso fazer cortes.

- Como classifica a actuação de Paulo Macedo?

- O actual ministro não tem dinheiro e, portanto, ‘não tem vícios’. Ele está a racionalizar e isso é bom. Crescemos de tal forma que o corpo está maior que o fato. Não podem haver serviços a funcionar muito pouco; uma cama de hospital não pode continuar a gerar 20 quilos de lixo por dia.

 


- Como encara a suspensão das cirurgias cardiotorácicas na Cruz Vermelha?

- Não conheço os dados, mas, se há capacidade no SNS, e se essa capacidade tem boa qualidade, porque é que o Estado tem de contratar fora?

- Concorda com as recomendações nos critérios de selecção dos dadores de órgãos?

- São recomendações. Mas ao longo da minha vida fiz imensas excepções... é melhor optar pelo menos bom do que optar por nada. Em muitas situações não pode haver escolhas e temos de trabalhar para os doentes e não para a estatística.

- Há falta de órgãos?

- Não. Transplantamos cerca de 50 pessoas por ano, mas há mais de cem dadores anualmente. Pode, porém, haver dificuldade por questões de temporalidade numa situação relativa, sobretudo com grupos sanguíneos raros.

- Quando é preciso esperar, há formas de contornar as situações limite?

- Sim, recorrendo-se, por exemplo, à assistência circulatória. É possível sobreviver até um máximo de quatro meses com um coração artificial.

- No universo dos transplantes, o cardíaco é raro?

- Em Portugal faz-se uma média de 50 por ano, o que significa que é raro, ao contrário dos transplantes hepáticos e renais.

- Qual a nossa taxa de sucesso?

- 70 por cento, o que é bom.


- Há 26 anos, quando fez o primeiro transplante, era muito diferente?

- Era quase igual em termos técnicos. Mas era uma aventura.

- Porquê uma aventura?

- O meio português não estava preparado. Na altura havia uma grande controvérsia sobre a morte cerebral e a lei era excessivamente permissiva: todos nós éramos dadores a não ser que trouxéssemos connosco uma declaração em papel selado negando-o. Havia muitos fantasmas e fazer um transplante era quase um crime, um roubo.

- Foi alvo de críticas?

- Eram inevitáveis. Recebi cartas anónimas, com acusações e até ameaças de morte.

- O que se sente quando se dá uma segunda oportunidade?

- Um cirurgião cardíaco fá-lo por rotina.

- Que avanços se perspectivam nesta área?

- Controlar a rejeição com medicamentos menos agressivos, evitando infecções e cancros. Mas é sobretudo um desafio farmacológico e não cirúrgico. Outra ambição do futuro seria um coração artificial tão perfeito que nem sequer fosse preciso um coração biológico.

- Como foi ter o coração do Presidente da República Jorge Sampaio nas mãos?

- Os corações são todos iguais.


PIONEIRISMO VALEU-LHE CONDECORAÇÃO

João Queiroz e Melo, médico cardiologista, pioneiro nos transplantes de coração em Portugal, nasceu em Tomar, em 1945. Ingressado em Medicina na Universidade de Lisboa (1968), optou pela especialidade de Cirurgia Geral nos Hospitais Civis de Lisboa e de Bissau, que concluiu em 1974. Fez a especialidade de Cirurgia Cardiotorácica, no Hospital de Santa Marta (1979), mas passou também por Londres (Reino Unido), e Portland e Boston, nos EUA.

Em 1986, no Hospital de Santa Cruz, realizou o primeiro transplante de coração em Portugal, tendo sido, em 1988, condecorado como Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada. "Mas fiz tantas outras coisas tão mais importantes tecnicamente, como a cirurgia da transposição dos grandes vasos em recém-nascidos, na área das cardiopatias congénitas...", afirma aos 66 anos, um ano depois de ter deixado de operar. Para relaxar, entre actos do bisturi, praticava (e ainda pratica) windsurf e kitesurf.

O MÉDICO QUE DÁ ESPERANÇA ÀS CRIANÇAS

Durante o curso, Emanuel Furtado, o único cirurgião que realiza transplantes hepáticos pediátricos em Portugal, frequentava, sempre que podia, o serviço de urgência, onde o cativou "o poder reparador da cirurgia e o facto desta implicar capacidade de raciocínio, destreza e intensidade". Logo ele, que já o trazia nas veias – é filho de Linhares Furtado, autor do primeiro transplante em Portugal.

O pioneirismo do pai, nos anos 60, foi "motor" do avanço. "A excelência numa área acarreta sempre avanços nas áreas afins. Foi o caso do meu pai, não só na transplantação, mas também nas suas envolventes, incluindo as legais [lei da doação]."

Para o médico, a emoção fica fora da sala de operações: "O sucesso ou fracasso são muito mais intensos tratando-se de crianças".


Não gosta é da afirmação de que é o único, pois cada vez que transplanta uma criança, não está sozinho. "Não basta um cirurgião autónomo. São feitos por uma equipa em que estamos sempre presentes eu e o dr. Aurélio Reis, especialista em cirurgia pediátrica. Quando um está a reduzir um enxerto, o outro já tem de estar a operar a criança a transplantar."

Um ano depois de ter parado de operar nos Hospitais de Coimbra, situação envolta em enorme polémica por ter conduzido várias crianças necessitadas de transplante de fígado para Espanha, Emanuel Furtado voltou com a convicção de que estão reunidas as condições para continuar: "Assim o fazem crer o empenho das instituições, dos profissionais e, em particular, do novo Conselho de Administração do CHUC e a reorganização em curso."

Fã de ‘Admirável Mundo Novo’, de Aldous Huxley, não admira que acredite que o futuro passa não só por "vencer a rejeição", mas também por "conseguir produzir órgãos, sempre deficitários para o número de doentes que deles necessitam". Mas quando tem uma vida entre mãos é pragmático: "Encaro-o com a objectividade e serenidade imprescindíveis à realização do acto."

Transplantes Universidade Católica Serviço Nacional de Saúde
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