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João Lagos: "Não posso ir jantar fora como ia"

Foi rico, admite, mas o Dakar e uma série de más apostas levaram à derrapagem. Mas o Sr. Estoril Open está de volta
Marta Martins Silva 29 de Maio de 2016 às 15:30
João Lagos tem 72 anos
João Lagos tem 72 anos FOTO: Vítor Mota

E oi através de comunicado que, a 18 de novembro de 2014, João Lagos, o empresário que durante 25 anos organizou o Estoril Open, revelou que em 2015 não teria condições para assegurar o maior evento do ténis em Portugal.

Liguei-lhe a 19 de novembro de 2014 a pedir uma entrevista. Porque não aceitou naquela altura?

Foi uma altura de luto, não tinha vontade de falar publicamente sobre o tema.


Custou-lhe fazer esse luto?

Sim. Foi pôr uma pedra sobre um percurso cheio de sucesso, que  serviu  de  alavanca para outros projetos ligados ao desporto, de pessoas  a quem ajudei.


Essas pessoas ficaram ao seu lado?

Muitas sim, mas há sempre ovelhas ronhosas espalhadas pelos rebanhos.


Quem é que o desiludiu?

Não quero particularizar, mas muitas vezes essas desilusões vêm de quem está mais perto de nós.


Ainda se sente magoado com essas pessoas?

Sim, mas a vida continua e este é um julgamento que me abstenho de fazer. Quando lá chegarmos acima, há alguém para julgar.


Quem nunca lhe falhou?  

Os que mais me tocam são os funcionários com quem fiquei em falta por causa da insolvência da empresa e que não obstante prejudicados, não se viraram contra mim, ficaram solidários e disponíveis para o que desse e viesse.

Foi o que mais lhe custou: ficar a dever dinheiro?  

É a parte mais dolorosa. Mas tenho esperança que a vida ainda dê uma volta e que eu possa pagar o que devo.


Foi ao fundo do poço. A que se agarrou para conseguir reerguer-se?

Toda a gente conhece a minha devoção à Nossa Senhora de Fátima. E o ténis é uma modalidade em  que  podemos estar a perder, a levar uma grande tareia, mas enquanto não nos ganharem o último ponto, podemos inverter o resultado.
 

Mas é difícil recomeçar aos 72 anos...

É sempre difícil recomeçar. Mas a startup está na mão de um veterano de guerra que sou eu. [toca o telemóvel com o hino nacional]
  

O que é que se segue?

A copa ibérica, que foi uma coisa que eu nunca deixei de fazer e que é uma prova internacional muito antiga, criada por um senhor que, quando eu era garoto, era o único patrocínio que existia e que me dava um par de raquetes por ano. À medida que ia ficando velho, ia-me pedindo para tomar conta da copa. Agora, vou melhorá-la e fazê-la no Jamor. Mas há outras solicitações, nomeadamente o padel, essa modalidade nova de raquetes, com uma expansão incrível. Vou fazer o campeonato mundial da modalidade, que vai acontecer em Portugal ainda este ano.

A primeira edição do Estoril Open foi em 1987...  

O Estoril Open nasceu em Cascais, onde eu tinha a escola de ténis na Quinta da Marinha. Já eram torneios com  50 mil dólares e 75 mil dólares de ‘prize money’. Era a grande oportunidade dos jogadores portugueses  ganharem os primeiros pontos. Depois interrompi em 1989 porque já estávamos a inaugurar o grande Estoril Open que foi obrigado a  sair de Cascais, pois tinha de ser feito em terra batida e ali não havia esses campos.  Em 1990 fazemos  o primeiro Estoril Open já no Jamor.   


Nestes últimos dois anos desligou a televisão para não ver a prova feita por outros?  

A prova que aparece aí feita pelos meus ‘amigos’? Acompanho mas não ponho lá os pés. Mas não deixei de jogar ténis, nem de gostar de ténis, mas com alguma…    


Mágoa?  

Sim, primeiro por usarem uma marca que é minha. É um descaramento. Podiam chamar-lhe Estoril Cap, Estoril  Championships... Criem uma marca nova mas não usem a minha. Se calhar, se tivessem usado outro nome, já lá tinha ido.


Como foi a sua infância?
Nasci em Lisboa em 1944, no mesmo ano em que nasceu o Jamor. Primeiro, o estádio de futebol e o ténis um ano depois, em 1945.


Quem eram os seus pais?

Eram de famílias superrelacionadas com o desporto. O meu avô vivia mesmo ao lado do Jamor, que era uma quinta, na altura expropriada para fazer aquele complexo, e que pertencia à melhor amiga da minha mãe. Cresci à medida que o ténis também crescia. A minha infância foi feita ali. Eram quatro, cinco campos, depois chegou aos 40.

É a sua segunda casa.

É o meu berço. O meu pai foi toda a vida ligado a negócios dos seguros, mas foi o meu grande treinador  e  incentivador no ténis, ele que aprendeu a jogar com a minha mãe, quando a começaram a namorar.   


Com que idade começou a jogar ténis?  

Tinha três, quatro anos. Naquela altura, não havia as raquetes próprias para  crianças, por isso comecei com a dos meus pais, pesadíssimas, de madeira.   


E acabou por praticar outros desportos…

Cheguei a ser atleta do Sporting, de futebol, o meu treinador era o Travassos (um dos cinco violinos).   


Mas optou cedo pela  carreira de promotor...

Tem a ver com o 25 de Abril. Eu tinha 30 anos e percebo que, a partir daquela idade e no estado em que o País estava, a minha vida como tenista de competição não tinha futuro. É por isso que crio a minha escola de ténis em maio de 1974. O ténis começava a aparecer mas pela negativa, pois era considerado de elite. Um jogador de ténis era confundido com um fascista. 
 

Recorda-se de alguma situação em particular?

O encarregado do clube dormia com uma caçadeira à cabeceira com medo de ser assaltado.


Já disse que foi o cancelamento do Dakar que precipitou o descalabro.

A interrupção do Dakar, para além do prejuízo provocado no momento, traz o prejuízo indireto.  


Se não fosse isso não teria ido ao fundo?

O problema é mais por aquilo que  se deixa de ganhar quando tem já as coisas garantidas para os próximos anos. Como não sou colecionador de dinheiro, ganho e invisto…  e,  naturalmente, partindo do princípio que tinha projetos…

Estamos a falar de quantos milhões?

De muitos milhões. A margem que a gente  soltava permitia investir noutras coisas.  


Foi otimista demais nos investimentos que fez?

Foram motivos de força maior. O cancelamento do Dakar deveu-se a ameaças terroristas. Como contava com esses fluxos, meti-me noutros investimentos que depois ficaram sem esse apoio financeiro e é aí que a minha vida se complica.

O BES tinha 19,5% do capital da João Lagos Sport.

Foi um período que antecede a derrocada do banco. Era uma empresa de capital de risco de que nos servimos uns tempos antes para intervir na empresa e ter apoio financeiro para tapar lacunas desses investimentos. Havia uma outra parte igual por um outro fundo de capital de risco e cada uma delas tinha um administrador. Era uma operação financeira para durar quatro anos e  ao fim desse prazo, se as coisas corressem bem, recompraria essas posições. Isso não chegou a acontecer mas não tem nada a ver com o banco.


É amigo de Ricardo Salgado. Jogava ténis com ele?

Já joguei.


Quem jogava melhor?

Era eu.

Ele não  se  vai  zangar  por dizer isso? 

Não, de maneira nenhuma.  


Conheceram-se com  que idade?

Teenagers, em Cascais, no Sporting Clube de Cascais.  


Também jogou com o seu amigo Marcelo Rebelo de Sousa?

O Marcelo gosta imenso de ténis. Mas também jogo melhor que ele, ao menos que possa ser melhor que ele nalguma coisa (risos).   

Foi dos amigos que ficou do seu lado?  

Ele e a família toda. Aliás, quando tive oportunidade de fazer o Estoril Open em 1990, foi um dos amigos que me ajudou a reunir as condições para consolidar o torneio.   


Chegou a ser rico?

Sim. Mas precisei de trabalhar e continuo a precisar.  


Na sua vida pessoal também foi afetado?

Claro que sim. Esta grande entrega ao trabalho e às escolhas profissionais tiveram custos.   


Arrepende-se?  

Não devo ser mau comigo próprio a ponto de me sentir culpado, mas não soube gerir bem as situações. Deixei tombar mais para o lado dos projetos empresariais, descurando o projeto família.


Falhou?  

É óbvio que falhei, uma falha terrível. Posso ter sido bom em muitas coisas, recebi montes de prémios e de reconhecimento de diversas instituições, até uma comenda, mas uma medalha que não ganhei e não ganharei é  a medalha de bom marido.

Já conseguiu  reequilibrar as finanças? Teve de pedir ajuda?   

Para a minha vida pessoal não tive de pedir ajuda.  


Abandonou luxos?  

O meu budget não permite ir jantar fora como ia. Mas não é por frequentar menos restaurantes com estrelas Michelin que como  pior. Come-se muito bem em muitas tasquinhas… Tantos milhões que me passaram pelas mãos... Também deixei de cortar o cabelo no meu barbeiro do Ritz, que é um grande amigo, e passei a cortar  na Marlene, que leva quatro vezes menos.   


Ainda o reconhecem?  

Desde os mais simples aos mais sofisticados. Ainda no outro dia, aqui em Algés, um sem-abrigo disse-me: ‘Estou a conhecer a sua cara…. Não é, não é?’ Eu respondi: ‘Vá, diga lá, sou capaz  de ser…’ Diz ele: ‘Olhe, não é o homem do ténis?’

 

O HOMEM QUE NASCEU AO LADO DO JAMOR

João Lagos tem 72 anos e uma vida inteira dedicada ao desporto. Primeiro como atleta – no ténis foi várias vezes campeão nacional de absolutos e disputou, por mais de uma vez, a Taça Davis – mas também foi jogador de futebol no Sporting. Cresceu ao lado do Jamor o fundador do mais conhecido torneio de ténis em Portugal, que organizou durante 25 anos até a sua empresa, a João Lagos Sport, entrar em insolvência e abdicar de todos os projetos entre mãos devido à crise do País e ao cancelamento do Dakar por causa de ameaças terroristas. Prepara-se agora para regressar com o campeonato do Mundo de padel e espera mostrar que há sempre esperança de recomeçar mesmo que a idade comece a pesar. Pai de dois filhos, tem também um enteado ("de quem gosto como se fosse um filho") e diz que só falhou numa coisa: como marido.  

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