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Joaquim Vieira: "Só uma parte dos pedófilos da Casa Pia foram julgados"

Jornalista e ensaísta conta-nos como é que o sexo, a luxúria, os jogos de sedução e as paixões secretas influenciaram a História de Portugal.
Manuela Guerreiro 8 de Dezembro de 2019 às 11:00
Joaquim Vieira
Joaquim Vieira FOTO: Direitos Reservados

No livro ‘História Libidinosa de Portugal’ (Oficina do Livro) há reis e rainhas, há sexo e poder. Monarcas bígamos, filhos bastardos, uma rainha com tendências lesbianas e um rei atraído por freiras. Em momentos importantes da história, o País foi salvo porque o sexo extravasou para lá do matrimónio. Escândalos que chegaram à República com os jogos sexuais a revelarem práticas pedófilas, menos conformes em democracia.

Quais os escândalos sexuais mais relevantes da História?
Na monarquia, distingo a promiscuidade sexual que existiu em muitos períodos com membros da igreja, padres e freiras mas também abades e bispos. Embora canonicamente interdito, haver filhos entre clérigos – por vezes até publicamente assumidos – era normal, e ninguém parecia levar a mal. Creio que, em grande parte, o envolvimento de freiras não resultava da sua própria vontade. Era imposto tanto pela hierarquia como pelo desejo imoderado de aristocratas e monarcas. Pouco terá distinguido, por exemplo, o Mosteiro de Odivelas de um lupanar para reis, começando por D. Dinis, o seu fundador, e atingindo o auge com D. João V, que teve aí filhos de professas, incluindo da célebre madre Paula, a sua concubina favorita.

E mais recentemente?
No Estado Novo, saliento o escândalo ‘Ballet Rose’, um caso de corrupção de menores, como então se dizia, do sexo feminino e que envolveu figuras do regime salazarista, levando à decisão discricionária do ditador de deportar sem termo fixo o oposicionista Mário Soares para São Tomé, apenas por desconfiança de ele ter contribuído para a divulgação no estrangeiro deste caso – o qual dera origem a um processo judicial julgado à porta fechada. Em democracia, sem dúvida que o grande escândalo foi o da Casa Pia, estando eu absolutamente convencido de que só uma ínfima parte dos pedófilos envolvidos responderam em juízo.

Qual destes escândalos mais o surpreendeu?
Surpreendeu-me o caso Casa Pia, tanto pelos nomes de algumas das personalidades envolvidas como pelo facto de, mesmo em democracia, o Estado português não ter sido capaz de preservar a integridade de crianças que estavam à sua guarda e ao seu cuidado, demitindo-se assim, durante décadas, de responsabilidades que lhe competiam. Não há grande diferença entre o comportamento do PS nessa altura e o comportamento do governo de Salazar no ‘Ballet Rose’. Havia a preocupação de ocultar da opinião pública aquilo que pudesse ser incómodo. Acho que houve a tentação de interferir na Justiça e tentar abafar. Direi que é um reflexo instintivo de autodefesa do poder político, que existe sempre perante casos desta natureza e de outros. Se forem casos de corrupção não é muito diferente.

Como surgiu a ideia deste livro?
Apercebi-me de que o sexo tinha uma importância fundamental em muitos acontecimentos históricos quando trabalhei noutro projeto. Não quer dizer que determine todos os acontecimentos, mas, muitas vezes, as relações sexuais entre os protagonistas da história acabam por ter um efeito muito importante. A criação da II Dinastia, por exemplo, com D. João I, que era um filho bastardo. Tudo o que aconteceu na revolta de 1383-1385 talvez até tenha sido determinante para sermos um país independente.

A própria nação nasceu de uma bastardia…
Na Idade Média, era habitual tratar muitos filhos bastardos com os mesmos privilégios com que se tratavam os filhos ditos legítimos. No caso concreto do Condado Portucalense, que dá origem a Portugal, D. Afonso VI, rei de Leão e Castela, tinha uma filha bastarda a quem devia entregar também um vasto território que fazia parte do reino dele e que foi o Condado Portucalense. Ela recebeu o dote em casamento e é daí que nasce Portugal. Como nós sabemos o filho dela, D. Afonso Henriques, é o primeiro rei de Portugal.

Com uma nação nascida desta forma, o que diz a História sobre os portugueses?
Não sei se há um traço distintivo dos portugueses com base nas relações sexuais. O sexo é um instinto humano. Toda a gente pratica, até porque tem que ver com a sobrevivência da espécie. A tendência para as relações extraconjugais também não é um apanágio dos portugueses. A nacionalidade é uma coisa que se constrói com o tempo. Talvez houvesse uma maior desorganização em Portugal, mesmo nas práticas sexuais. Uma rainha como a mulher do D. João V, por exemplo, que era austríaca, achou estranho que houvesse esta promiscuidade e que os filhos bastardos fossem aceites.

Que diferenças entre regimes?
O sexo deixou de ter tanta importância nos assuntos do Estado. Como a monarquia depende da sucessão dinástica, que tem que ver com laços de sangue, com heranças de pais para filhos, a questão da sucessão tinha uma importância fundamental. Quem é que seria o sucessor? Esse problema deixou de existir em República. As escolhas dos chefes de Estado são feitas por métodos completamente diferentes. E não há sucessão. O sexo desvalorizou muito com a república, nesse aspeto. É absurdo o destino de uma nação estar dependente dos humores sexuais de um monarca.

Em três dezenas de soberanos, 24 tiveram filhos bastardos...
Tivemos o D. João I e, quando um monarca bastardo inaugura uma linha dinástica, a partir daí deixa de o ser. Depois tivemos D. João IV, que não era bastardo mas que descendia de uma linha bastarda. Mas todos eles, desde o primeiro até ao último, são descendentes de D. Afonso Henriques. Que é o pai de todos nós. E não se sabe de quem é filho. É o mistério da nacionalidade portuguesa.

E pode ser esclarecido?
Acho que é possível, através da exumação dos restos mortais, fazer uma análise de ADN. Isso esteve previsto há uns anos, por uma investigadora portuguesa. O túmulo está em Coimbra, mas à última da hora, quando já estava prevista a operação, houve uma ordem do Governo a impedir. Continuamos na escuridão. A análise do ADN comparada com a análise dos supostos pais, D. Henrique e D. Teresa, poderia eventualmente esclarecer de quem D. Afonso Henriques era filho.

O livro não retrata só escândalos, também há histórias de amor.
Sim, D. Pedro e D. Inês. E Sá Carneiro. D. Fernando não era suposto casar-se com Dona Leonor Teles e apaixonou-se, contra a palavra dos conselheiros que achavam que deveria fazer um casamento por interesse de Estado. Poderá ter havido relações amorosas noutras situações, mesmo aquela relação do Teixeira Gomes com a criança de 13 anos, que era operária da fábrica do pai, em Portimão, de quem teve duas filhas. E os amores do Salazar. Tinha aquela característica, como disse um dos ministros dele, ‘convém ser cauto mas não tem de ser casto’. Teve cuidado de ocultar isso da opinião pública porque cultivava aquela imagem de que era casado com a pátria, além de defender a moral. Mas não consegui esclarecer se chegou a vias de facto com as suas apaixonadas.

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