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JOSÉ GAMEIRO: ELES QUEIXAM-SE QUE ELAS SÃO CHATAS

É psiquiatra, doutorado em Saúde Mental pela Universidade de Londres, co-fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar e autor de vários livros. Pelo seu consultório passam inúmeros casais à procura de uma alternativa ao divórcio. Porque a separação dói que se farta.
28 de Setembro de 2003 às 14:43
Em que circunstâncias é que um casal recorre à terapia familiar?
Sobretudo quando já esgotou todas as possibilidades de resolver o problema sozinho. Costuma-se dizer que ‘entre marido e mulher ninguém mete a colher’,no entanto, por vezes, os casais não conseguem contornar as questões e aceitam a ajuda de uma terceira pessoa.
Mas a sociedade ainda encara a terapia com alguma desconfiança. Tem-se a ideia de que ‘os psiquiatras são para os outros’...
Nos últimos anos, temos assistido a uma evolução na sociedade relativamente a este tipo de ajuda. É óbvio que as coisas demoram o seu tempo mas, baseado na minha experiência pessoal, posso afirmar que recebo quer casais, quer pessoas singulares, que vêm ter comigo de livre vontade (não são enviados por colegas de outras áreas). Esta gente que chega de ‘modo próprio’ é um indício dessa evolução.
O que pensa sobre este recente fenómeno dos casamentos de curta-duração (uns meses )?
A grande maioria não é assim, mas é um facto que existem casamentos curtos. Penso que, em primeiro lugar, isso tem a ver com o aumento do divórcio em geral. Repare, hoje em dia a esperança de vida é muito maior. Antigamente uma pessoa com 40 anos olhava para a frente e pensava: “Não tenho muito mais tempo, não vale a pena separar-me”. E existe a ideia da felicidade pessoal, que é muito mais forte do que era há umas décadas.
A ‘felicidade pessoal’ também passa pelo ‘outro’.
Obviamente que apesar de lhe chamarmos ‘felicidade pessoal’, ela passa muito pela relação conjugal. Se essa relação não é satisfatória, a sociedade actual é mais permissiva em relação aos que querem ‘cortar’ com ela. E a maior parte das pessoas que se separam ou divorciam voltam a ‘conjugalizar-se’ com outras. Isso quer dizer que gostam do esquema (risos)...
Quais são as queixas masculinas mais frequentes, ou seja, o que é que um homem alega quando se quer divorciar?
Que as mulheres são umas chatas. E depois há queixas sexuais - não necessariamente de funcionamento, mas de frequência. O estereótipo é este: elas queixam-se de que eles não lhes ligam nenhuma; eles queixam-se de que elas não vão para a cama com eles.
Isso é um ciclo vicioso. A mulher não quer ter relações porque se sente magoada e ele não lhe liga porque não têm relações...
Sim, muitas vezes, o que acontece é que os casais têm dificuldade em exteriorizar aquilo que sentem e que pensam. Mas não se pense que a vida sexual é fundamental. Costumo dizer que ‘há para todos os gostos’ e por essa razão é complicado traçar um estereotipo da vida sexual dos casais. Há uns que não se dão bem nessa área mas que são felizes.
Nas separações/divórcios, é curioso constatar que pouco tempo depois, o homem está novamente acompanhado, enquanto a mulher faz um ‘luto’ mais prolongado.
(risos) Por um lado, há uma lógica de mercado nisso, ou seja, há mais mulheres que homens naquilo a que os sociólogos designam de ‘mercado conjugal’. Os homens são mais dependentes e, tradicionalmente, mais superficiais na sua relação amorosa. Têm mais tendência para, pouco depois da separação, encontrarem uma namorada. As mulheres, quando se ligam a alguém é de uma forma mais intensa, mais forte. Mas também quando se decidem separar, está decidido.
Ou seja, elas são mais ‘radicais’ na questão das separações?
(risos) Exacto. Vejo muitos casais com situações complicadas em que é clara a insatisfação feminina. E nesses casos, é muito difícil demover as pessoas - se a mulher já decidiu, está decidido. Saliento ainda que quando as mulheres decidem separar-se, fazem-no, grande parte das vezes, sem que exista uma terceira pessoa.
Quando um casal se separa, existe a ideia errada de que apenas a pessoa que é ‘deixada’ sofre.
A pessoa que se decide separar também sofre mas, eventualmente, de uma forma diferente. À partida, quem toma a decisão fica numa situação relativamente ‘fácil’: conseguiu libertar-se de algo que era asfixiante. Por outro lado, também fica com a sensação de projecto falhado e acaba por haver sempre sofrimento e dor. A pessoa que é deixada vive uma fase de raiva e de zanga mais prolongada, até atingir aquele patamar de aceitação.
É mais fácil a um homem ou a uma mulher perdoar uma infidelidade?
Quando elas são infiéis mas querem manter a relação, o homem perdoa. O problema é que às vezes quando elas arranjam uma relação extraconjugal, isso implica a ruptura do casamento. Mas, quer sejam eles ou elas a cometer a infidelidade – e se o ‘outro’ quer manter a união, a relação aguenta-se. Claro que ficam marcas e, de vez em quando, aparecem umas ‘fatias’ de crise. É uma espécie de factura que não está completamente saldada e a pessoa que foi traída sente uma maior necessidade de controlar o outro.
Esse ‘controlo’ é sempre relativo. Uma pessoa quando quer fazer as coisas, faz...
Claro que é. Antigamente, controlava-se através dos quilómetros do carro. Hoje em dia, sem dúvida, que é maioritariamente através dos telemóveis (chamadas feitas e recebidas, mensagens...), dos extractos do banco e de outras formas inimagináveis. É um pseudo-controle. Ninguém controla ninguém.
Quem é que lida melhor com a separação/divórcio, ele ou ela?
A mulher é muito mais autónoma. Um homem tem menos capacidades para estar só e é disso que eles geralmente se queixam. Porque num casamento em ruptura - e em que existem filhos -, regra geral as crianças ficam com as mães (que, à partida, têm menos tempo para se sentirem sozinhas). Os homens chegam a casa e não está lá ninguém.
Muitas vezes encontram ‘escapes’, como o trabalho, as ‘borgas’...
É verdade. O homem tende a refugiar-se. Há muitos pais que têm uma ligação forte, intensa e diária com os filhos e que, com esse afastamento, acabam por sentir um grande vazio. Alguns até tentam a custódia partilhada, mas em Portugal isso é pouco frequente. Ou seja, os homens ficam mais sozinhos...
E isso faz com que tenham mais disponibilidade para sairem com amigos e amigas porque têm uma vida mais liberta. Penso que, dos dois lados, há coisas boas e coisas más. É difícil dizer quem fica a ‘ganhar’ ou a ‘perder’.
Quando um homem ou mulher possui vários relacionamentos ‘falhados’ no seu ‘curriculum’, isso pode ser indicador de alguma instabilidade?
(risos) Esses são os grandes amantes do casamento! Pessoas que, em princípio, esgotam rapidamente as relações mas acreditam nelas enquanto duram. Tenho alguma dificuldade em rotular os outros, cada um é como é... Mas, por exemplo, se um homem que teve três ou quatro casamentos quiser pensar nisso tem direito a fazê-lo. Como também tem toda a legitimidade em não o fazer...
Muitos homens de meia-idade, após dois ou três processos de separação, têm tendência para escolher mulheres muitos mais novas. Porquê?
À medida que eles vão envelhecendo, no seu terceiro ou quarto relacionamento, escolhem normalmente mulheres jovens por razões estéticas e físicas (risos). Não há nada a fazer, as mulheres mais novas são mais atraentes. Em termos sociais, um homem ter uma companheira mais nova proporciona-lhe uma mais-valia.
Mas depois há o reverso da medalha...
Sim, porque essas relações também trazem ‘dores de cabeça’, a começar pela insegurança. Em termos de ciclo vital, por exemplo, pode ser complicado um homem de 60 anos acompanhar uma mulher de 30 ou de 40. Por outro lado, muitas vezes estas companheiras jovens são ‘escolhidas’ porque o homem deseja ter filhos e, como se sabe, um homem aos 60 pode ser pai, uma mulher já não.
Quando um divorciado começa uma nova relação, o lado estético da mulher é assim tão importante?
Penso que em todas as idades e em todas as gerações o aspecto estético da mulher é importante. Não é só isso, mas nas primeiras aproximações conta bastante. Tradicionalmente, um homem pode ter uma barriguinha e ser charmoso, ou ser feio e interessante. Uma mulher feia pode ‘apenas’ ser interessante. Isto é o esteréotipo...
PERFIL
José Manuel Gameiro cresceu com vontade de ir para a Marinha. Mas na adolescência percebeu que afinal queria ser médico. Em 1977 fez internato no Hospital de Santa Maria, e é há exactamente 26 anos que se dedica à Psiquiatria. Tem saudades da Medicina Interna e de fazer urgência hospitalar. Em 1987 foi para o Hospital Miguel Bombarda, onde ainda se mantém como chefe de serviço de Saúde Mental. No entanto, fez algumas interrupções no seu percurso hospitalar: doutorou-se em Saúde Mental na universidade de Londres, trabalhou na Câmara Municipal de Lisboa até 1995, quando esta era presidida por Jorge Sampaio (fez prevenção de droga e outros trabalhos), teve uma breve incursão na política e possui várias obras publicadas, entre as quais ‘Os Meus, os Teus e os Nossos’. Actualmente, reparte o seu tempo entre o Hospital Miguel Bombarda, a Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar - da qual é co-fundador e onde exerce clínica privada -, o Instituto Superior de Ciências da Saúde (onde dá aulas) e a pilotagem do seu avião, um ‘brinquedo’ que adora.
O clínico quis ser piloto mas nunca conseguiu que uma companhia aérea aceitasse um psiquiatra a bordo. Ironicamente – ou nem por isso – está divorciado de uma médica, com a qual teve uma filha, hoje com 26 anos e formada em arquitectura. Refez a sua vida junto de outra médica, da qual tem agora um filho com cinco anos. E é irmão mais novo de outra psiquiatra de renome: Maria Helena Gameiro (são o único caso português de dois irmãos a exercer esta especialdiade clínica). Talvez ainda este ano surja um novo título seu no mercado, dedicado ao tema do casamento.
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