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JOSÉ MOURINHO: NASCIDO PARA GANHAR

Nasceu às sete horas, numa noite chuvosa, na véspera de um jogo do pai. Cresceu no relvado do Setúbal, pacato mas sabedor precoce das coisas do futebol. Aos 40 anos é conhecido como um homem de tal convicção que roçaria o arrogante se não tivesse cumprido o título aos ‘dragões’
11 de Maio de 2003 às 18:40
Maria Júlia Mourinho Félix lembra-se de esperar o primeiro filho na casa da família, em Aires (Setúbal), numa noite de chuva intensa, em que se desvalorizara a pressa do parto. “Disseram-me que era para a noite do dia seguinte mas, já então, ele era voluntarioso.” Às sete da manhã de 26 de Janeiro de 1963, José Mário dos Santos Mourinho Félix nasceu em casa, quase sozinho, não fosse um braço mal posicionado requerer à pressa o trabalho da parteira.
Mas aí estava o menino, filho do jogador e treinador Mourinho Félix, e de uma professora, Maria Júlia – uma família de Setúbal que sempre viveu a cidade e chama casa ao Estádio do Bonfim.
Um miúdo – o primogénito do casal – que, meia dúzia de anos mais tarde, ainda de calções, vai cantarolar o hino da Eurovisão, mudando-lhe o nome a gosto para “a música do Eusébio”.
Virou já lenda, a história do Zé Mário (como é conhecido em privado) aprender a andar nos relvados daquele clube, bem como a instrução precoce dos relatórios sobre as equipas adversárias que o pai, já treinador, lhe encomendava a soldo. “Pagava-lhe uma percentagem do meu prémio de jogo mas nunca seria muito dinheiro porque, nessa altura, ganhava-se pouco.”
Nasceu no futebol e pouco usual seria se dele não se apaixonasse. A educação materna jogava com a ‘fixação’ e concedia-lhe a ida aos jogos se cumprisse as suas obrigações. “Ele era muito ligado ao meu marido. Lembro-me quando o pai foi para o Belenenses, o Zé Mário ficou inconsolável e a avó, adepta ferrenha do desporto, teve de lhe prometer que o levava aos jogos. E levava.”
A união entre pai e filho era atada nos regressos das viagens de Mourinho Félix, na figura de um presente que era sempre uma bola. “Uma vez, o meu marido foi jogar à Noruega e trouxe-lhe um ‘bulldozer’ telecomandado, uma coisa que só muitos anos depois apareceu à venda em Portugal. Ele viu a prenda do pai, fechou a caixa e foi-se sentar a um canto a choramingar.”
A bola para secar as lágrimas de Zé Mário, compra-lha em seguida o pai, que saiu de propósito para remediar a ‘falta’. Cuidados excessivos? “Não”, responde a mãe, que é quem lhe impõe a ordem e lhe chama Mário quando se zanga. Pouco, garante, que o rapaz era já judicioso nas obrigações.
António Carlos Mourinho Félix, o tio, viveu em casa do irmão durante cerca de seis anos. “Acompanhei o Zé Mário muito de perto entre os três e os dez anos. Ele era um menino que vivia para a bola. Sofria com as derrotas e alegrava-se com as vitórias”, diz, lembrando toda a família a verde e branco, orgulhosa num uniforme: o do Vitória.
Tinham um camarote cativo e a avó – a mesma que levava Mourinho ao estádio do Restelo – era uma “vitoriana dos quatro costados”.
A OBRIGAÇÃO DA ‘CACETADA’
Zé Mário é de feitio parecido com a progenitora, pelo menos a própria assim o diz. “É injusto o que, às vezes, se diz. Ele é capaz de dar a camisa e é muito carinhoso e preocupado. Mas não lhe tentem pisar os pés!”
Como se não bastasse a personalidade, mãe e filho partilham o gosto pelos bolos de amêndoa do Algarve e por cenoura ralada.
José Mourinho frequentou o Liceu da cidade, a meia dúzia de passos do estádio e, às sextas-feiras, largava o recinto escolar com particular empenho: ia ter com o pai; melhor ia ter com o futebol. Conhece-se-lhe, aos 17 anos, o namoro com uma colega de escola de nome Matilde, depois a mulher e a mãe dos seus dois filhos.
É dessa altura, a história de uns braços partidos à custa de uma grande teimosia. Uma partida de futebol com um braço engessado e uma queda sobre o que ainda estava são. “Uma garota veio tocar-me à porta e perguntou se o Zé Mário já tinha chegado. Eu perguntei-lhe porquê, se ele não devia vir com ela. Depois, lá me explicou que ele estava hospitalizado e que tinha partido o outro braço”, conta Maria Júlia.
Dos tempos de juventude, outro exemplo de teimosia ou abnegação, o substantivo que preferem os que lhe estão mais próximos. O jornalista Luís Lourenço é companheiro desde os tempos de liceu. Lembra-se daquele torneio de futebol no Vitória de Setúbal, em que os amigos, em equipas diferentes, se defrontaram nas meias-finais.
Mourinho era avançado. Lourenço defesa. “Num lance ofensivo, ele vinha lançado com tal velocidade que, para o parar, tinha que lhe dar uma cacetada. Na hora ‘H’, recuei, ele marcou e foi com a equipa à final.”
Finda a partida, José Mourinho discutiu com o amigo. “Chamou-me de tudo porque era minha obrigação parar o ataque.”
Nos dias que correm, Maria Júlia é a única da família que vê os jogos. O marido e a nora preferem sofrer longe da televisão e, mais ainda, do relvado. “Eu não queria que ele tivesse seguido a carreira do pai por causa da vida que se leva e que obriga a muitas deslocações e a ausências prolongadas. Mas, hoje, o meu clube é o meu filho. Se ele estiver no rasga a roupa, eu sou do rasga a roupa.”
PASSOS DE UMA CARREIRA
1988 - Estreia-se, aos 25 anos, como treinador dos juniores do Vitória de Setúbal
1990/91 - Manuel Fernandes convida-o para seu adjunto no Estrela do Amadora; desemprego a dois terços do final da época
1992/93 - Bobby Robson vai treinar o Sporting de Sousa Cintra; Manuel Fernandes é o seu adjunto e Mourinho está de novo com ele
1994/96 -O treinador inglês segue para o FC Porto, Mourinho segue-o
1996/97 - Robson é contratado para o Barcelona e leva o português
1997/ 2000 - O inglês é substituído por Van Gaal, depois de ter perdido o campeonato. Mourinho fica com o treinador holandês. Van Gaal sai. Mourinho fica desempregado
2000/01 - Chega ao Benfica e fica pouco tempo, Vilarinho, recém-eleito promete aos adeptos Toni. Fica desempregado, mas fala-se do namoro – nunca oficial – do Sporting
2001/02 - Chega à União de Leiria e ao fim de 19 jogos sai deixando o clube na 4ª posição do campeonato
23/01/02 – Apresenta-se formalmente nas Antas
O LIVRO DO TREINADOR
Ainda não tem nome mas calcula-se que venha a ser um ‘best-seller’. O livro, que retrata a vida profissional de Mourinho, desde que se tornou treinador principal até à vitória frente ao Santa Clara, deve sair por alturas da final da Taça.
Segundo Luís Lourenço, que o escreve com base em entrevistas à ‘personagem principal’, as primeiras páginas são o relato da festa dos dragões, no momento da consagração do título com os 5-0 aos açorianos. Com recurso ao ‘flashback’, depois do relato da festa do Porto, nas páginas seguintes, Mourinho e o ‘escritor’ Lourenço encontram-se ao volante do carro do treinador entre Espanha e Portugal. Tinham voltado à capital da Corunha para ir buscar o carro de Mourinho que tinha ficado para traz. A mulher e os filhos, o ‘recheio’ doméstico da casa espanhola, durante a sua estada no Barca, já estavam em terra lusa. Este livro nasceu da cumplicidade entre os dois homens: o jornalista é setubalense, amigo de infância, padrinho de casamento e parceiro de tantas horas. A obra conta pois a jornada pós-Espanha. De como Mourinho entrou para o Benfica; como acabou por sair num processo de força com Vilarinho; o namoro do Sporting; como foi no União de Leiria, a ascensão ao quarto lugar e a chegada ao FC Porto, com a frase extraordinária, porque cumprida: “Tenho a certeza absoluta de que vamos ser campeões este ano”.
O QUE DIZEM DELE
BOBBY ROBSON
(Treinador do Manchester United; ex-treinador do FC Porto e do Barcelona, clube em que contou com Mourinho, primeiro como intérprete, depois como adjunto).
“Foi meu intérprete, meu amigo e um excelente aluno. Espero que tenha sido um bom professor. Fiquei encantado com a vitória do Porto. Foi um excelente trabalho. Mas foi o trabalho de um só ano, é preciso esperar. Ele tem de ter paciência e continuar a fazer outras coisas, antes de pensar noutros voos. Quando eu cheguei ao Porto, era treinador há já 22 anos.”
MANICHE
(jogador do FC Porto)
“É uma pessoa exigente com uma personalidade forte mas é amigo e incute moral até naqueles que não jogam. O facto dele ser jovem contribui para o relacionamento com os jogadores e é capaz de ajudar nas questões pessoais. Usa métodos modernos e é um estudioso. Quando estava no Benfica com ele, fiz num treino uma entrada dura e ele pôs-me atrás da baliza. Conversámos e ficámos amigos desde aí.”
JOÃO BARTOLOMEU
(presidente da União de Leiria, clube onde o FC Porto o foi buscar)
“O Mourinho é um dos maiores a nível mundial e tem uma visão como eu nunca vi. É um homem frontal; e não se confunda com arrogante, que é coisa que nunca vi ele ser. É uma pessoa que sabe brincar mas também sabe impor respeito. Enquanto treinador, trabalha com todos os jogadores, independentemente de serem utilizados ou não. Ele marcou o desporto e toda a minha carreira aqui no União de Leiria. Tivemo-lo o tempo que nos foi possível; por nossa vontade não teria saído. Não se pode comparar o seu estilo a ninguém: o estilo de Mourinho é dele próprio.”
JUAN POQUÍ
(jornalista do El Mundo Deportivo, para os assuntos do Futebol Clube Barcelona)
“Foi muito bom aluno de Bobby Robson, primeiro no Porto e depois aqui no Barcelona, clube onde também aprendeu com Louis Van Gaal. Acho que o inglês foi um segundo pai para Mourinho. Já com o técnico holandês, o relacionamento era estritamente profissional. Aliás, há um episódio curioso com este último: quando chegou ao Barcelona, Van Gaal trazia os seus próprios colaboradores mas acabou por perceber que Mourinho fazia melhor os relatórios das equipas rivais do que aqueles que tinha escolhido. É inteligente e percebe perfeitamente quem pode ser seu amigo ou seu inimigo. Sabe ler muito bem uma partida de futebol.”
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