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Jovens e o álcool

A psicóloga social Fernanda Feijão, trabalha há 15 anos no Instituto da Droga e da Toxicodependência, onde ocupa o papel de Coordenadora Nacional dos Estudos em Meio Escolar. O seu último estudo, sobre o consumo de álcool em jovens portugueses entre os 13 e os 18 anos – com dados recolhidos em 2003 – foi divulgado esta semana no âmbito do XIX Encontro das Taipas, em Lisboa.
28 de Maio de 2006 às 00:00
Fernanda Feijão, psicóloga social
Fernanda Feijão, psicóloga social FOTO: Pedro Catarino
Os resultados são alarmantes: rapazes e raparigas bebem praticamente da mesma maneira e quase metade dos adolescentes portugueses com apenas 13 anos está habituado a consumir bebidas alcoólicas. Mas, segundo a especialista, há uma boa notícia: comparados com o resto da Europa, os adolescentes portugueses são os que menos bebidas alcoólicas consomem.
Mãe de dois filhos adultos e avó de três netos, Fernanda Feijão começou o seu percurso de vida a cursar matemática e a dar aulas. Só mais tarde apostou na Psicologia, uma paixão de menina. E, comovida, conta um episódio peculiar: “No dia em que o meu marido morreu – num desastre de automóvel, o meu filho, na altura com 12 anos, veio ter comigo e disse-me: “Mãe, estás tão triste. Vai acabar o teu curso de Psicologia.” A trabalhar e com duas crianças em casa, Fernanda Feijão terminou a licenciatura no regime nocturno e, hoje, dedica-se ao que realmente gosta.
- Qual foi a amostragem para realizar este estudo sobre o consumo de álcool dos adolescentes portugueses entre os 13 e os 18 anos?
- Somos muito rigorosos na nossa metodologia, a amostragem foi de 18 222 alunos e estas amostras são extremamente representativas da classe estudantil. Foi também a primeira vez que fizemos um estudo com resultados diferenciados para cada faixa etária. Em Portugal, ao contrário da maior parte dos outros países, onde há muito pouca reprovação, jovens com a mesma idade, estão espalhados por anos escolares distintos.
- Este estudo inclui a Madeira e os Açores?
- Não, limitamo-nos a Portugal continental.
- Acredita que os jovens são completamente sinceros quando falam das bebidas que consomem?
- Penso que sim, porque os questionários que distribuímos nas escolas são completamente anónimos, só se pergunta o ano de nascimento e o ano escolar que frequentam. Eles recebem um envelope, depois de preencherem selam o envelope e entregam todos em conjunto a um professor.
- A que conclusões chegou?
- Penso que um dos aspectos interessantes neste estudo é a aproximação das prevalências de consumo entre rapazes e raparigas.
- Ou seja, os rapazes e as raparigas bebem da mesma maneira?
- Sim, chegámos à conclusão de que, de uma maneira geral, eles bebem da mesma maneira.
- Também foi divulgado que quase metade dos adolescentes portugueses com 13 anos já consumiu ou consome bebidas alcoólicas...
- Os jovens de 13, 14 anos consomem mais bebidas destiladas do que cervejas e parece-me preocupante a importância que este género de bebidas têm junto das camadas mais jovens.
- O que é que faz com que crianças de 13 anos bebam?
- São as idas às discotecas, aos bares, é a iniciação à vida nocturna. E estes jovens consomem bebidas destiladas, ou seja, é fora de casa.
- Portanto, o consumo em crianças de 13 anos está directamente relacionado com a vida nocturna?
- Não posso distinguir exactamente quais foram os locais exactos onde consumiram, mas se virmos o que é a juventude hoje em dia, deduzimos que este consumo está relacionado com os locais de diversão nocturna. E quando os adolescentes mais jovens se juntam aos mais velhos, têm tendência para mostrar que são mais crescidos.
- Considera estes dados alarmantes, comparando com outros países?
- Se compararmos com outros países, não. No entanto, os dados para Portugal são alarmantes porque a prevalência do consumo entre raparigas está a aproximar-se do consumo entre rapazes; porque as bebidas de eleição já são as destiladas e não a cerveja, e porque o número de bebedeiras dos jovens entre os 13 e os 18 anos é significativo. A boa notícia é que apesar disto tudo somos dos mais bem comportados na Europa.
- Mas acredita que se deve comparar os adolescentes portugueses com os europeus?
- Não é desculpa, no entanto, estamos num mundo global, temos que fazer comparações. E existe outro aspecto fundamental: a pressão social para o consumo de bebidas é tão forte como a pressão para o consumo de roupa, de DVD, de CD, da última versão da PlayStation ou de outra coisa qualquer. Não se pode pedir a um jovem que tenha limites a beber quando não se ensina a ter limites nos outros aspectos da vida; quando se dá tudo o que os jovens querem. Quando os jovens não sabem lidar com a frustração porque têm tudo e mais alguma coisa, não se pode exigir que pare de beber, que resista à pressão do grupo ou a ter comportamentos de maior autonomia e responsabilidade.
- O facto dos jovens terem tudo é um mal social?
- Não sei se é um mal de raiz mas, muitas vezes, os pais não têm tempo para estar com os filhos e compensam dando coisas. De qualquer forma, é um estilo de vida, Portugal está na Europa e não nos podemos isolar. Em termos europeus, o consumo de álcool dos jovens portugueses aparece quase no final da lista, em primeiro lugar vem a Dinamarca, a Lituânia, a Estónia...
- Como é que se pode combater este consumo excessivo?
- Por mais que me custe dizer, penso que em primeiro lugar os pais têm que se responsabilizar uma vez que deixam os filhos com 13 anos sair e sabem que quando saem, vão beber. Se os miúdos saíssem com alguma maturidade para lidar com o álcool era diferente, eu ainda sou do tempo em que se aprendia a beber em casa, aos poucos, nós íamos aprendendo que o álcool era uma coisa com a qual era preciso saber lidar. Hoje em dia, os miúdos não bebem em casa e depois vão para as discotecas e bebem um shot e muitas vezes ficam a cair para o lado. Penso que os pais têm responsabilidade, deviam pelo menos proteger os filhos e prepará-los, no mínimo, para lidar com o álcool.
- Mas a culpa é só dos pais?
- Não é só dos pais, mas os pais têm muita culpa porque deixam os filhos sair e sabem onde é que eles vão. Claro que depois existe outro problema, os adolescentes com menos de 16 anos, apesar de ser contra a lei, compram bebidas facilmente.
- Um dos problemas mais frequentes é que os adolescentes bebem sem parar...
- Pois bebem porque não têm maturidade para saber parar e as consequências são enormes: têm relações com pessoas que desconhecem; sujeitam-se a apanhar sida, hepatites, gravidezes indesejadas... e depois o excesso de álcool numa criança é diferente do que num adulto, porque eles estão em idade de crescimento. Uma bebedeira pode estragar a vida a um miúdo.
- Acredita que as escolas deviam ter um papel mais activo nesta questão?
- As campanhas de prevenção com base na informação geralmente não são muito eficazes. As coisas puramente cognitivas, racionais, não funcionam em termos de fazer mudar comportamentos. Ou bem que é uma informação que vem muito cedo ou então, mais tarde, é muito difícil.
- No entanto, se tivermos em conta que os jovens passam várias horas nos estabelecimentos de ensino, uma maior sensibilização talvez ajudasse...?
- Acho que era muito importante tanto em casa como na escola existirem procedimentos de maneira a reforçar a autonomia e a responsabilidade dos jovens, ou seja, os jovens têm que perceber que têm que ser responsáveis por aquilo que fazem. Muitas vezes também a educação actual não responsabiliza os jovens, é tudo, “deixa lá, são jovens, não pensam e está tudo bem” e não pode ser.
- Voltando ao estudo. Além destes flagrantes com crianças de 13 anos, quem são os jovens que mais apreciam beber?
- Temos uma faixa de jovens com mais de 16 anos que revelam os consumos mais elevados mas temos que ver uma coisa, com esta idade, 16, 17, 18, são jovens que estão no uinificado ou seja no 10º, 11º e 12º ano e possivelmente são de um estrato social mais elevado e têm mais dinehiro.
- Está a falar de miúdos com semanadas, mesadas ou trabalhos em ‘part-time’?
- Penso que temos que ter em conta que muitas vezes as classes mais desfavorecidas vão apenas até ao 9.º ano, a escolaridade obrigatória. A seguir, encontramos jovens com um poder de compra distinto e claro, que têm as suas semanadas e mesadas. Sair à noite é caro e quem tem pouco dinheiro não o pode fazer.
- Resumindo: quais são as bebidas mais procuradas pelos miúdos portugueses?
- Curiosamente os nossos adolescentes não são apreciadores de vinho tinto. Bebem as chamadas bebidas destiladas e a partir dos 16 anos há um consumo significativo de cerveja.
- Este trabalho remonta a 2003 mas foi apresentado agora...
- (risos) Em 2004 saíu muita gente do Instituto de Droga e Toxicodependência, e o ano passado regressei ao Ministério da Justiça – por um ano – o organismo ao qual pertenço, por isso só agora tive tempo de pegar nisto e espero publicar este relatório antes de abraçar outros projectos.
- E em relação à droga, como é que se avalia o consumo desta em Portugal?
Em 2001 vivemos um grande ano com a Dr. Elsa Pais, que determinou ser aprovada a estratégia de fazermos estudos de 4 em 4 anos para avaliar o consumo da droga na população. Entre esses estudos incluíam-se os estudos em meio escolar – que já eram feitos desde meados dos anos 80 – também estudos nas prisões e outro estudo específico para calcular consumidores problemáticos mas este último está a cargo da Universidade do Porto.
- Os trabalhos nas prisões devem ser mais complexos, uma vez que é preciso admitir publicamente que nesses locais se troca e vende droga.
- É complicado porque há países na Europa e no Mundo que se recusam a admitir a existência de droga nos estabelecimentos prisionais mas a realidade é que todos, sem excepção, têm droga.
- Existe muita droga dentro dos estabelecimentos prisionais portugueses?
- Nós tínhamos feito um estudo nos anos 90 só nos estabelecimentos centrais, e agora fizemos um que realça o que já se tinha concluído: mais de 50 por cento dos detidos consomem droga. É sabido que grande parte deles chega à prisão precisamente por crimes relacionados com a droga, por tráfico; tráfico e consumo e alguns só por consumo, embora desde 2003 o consumo de droga não seja crime por causa da lei de descriminalização do consumo, ou seja, deixou de ser crime consumir droga até uma certa quantidade, isto é, as pessoas não são presas por isso, mas continua a ser proibido. É como uma multa do código da estrada.
- Concorda com essa Lei?
- Concordo absolutamente e o consumo de droga não aumentou por isso. Quando digo que aprovo esta lei, é porque acredito que as pessoas não devem ser presas, são punidas de outra forma. O que conseguimos ao enviar as pessoas para a prisão foi que, uma vez lá dentro, consumissem ainda mais e em condições de higiene deficientes e que podem ser mortais, uma vez que os presos partilham seringas uns com os outros, por exemplo.
- É curioso que a descriminalização do consumo de droga não aumente o seu consumo...
- Nós vamos ver este ano. Sabemos que entre o final dos anos 90 e 2001 houve, realmente, um aumento do consumo de estupefacientes, sobretudo entre os miúdos. A droga preferida é, sem dúvida, a canábis. Mas entre 2001 e 2003 não houve grandes saltos. Agora vamos ver...
QUESTIONÁRIO DOMINGO
Um País... Portugal
Uma pessoa... Todas as pessoas bem dispostas
Um livro... ‘O Germinal’ de Emile Zola
Uma música... Keith Jarred
Um lema... Ver a parte positiva das coisas
Um clube... Benfica (desde sempre) e Sporting (por solidariedade com o meu filho)
Um prato... Cozido à Portuguesa
Um filme... ‘África Minha’
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