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Correio da Manhã

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Jovens e o preservativo

Caminha para os 52 anos, nasceu, cresceu e reside em Cascais. Trata-se de Duarte Vilar, sociólogo doutorado e professor universitário. É também o director executivo da Associação para o Planeamento da Família, APF.
13 de Agosto de 2006 às 00:00
Duarte Vilar
Duarte Vilar FOTO: Sérgio Lemos
Entrou para esta Associação ainda estudante universitário e ali fez todo o seu percurso profissional, conciliando sempre a vertente académica e também a familiar. Duarte Vilar é casado, pai de duas filhas adolescentes e padrasto de outras duas jovens raparigas.
- Há quanto tempo existem em Portugal consultas de planeamento familiar?
- A Associação para o Planeamento da Família – APF – não tem clínicas com consultas, temos é centros de atendimento a jovens e alguns espaços onde nos dedicamos a esse tema. Por exemplo, no Porto trabalhamos em parceria com os Serviços de Saúde e em Lisboa e arredores (Sintra, Cascais, Odivelas) trabalhamos com as câmaras ou seja, nós não temos é muitos serviços próprios, nós trabalhamos em parceria e o nosso objectivo é que estas iniciativas se transformem em Serviço Público.
- Mas quando é que nasceu o Planeamento Familiar?
- Temos que começar pela história da APF! A Associação nasceu em 1967, fazemos 40 anos para o ano. Há 30 anos, o dr. Albino Aroso, que era presidente da APF e secretário de Estado da Saúde, fez um despacho no qual introduzia as consultas de planeamento familiar nos Centros de Saúde, na valência de Saúde Materna. Depois, a partir daí as consultas começaram a desenvolver-se e em 1983/84, quando foi criado o Serviço Nacional de Saúde, estes temas foram integrados ou seja, os médicos de família têm a obrigação de tratar também destes aspectos da vida dos pacientes. Mas muitos Centros de Saúde têm consultas autónomas de planeamento familiar.
- E os centros de atendimento aos jovens?
- Há 20 anos surgiu no Porto o primeiro Cais, ou seja, Centro de Atendimento de Jovens, ligado ao Centro de Saúde da Batalha e numa parceria com os Serviços de Saúde e connosco. Talvez tenha existido um ou outro antes, mas este é o mais significativo.
- Nos anos 80, um jovem ia sozinho a um espaço de atendimento tirar dúvidas sobre a sexualidade?
- Sim, ia. Passavam cerca de seis mil jovens por ano ali e também se deslocavam à APF, que tinha uma tarde específica de atendimento.
- Esses jovens têm que idade e que respostas buscam?
- Na maior parte dos casos procuram estes centros antes de iniciarem a sua vida sexual. A média de idades é entre os 18 e os 25 anos, são universitários mas temos jovens bem mais novos, com 13, 14 anos.
- O que é que os Centros de Atendimento fazem exactamente?
- Os centros aconselham os jovens, mas a parte médica é encaminhada para os Centros Médicos. A Associação para o Planeamento da Família tem uma vertente de acompanhamento e apoio aos jovens muito forte. É preciso ouvir, tentar perceber quais são os problemas e necessidades desta camada social.
- São mais rapazes ou raparigas?
- Em termos comparativos são muito mais raparigas. O atendimento é em anonimato, confidencial e gratuito.
- Os principais problemas dizem respeito à sexualidade?
- Na maior parte dos casos são jovens que vão iniciar a sua vida sexual, os que já iniciaram querem mudar de pílula ou encontrar outros métodos contraceptivos, mas também nos aparecem problemas relacionados com o percurso escolar, com o ambiente familiar, com a identidade, com o tipo de sexualidade.
- Com a orientação sexual?
- Sim, será mais orientação sexual. Estes Cais são centros de atendimento jovem e o atendimento é global.
- E a Sexualidade em Linha?
- É uma parceria com o IPJ mas é uma equipa técnica do APF, formados por nós e supervisionados por nós, que atende as pessoas.
- O ano passado saíu um estudo que dizia que 20% das respostas dadas nas linhas da sexualidade são erradas.
- Não era a nossa linha. Nunca tivemos reclamações. Existem várias linhas de apoio sobre a sexualidade, mas na nossa nunca tivemos problemas. Nós somos quem faz apoio à maior parte das linhas oficiais e claro, pode existir alguém mal informado, no entanto, nós APF nunca nos confrontámos com essa questão.
- Quem é que está do outro lado da linha?
- São psicólogos com uma formação inicial dada pela APF, com uma reciclagem regular e com uma supervisão mensal. Esse estudo nunca disse exactamente quais eram as linhas que davam as respostas erradas e uma acusação desse género é grave.
- Nos Centros de Atendimento acontece chegarem adolescentes quando ‘o mal já está feito’ ou seja, já grávidas?
- Em princípio as raparigas que nos procuram são adolescentes que querem iniciar a sua vida sexual, ou casais jovens de namorados. Aparece também uma percentagem de pessoas que passaram por uma situação de risco e que querem saber se isso constitui um risco, jovens que tiveram relações desprotegidas ou quando o preservativo se rompeu, querem saber se podem ter alguma doença, quando e como sabem se estão grávidas... e às vezes há pedidos deste género: “Estou grávida e não sei o que hei-de fazer” e nesses casos temos que nos cingir aos termos legais que vigoram no País embora a APF tenha uma posição favorável à despenalização do aborto, isto é, além do que está na lei, achamos que muitas outras situações deveriam ser respondidas legalmente e não de forma insegura como existe agora. Mas é óbvio que tratamos estes casos no enquadramento legal que temos no nosso país.
- Deve ser complicado uma adolescente de 13 anos aparecer grávida e desesperada...
- É muitíssimo raro isso acontecer, mas é óbvio que pode acontecer. Nesses casos, a APF deve identificar a situação (ver se a gravidez é confirmada) e procurar uma rede de apoio para essa jovem, nomeadamente os pais e família próxima. Também é importante encontrar um apoio médico e emocional para uma adolescente nesta situação e, claro, temos que ver se o caso cabe ou não na lei portuguesa.
- Qual é o nível social dos jovens que recorrem à APF?
- Os nossos Centros de Atendimento acolhem sobretudo jovens alfabetizados, que estão a terminar o liceu ou nas universidades.
- Ou seja, à partida são pessoas bem informadas...
- Sim, à partida sim. Nós temos outros programas, por exemplo a APF trabalha no sentido da prevenção da gravidez na adolescência e desde há 5 anos que também trabalhamos directamente com mães adolescentes. Desenvolvemos muito projectos de intervenção comunitária. Quando lidamos com populações em maior pobreza, um dos problemas são as mães adolescentes.
- As mães adolescentes e a gravidez na adolescência constituem um flagelo social.
- Neste momento temos projectos com mães adolescentes no Funchal, em Casal de Cambra, em Matosinhos e em dois bairros na cidade de Lisboa. Trabalhamos em dois sentidos: o primeiro é o de evitar que esta gravidez aconteça, até porque, muitas vezes, a adolescente tende a abortar de qualquer maneira e são conhecidos o número de casos que chegam aos hospitais por complicações pós-aborto. Em segundo lugar, quando elas já são mães há que lhes encontrar uma alternativa, ensiná-las a ser mãe e a não engravidarem tão cedo novamente. Porque quando uma adolescente engravida duas vezes seguidas é meio caminho andado para aprofundar ainda mais o seu nível de pobreza. No Algarve temos uma carrinha que percorre os bairros mais carenciados e distribui informação, contracepção e realiza alguns exames de saúde.
- Está a falar de exames à sida?
- Sim, o rastreio rápido e também de outras doenças. Mas a carrinha também percorre outros locais como o Campus Universitário de Faro. Estivemos agora na concentração dos ‘motards’ em Faro, estivemos nas festas São Joaninas de Angra. Penso que a APF tem uma estrutura nacional composta pelas delegações Norte, Centro, Lisboa, Alentejo, Algarve, Açores e Madeira.
- E em relação à Educação Sexual em Meio Escolar, acredita que existe, que vai existir...?
- (risos) A resposta certa é: vai existindo. É um terreno altamente vincado pelas políticas. Neste momento, estamos a aguardar novamente o resultado de um trabalho e a solução para algumas carências. Mas há 22 anos que a APF trabalha intensamente nesta área...
- O que é que ambiciona neste sentido, ou seja, gostava que todas as escolas tivessem, por exemplo, seminários, um gabinete de apoio, aulas obrigatórias sobre o tema...?
- Gostava que cada escola ou que cada agrupamento desenvolvesse um projecto de Educação Sexual à medida das suas necessidades, com um coordenador bem definido e um conjunto de acções clarificadas e com supervisão e apoio. Neste momento estamos a avançar com uma nova iniciativa relacionada com a Educação Sexual nas Escolas, é o projecto ‘Bem-me-querES na Escola’ no qual se estabelece um acordo entre a escola e a Associação para o Planeamento Familiar, nós damos o apoio técnico e a escola compromete-se a organizar um grupo e um projecto e leva-o para a frente. A nossa ideia é esta: tem que haver uma clarificação de como é que as coisas se fazem.
- Essa clarificação está feita?
- Neste momento sabemos que a Educação Sexual é vista como uma componente da Educação para a Saúde; sabemos que esta educação tem que ser feita de forma transversal aproveitando algumas disciplinas como a Educação Cívica ou a Área de Projecto e depois noutras disciplinas à medida que os professores se forem mobilizando.
- Motivar os professores no País inteiro não deve ser tarefa fácil. Há sempre uns mais resistentes que outros, em função das idades ou das mentalidades...
- (risos) Muitas vezes a idade engana, encontramos pessoas mais velhas com uma atitude muito aberta e uma mentalidade que acompanha estas questões e depois confrontamo-nos com pessoas mais jovens mas muito fechadas. O que eu acho é que neste momento há mais professores que se envolvem neste tipo de acções, antigamente era raro, agora os professores estão mais sensibilizados e há milhares deles formados pela APF. Mas às vezes as coisas são complicadas, falar de sexualidade não é a mesma coisa que ensinar geografia (risos)
- O que é a Educação Sexual em casa? As famílias são mais abertas?
- Esse foi o tema da minha tese de doutoramento. Baseado na cidade de Lisboa, mas que acaba por se verificar a nível nacional é o seguinte: existem quatro posições familiares – a posição tradicionalista, na qual as famílias não falam destes assuntos, é tabu absoluto. Outra posição que incide sobretudo nas raparigas, as mensagens são transmitidas unicamente às raparigas e a ideia é que estas não tenham relações sexuais. Não há prevenção. A terceira posição é um bocado mais liberal, na qual as famílias dão umas deixas, não falam directamente, mas as coisas vão passando, os pais dizem por exemplo aos rapazes: “Tu vê lá, usa o preservativo” e depois temos um grupo de pais e de mães que de certa forma percebem e entendem a realidade e conversam e são liberais em muita coisa.
- E existe a televisão, a internet...
- As telenovelas portuguesas transportam imensa coisa para os mais novos. Hoje em dia, uma criança de 5 ou 6 anos pode perguntar o que é um ‘gay’ porque ouviu a palavra numa novela enquanto que há uns anos, nenhuma criança sabia sequer o que era isso. Quando comecei a fazer Educação Sexual nas escolas, no início dos anos 80, era muito frequente os jovens pensarem que o homossexual era um prostituto masculino. Hoje em dia, os adolescentes discutem a homossexualidade com um à-vontade que não existia há 10 anos, é muito importante estarmos atentos às mudanças que têm ocorrido na sociedade e na vida dos adolescentes.
- As mentalidades mudaram, a sociedade evolui...
- É verdade, e hoje em dia temos a sida coisa da qual não se falava. Em 1995, há 11 anos, o preservativo era um método de acesso difícil, tinha que ir à farmácia, esperar que a clientela saísse, o farmacêutico ia à gaveta do fundo buscar.
- Era uma vergonha?
- (risos) Era um bocado! Hoje temos máquinas de preservativos nas farmácias, nos bares, nas lojas de conveniência, nas estações de gasolina, existem várias marcas e modelos, ou seja, isto revela a forma como os jovens encaram a sexualidade. Há 10 anos os jovens tinham nojo do preservativo, associavam-no à prostituição e aos esgotos porque era no lixo, no esgoto e na praia que se encontravam. Hoje em dia o primeiro método contraceptivo utilizado é o preservativo, mas os jovens têm que saber usá-lo, assim como as jovens mulheres e as mulheres adultas têm que aprender melhor a usar a pílula.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
Um País... Portugal
Uma pessoa... Nelson Mandela
Um livro... ‘A Sombra do Vento’ de Carlos Ruiz Zafón
Uma música... Todos os concertos de Bach
Um lema... “Sonho com o dia em que cada criança que nascer seja desejada, em que a sexualidade seja vivida com ternura e em que mulheres e homens tenham os mesmos direitos”
Um clube... Sporting
Um prato... Amêijoas
Um filme... ‘Casablanca’
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