Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

JUSTIÇA ONDE?

É ridículo falar de justiça quando há fetos deitados ao esgoto e um sem número de mulheres que dava tudo para engravidar
18 de Maio de 2003 às 14:20
Dois fetos humanos foram encontrados esta semana no interior da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) da freguesia da Guia, em Cascais. Dois cadáveres minúsculos, descobertos com o intervalo de menos de 24 horas, apanhados nas malhas de uma engenhoca que limpa as impurezas sólidas antes da entrada do esgoto na estação de tratamento.
Um dos fetos, tinha 10 centímetros e estava parcialmente formado, calculando-se que tivesse quatro meses de gestação. O outro, mal se percebia.
A Polícia italiana prendeu quatro ucranianos por alegado envolvimento numa rede internacional de tráfico de órgãos de recém-nascidos. As autoridades conseguiram desmontar a estrutura, que vivia à custa de um grupo de mulheres que ia engravidando e vendendo as crianças à medida que elas nasciam. Em Nápoles, foram detidos um homem e três mulheres, uma delas apanhada enquanto tentava vender o seu recém-nascido a um polícia pela módica quantia de 50 mil euros.
Pormenor ainda mais sórdido: os bebés eram vendidos para a extracção de órgãos, como se se tratassem de carros velhos aos quais são retiradas peças, vendidas a preço ‘amigo’ por um sucateiro.
A Sociedade Portuguesa de Ginecologia calcula que cerca de 500 mil indivíduos em idade de procriação sofram de infertilidade e que 10 mil novos casais tenham problemas de reprodução a cada ano.
Muitos vivem angustiados com as perguntas de familiares e amigos, germinando essa sensação terrível de fracasso, que não é fracasso nenhum mas parece, porque a dada altura não chega termos crescido é preciso reproduzirmo-nos.
Há gente a morrer de fome todos os dias em mais de metade do mundo. Aliás, qual de nós não desviou já os olhos da televisão, minutos antes de se sentar à mesa a jantar, perante as imagens (regra geral vindas de África) de crianças subnutridas, com os olhos imensos, esmagando o peso dos ossos? Aqueles olhos arregalados, cujas pupilas se afundam num amarelo esbatido e doente, muito distante do azulado característico dos bebés bem amamentados a leite materno, acabam com a fome de qualquer um. Mesmo assim, levantamo-nos do sofá e comemos. E os nossos filhos dão-se ao luxo de virar as costas a um bife porque tem nervo.
Não é por acaso que a obesidade é considerada a epidemia da sociedade moderna, vulgo da abundância. Segundo os últimos dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) o planeta tem 300 milhões de obesos, 45 por cento dos quais cidadãos da União Europeia. E entre estes 135 milhões, há muitos portugueses. Os últimos dados da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, relativos a 1999, asseguram que metade da população portuguesa sofre de excesso de peso (35 por cento apresenta um excesso relativo, enquanto os outros 15,6 por centos são mesmo obesos. Outra coisa: também há fome em Portugal. E muita miséria.
Como é que se pode falar de justiça quando há fetos deitados ao esgoto e um sem número de mulheres que morre de desgosto por não conseguir engravidar? Como é que se pode falar de justiça quando milhares de pessoas no mundo morrem de fome, enquanto outras sucumbem à fartura? A justiça é uma coisa muito relativa, não é?
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)