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‘Kama Sutra’: a enciclopédia do erotismo

Mítico livro hindu sobre sexo é, afinal, pouco excitante.
João Pedro Ferreira 5 de Maio de 2019 às 10:00
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O filósofo hindu Vatsyayana passou a vida a estudar a religião na cidade santa de Benares, nas margens do rio Ganges, na Índia, algures entre os séculos I e VI da nossa era.

Depois de ler os autores antigos, deitou mãos à tarefa de escrever um tratado com o objetivo de ajudar a espiritualizar a existência, dominando as paixões dos sentidos de modo a atingir os três objetivos da vida: a Virtude (‘Dharma’), a Prosperidade (‘Artha’) e o Amor (‘Kama’).

O resultado foi o livro mais famoso do Mundo sobre sexo: o mítico ‘Kama Sutra’ (‘Aforismos sobre o Amor’). Passou à história como a ‘bíblia do prazer’, cujo título evoca práticas exóticas, picantes como as especiarias da Índia, um catálogo de posições eróticas, quiçá pornográficas.

Nada mais errado. ‘Kama Sutra’ é um tratado, uma espécie de enciclopédia. Enumera listas intermináveis. Calcula as diversas combinatórias possíveis para emparelhar homens e mulheres de acordo com o tamanho ou profundidade do órgão sexual, a intensidade do desejo ou o tempo dedicado ao ato. Descreve dezenas de posições e classifica-as com nomes tão românticos como ‘a posição do prego’ ou ‘a posição da vaca’.

As ilustrações de edições antigas são fascinantes. Mas a obra é mais um estudo técnico e sistemático – incluindo os indispensáveis estudos de caso –, visando fornecer aos homens e às mulheres ‘ferramentas’ para se tornarem exímios praticantes dessa dimensão essencial para viver em harmonia: o sexo.

Do livro ‘Kama Sutra’, trad. da ed. francesa Garnier Flammarion

"(...) Nandi, companheiro de Xiva, escreveu mil capítulos sobre a sexualidade, criando o ‘Kama Shastra’ (…) Vatsyayana resumiu-os e, preenchendo algumas lacunas, compôs o ‘Kama Sutra’ (…) em sete partes. (…) A sétima parte trata dos meios de se fazer atraente (…) e de como aumentar a potência sexual e multiplicar os coitos.

(…) se o homem faz prolongar o ato durante muito tempo, a mulher ama-o mais; se ele acaba demasiado depressa, ela fica descontente (…) se é preciso um longo tempo para acalmar o desejo da mulher e durante esse tempo ela sente um grande prazer, é natural que ela queira vê-lo durar (…). Pela união com os homens, a lubricidade, o desejo e a paixão das mulheres são satisfeitos.

(…) A primeira vez que há um encontro sexual, a paixão do homem é intensa e o tempo que ele demora é curto; mas nos encontros seguintes do mesmo dia sucede o contrário. Com a mulher, por outro lado, da primeira vez, a sua paixão é fraca e leva muito tempo [a acabar], mas nas vezes seguintes, no mesmo dia, a paixão é intensa e o tempo que demora é cada vez mais curto, até ficar plenamente satisfeita. (…)

Quando um homem e uma mulher se amam violentamente, e, sem ligarem ao facto de se poderem magoar, se abraçam como se quisessem penetrar no corpo um do outro, quer a mulher esteja sentada nos joelhos do homem, ou à sua frente ou ambos deitados na cama, chama-se a esse abraço mistura de leite e água. (…)

O beijo dá-se nas partes seguintes: testa, olhos, bochechas, garganta, peito, seios, lábios e no interior da boca. (…) Quando uma rapariga toca o lábio do seu amante com a língua e, fechando os olhos, põe as mãos nas mãos do seu amante, chama-se a isso beijo tocante. (…)

Da pressão, marca ou arranhão com as unhas (…) Esta prática tem lugar nas seguintes ocasiões: aquando da primeira visita; no momento da partida para uma viagem; no regresso de viagem; no momento da reconciliação com um amante irritado; e quando a mulher está embriagada. (…) Os amantes que gostam [de se arranharem] associam esta prática às mordidelas.

(…) Todas as partes do corpo que podem ser beijadas podem também ser mordidas, menos o lábio superior, o interior da boca e os olhos. (…) As marcas de mordidelas nos seios ou nos ombros (…) são características de pessoas intensamente apaixonadas.

(…) Quando um homem e uma mulher se apoiam no corpo um do outro ou numa parede ou num pilar, ficando de pé durante o encontro, chama-se a isso encontro apoiado. (…) Quando uma mulher se apoia nas mãos e nos pés como um quadrúpede, e o seu amante a monta como um touro, chama-se a isso encontro da vaca. (…) Em Gramaneri, vários jovens desfrutam de uma mulher, que pode ser casada com um deles, seja um de cada vez, sejam todos ao mesmo tempo. Neste caso, um agarra-a, outro goza, um terceiro apodera-se-lhe da boca, um quarto do ventre; e desse modo gozam todos alternadamente de cada uma das suas partes. (…) As pessoas do sul também têm relações sexuais no ânus, a isso chama-se encontro inferior (...)"

Yoni e lingam
No ‘Kama Sutra’, o órgão sexual feminino é chamado ‘yoni’, ‘fonte da vida’ em sânscrito. O pénis é ‘lingam’, símbolo do deus Xiva. Na foto aparecem unidos.

Código Vatsyayana
Das 64 artes e ciências cujo estudo é aconselhado no ‘Kama Sutra’ faz parte a misteriosa ‘Mlecchita Vikalpa’, ou ‘arte de compreender a escrita em cifra’.

Erotismo no cinema
Indira Varma (‘A Guerra dos Tronos’ e ‘Roma’) e Sarita Choudhury (‘Segurança Nacional’) protagonizam ‘Kama Sutra: Uma História de Amor’, de Mira Nair.

Série de televisão
‘Kama Sutra’ é uma série realizada no ano 2000 pela atriz porno Rebecca Lord, com Tamara Landry e Susan Featherly, outra especialista em filmes para adultos.

Banda desenhada
O desenhador italiano Milo Manara inspirou-se na obra de Vatsyayana para publicar a sua versão de ‘Kama Sutra’ em banda desenhada, em 1997.

Templos do Kama Sutra
Os templos de Khajuraho, no estado indiano de Madhya Pradesh, decorados com baixos relevos eróticos, estão na lista do Património Mundial da UNESCO.

Kama Sutra Índia História de Amor A Guerra Vatsyayana Prosperidade
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