Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
3

Kevin Spacey: “Eu contei-vos os mais negros segredos”

Ator estava acusado de apalpar os órgãos genitais de um jovem. Foi ilibado.
Fernanda Cachão 28 de Julho de 2019 às 08:00
Kevin Spacey
Kevin Spacey FOTO: Direitos Reservados

Em 2014, no episódio número onze da segunda temporada da série de que   Obama   era   fã,   Claire   Underwood e o marido beijam à vez o guarda-costas de ambos. Foi um dos episódios mais vistos daquela série sobre os bastidores do poder.

Essa segunda   temporada   de   ‘House   of Cards’ ainda contava a forma como Claire acusa um militar de a ter violado e de como a seguir muitas outras   mulheres,   até   então   caladas, aparecem a incriminá-lo também. O   marido,   Frank   Underwood,   o charmoso maquiavélico que nessa segunda temporada inicia o caminho para a Casa Branca - nesse ano de 2014, na realidade ainda ocupada pelos democratas - era interpretado por Kevin Spacey.

Depois tudo mudou. Três anos volvidos, já com o milionário, produtor e apresentador de um reality show, patrocinador de concursos de misses instalado no poder nos Estados Unidos da América, o cofundador do estúdio de cinema Miramax, Harvey Weinstein, foi acusado de abuso sexual.

A avalancha - mais de 70 mulheres disseram ser suas vítimas - dá origem   ao   movimento   #MeToo   (a hastag  ‘eu   também’   que   convida outras a assumir). E começa a discutir-se a forma como se chega e se fica em Hollywood. Weinstein, preso e a responder no próximo mês de setembro por dois processos, terá entretanto fechado acordos no valor de 50 milhões de euros com supostas vítimas e credores da produtora, segundo o ‘Wall Street Journal’.

Pelo caminho, Kevin Spacey. Um dos mais brilhantes da sua geração, ator tanto em séries de TV como em filmes de Hollywood ou nos palcos de Londres, acusado de assédio sexual por três homens e uma mulher, acaba afastado da série de culto.

A 24 de dezembro de 2018, depois de ter sido formalmente acusado de abuso sexual   de   um   jovem   de   18   anos   (a maioridade nos EUA é aos 21) e conhecida   a   data   do   início   do   julgamento, a 7 de janeiro seguinte, Spacey publicou no YouTube o vídeo ‘Let me be Frank’ (’Deixem-me ser Frank’) em que com tiques da sua personagem de ‘House of Cards’, mas com um avental com renas posto e em frente a um lava-loiças, fala para uma audiência que será de muitos   milhões:   "Tentaram   separar-nos, mas o que temos é demasiado forte,   afinal   partilhámos   tudo.  

Eu contei-vos os mais negros segredos, eu mostrei-vos exatamente aquilo de que as pessoas são capazes. (...) Vocês não se precipitariam em julgamentos sem conhecerem os factos, pois não?"  

E ano e meio depois, os factos não se impuseram em tribunal. Os procuradores do Ministério Público deixaram cair o processo no qual Spacey era acusado de ter apalpado por dentro das calças os órgãos sexuais do barman, caso tornado público em conferência de imprensa pela mãe da alegada vítima que terá ficado "encantada"   pelo   ator   famoso, como a própria progenitora reconheceu.

Já a defesa de Spacey admitiu "namorico consensual" - decisivo para o desfecho foi o facto do jovem se ter recusado explicar a eliminação de mensagens de telemóvel potencialmente ilibatórias.

Spacey ainda tem às costas o caso de Anthony Rapp, o ator que terá conhecido em 1986, quando este tinha apenas 14 anos - o que contribuiu para a sua descida aos infernos -, bem como uma lista de três dezenas de pessoas que ao longo destes anos têm vindo a público para acusá-lo.

Na altura da revelação de Rapp, Kevin Spacey pediu publicamente desculpa pelo que disse não se lembrar e assumiu pela primeira vez a sua   homossexualidade   -   muitos acharam   que   o   ator   prestava   um mau serviço à causa LGBT.

No ano em que foi claro que seria ela a assumir a série sozinha, a coprotagonista de ‘House of Cards’ apareceu na NBC. Robin Wright disse que "não conhecia pessoalmente" Spacey, sabia apenas do talento que ele tinha e de como se tinham rido entre takes.

À pergunta da entrevistadora, a Claire da série sorri - "claro, quem é que não foi" alguma vez assediado?! "Isto tem que ver com um problema maior. A sedução - independentemente de quem és - tem que ver com poder. E quando dominamos alguém, essa pessoa torna-se vulnerável. O que aconteceu no ano passado permite-nos olhar para o problema de uma outra forma. Portanto, só temos de mudar de paradigma."

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)