Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
2

KIM JONG IL: O HOMEM DA BOMBA ATÓMICA

Filho do fundador da Coreia do Norte, chegou à presidência do país por sucessão dinástica, como se fosse um príncipe. Hoje, o seu nome põe George W. Bush colérico. O medo de uma guerra nuclear volta a fazer sentido.
17 de Janeiro de 2003 às 17:54
Pouco se conhece sobre o herdeiro da primeira dinastia comunista do mundo. O líder da Coreia do Norte, Kim Jong Il, é um homem misterioso e prepotente, que tem feito da Coreia uma espécie de ‘papão’ para os vizinhos.

O “Líder Querido”, como é tratado pelos conterrâneos, nasceu em 1942, naquela que é considerada a mais patriótica e revolucionária família coreana. O seu pai, Kim Il-sung, foi fundador da República Democrática e Popular da Coreia (nome oficial da Coreia do Norte), a qual dirigiu até morrer.

A Coreia do Norte nasceu oficialmente em 1948, numa altura em que o caos dominava a península. Depois da guerra, Kim Il-

-sung instituiu em torno de si um culto da personalidade com dimensões megalómanas. Ainda hoje, nada no país acontece sem que seja invocado o seu nome. O pai do actual líder da Coreia do Norte manteve-se no poder até 1994 — data da sua morte —, tornando-se num dos chefes de Estado que mais tempo ficou no poder durante o século XX. Nessa altura, sucedeu-lhe o seu filho Kim Jong Il, que mantém o mesmo culto de personalidade e a mesma obstinação.

UM MITO

A biografia oficial diz que Kim Jong Il nasceu nas florestas do sagrado Monte Paekdu, enquanto as guerrilhas coreanas lutavam contra os japoneses. Reza a história que o acontecimento foi marcado por um duplo arco-íris e uma estrela brilhante no céu. No entanto, especialistas ocidentais asseguram que ele nasceu perto de Vladivoztok, no extremo leste soviético, e que passou a Guerra da Coreia (1950- – 1953) na China.
O actual líder norte-coreano estudou na Universidade Kim Il-

-sung, em Pyongyang, e depois de apresentar uma tese sobre as teorias agrárias do pai, foi trabalhar para um organismo do Comité Central do Partido dos Trabalhadores Coreanos (PTC).

Terá sido por volta de 1974 que o progenitor o escolheu como sucessor. O seu tio, Kim Yong Ju, considerado o número dois do regime, deixou de ser visto em público, reaparecendo apenas passados 20 anos, quando o sobrinho já era Comandante Supremo das Forças Armadas e substituíra o pai na presidência da Comissão Nacional de Defesa. Em 1997, Kim Jong Il foi nomeado secretário-geral do PTC, mas o cargo de Presidente da República, ocupado pelo pai, continua por preencher. Diz-se que Kim Jong Il decidiu abolir o mesmo, atribuindo ao progenitor o título de “presidente eterno”.

UM ‘PLAYBOY’

Entre os vários feitos atribuídos a Kim Jong Il, está a composição de seis óperas em dois anos e o desenho da enorme Torre Juche, em Pyongyang. O líder norte-coreano é descrito como um aficionado da sétima arte e um ‘viciado’ em mulheres, álcool e armas. Aliás, Kim Jong Il é visto pelos seus ‘súbditos’ como uma espécie de ‘playboy’, facto que não lhe retira a popularidade. A sua recepção, em 2000, ao então Presidente sul-coreano, Kim Dae Jung, surpreendeu o mundo e aliviou um pouco a imagem de tirano no país vizinho. Mas o processo de reconciliação tem muito que andar.

Ironicamente, a fama do líder não o safa da verdade dos factos — os anos de Kim Jong Il no poder coincidem com uma enorme decadência económica e graves crises alimentares na Coreia do Norte.

A CRISE NUCLEAR

A actual crise nuclear entre a Coreia do Norte e os EUA ‘rebentou’ no final de 2002, quando o primeiro país admitiu possuir um programa secreto para enriquecer urânio destinado a armamento. Recorde-se que em 1994 os dois países assinaram um acordo que determinava a suspensão de todos os programas de desenvolvimento nuclear levados a cabo por Pyongyang.

Nesse documento, a Coreia do Norte comprometia-se a desistir do programa de armamento não convencional, em troca de petróleo e de dois reactores nucleares sem uso militar. A ‘bandeira da paz’ acabaria por ser rasgada quando os Estados Unidos suspenderam os carregamentos, em protesto contra a intenção da Coreia do Norte em reavivar os seus programas nucleares. Na semana passada, o país de Kim Jong Il anunciou a sua retirada do Tratado de Não--Proliferação Nuclear (TPN), deixando, no entanto, a porta aberta ao diálogo, caso os EUA retomem o abastecimento de petróleo.
Enquanto a América de George W. Bush prepara a guerra contra Saddam Hussein, muitas vozes se levantam para afirmar que o maior perigo vem da Coreia do Norte. Oxalá se enganassem todos.
Ver comentários