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Krzysztof Charamsa: “De certeza que a Igreja se converterá”

O padre homossexual polaco escreveu um livro. Fala do “pontificado gay” de Bento XVI e do “triste sinal” de Francisco.
Leonardo Ralha 30 de Outubro de 2016 às 15:00
Krzysztof Charamsa nasceu há 44 anos na Polónia
Krzysztof Charamsa nasceu há 44 anos na Polónia FOTO: Sérgio Lemos

Crê que foi por vontade de Deus que encontrou o namorado, último grão de areia para assumir perante o Vaticano aquilo que sempre soube: é homossexual. Suspenso de padre após revelar a orientação sexual, em outubro de 2015, Krzysztof Charamsa, um polaco de 44 anos que pertencia à Comissão Teológica Internacional da Congregação para a Doutrina da Fé, veio a Portugal apresentar o seu livro, ‘A Primeira Pedra - Eu, Padre Gay, e a Minha Revolta contra a Hipocrisia da Igreja’ (Planeta).

Teria dito que é homossexual se não tivesse encontrado o amor da sua vida?
A relação com Eduard foi a última dose de coragem necessária para o ‘coming out’. Se já sentia dever moral de denunciar a ignorância da Igreja quanto à homossexualidade, seguramente o timing seria diferente.

Manter segredo era uma grande tentação?
Não podia aceitar viver escondido, numa vida dupla. Mesmo antes de ter uma relação, já era insuportável. Significava que devia continuar a odiar-me, a não me aceitar, a defender a posição da Igreja. Mais do que isso, promovê-la, enquanto funcionário da Inquisição, da Congregação para a Doutrina da Fé. Vivia uma espécie de esquizofrenia. Descobri que a minha sexualidade não era doença, mas sim uma orientação sexual, e na Igreja devia negar tudo isso, incluindo o conceito de orientação sexual, que a Igreja ainda hoje não aceita, sem explicar o porquê. Fala de tendências sexuais porque pressupõe que toda a Humanidade é heterossexual.

Escreveu que metade dos padres é homossexual, o que será uma percentagem muito superior do que a da população em geral. A que se deve isso?
Não estudei esta realidade para poder dizer com segurança que esse é o número. É mais uma hipótese de trabalho, fruto da minha experiência com o clero, e um desafio para a Igreja, que deve estudar-se. O grande problema para muitos sacerdotes homossexuais é uma parte do problema da homofobia. São levados a odiarem-se e isso causa ódio a outras pessoas que são como eles. É o grande drama da homofobia interiorizada em pessoas que vivem esse segredo num stress terrível, esforçando-se para que ninguém perceba aquilo que são.

Defende no livro que a cenografia da liturgia católica não podia ser mais gay e que os padres caminham como rainhas de beleza.
(risos).

Se isto é verdade, como é que uma instituição que considera homofóbica não promove mudanças?
Refere-se às minhas memórias do pontificado anterior, de Bento XVI. Mas creio que este espírito efeminado, e não só nos trajes, esconde enormes problemas mal resolvidos. Temos a obsessão de não permitir que um rapaz experimente como fica de saia ou de vestido – só para experimentar a diferença, e não para transformá-lo em rapariga -, mas depois somos nós, padres, que andamos vestidos como mulheres.

Ainda hoje é mais fácil para a Igreja condenar a pedofilia do que admitir a homossexualidade.
Isso é um crime, ligado à convicção teológica de que a mais perversa forma de sexualidade é a homossexualidade. E justifica um verdadeiro crime: o abuso de quem não pode ser consciente no ato sexual. Há católicos que não querem ouvir falar de pedofilia e quase preferem estigmatizar vítimas, sem acreditarem nas crianças e jovens.

Acredita que poderia ter uma ideia mais benévola da Igreja se não tivesse dedicado tantos anos à Congregação para a Doutrina da Fé?Na Congregação dei-me conta dos problemas. Se fosse um pároco, talvez a história fosse diferente. De qualquer forma, aquilo que vivi na Congregação foi importante na minha vida e no crescimento enquanto homossexual. Permitiu-me iniciar o processo de ir em direção à luz. Não podia continuar a aceitar uma falsidade, até porque a falsidade também se referia a mim, que então não tinha nenhuma história de amor e vivia em perfeita abstinência. Outro momento em que me apercebi de que não poderia ficar escondido foi quando o papa Bento XVI introduziu a lei em que vetou a todos os homossexuais serem padres católicos. E porquê? Dizia que não eram capazes de amadurecer a sua própria identidade sexual e afetiva.

Mas para si o pontificado de Bento XVI foi o mais gay na história da Igreja.
(risos).

Estava a brincar quando escreveu essa frase?
Não, não estava. Parecia um grande espetáculo barroco, que tanto agrada a uma geração de homossexuais. Talvez aos jovens agrade menos...

Acredita que Joseph Ratzinger é homossexual?
Isso é importante?

Pergunto-lhe se é possível.
Sabe quantos falam da sexualidade do pontífice. Pessoalmente, penso que a nossa orientação sexual não é só um facto pessoal e íntimo. É um facto público e social. Torna-se dramático quando orientações sexuais são escondidas obsessivamente por serem encaradas como vergonhosas, numa lógica homofóbica. Neste sentido, as minorias defendem que a orientação sexual é um facto público e político, pois não somos só sexuais na cama – como a mentalidade católica muitas vezes reduz. Somos homossexuais a toda a hora, no local de trabalho, na sociedade, nas nossas relações...

Naquilo que se pensa e naquilo que se faz?
É uma das chaves para nos compreender. Não aceitava quando o papa Francisco falava dos homossexuais primeiro como pessoas e só depois como homossexuais, pois primeiro são filhos de Deus e depois vem a tendência homossexual. Que antropologia é esta? A pessoa humana é heterossexual, homossexual, transexual, intersexual ou bissexual, e isso não é um facto secundário. E para os heterossexuais nunca foi, pois vivem abertamente a sexualidade. Não fazem ideia do que significa terem de se esconder toda a vida.

A homossexualidade das freiras é um território ainda mais desconhecido do que a dos padres?
E creio que muito mais doloroso. Os homens defendem-se, mas elas são submissas e duplamente estigmatizadas: são mulheres e são lésbicas. Penso que as lésbicas na Igreja Católica sofrem ainda mais do que os gays, que começam a impor-se. E a Igreja Católica mantém essa ignorância. Perguntava-me há pouco sobre a orientação sexual de um pontífice… No futuro, isso não será mistério para ninguém. Não haverá necessidade de ‘coming outs’ que muitas vezes são passagens dolorosas para quem reconquista a própria vida, identidade e felicidade. Tenho a certeza de que no futuro diremos só que estamos apaixonados. E um gay apaixona-se por um homem, uma lésbica apaixona-se por uma mulher e uma pessoa heterossexual apaixona-se por alguém de outro sexo. Não podem viver na escuridão do armário.

Sentiu Deus consigo em todo o seu caminho?
Ele nunca me deixou. Este caminho foi profundamente cristão. Tudo foi uma graça de Deus e, ao assumir, senti um Deus que me abraçava e que me permitia recuperar a liberdade e a dignidade.

Então porque é que Deus não consegue iluminar os homofóbicos?
Vai conseguir. A Igreja não pode continuar neste caminho. O pior da homofobia institucional é o tempo que estamos a perder e o sofrimento a que sujeitamos as pessoas. Mas isso não é a vontade de Deus.

Pensa que acontecerá no pontificado de Francisco?
Não. Francisco iniciou uma grande obra, mas está interrompida. Houve um triste sinal no regresso à lógica da condenação da homossexualidade. Ele é o papa e tem o dever de, em vez de referir o que outros pensam, qual notário, confirmar ou corrigir, pois tem autoridade de papa. O cardeal [Robert] Sarah anda pelo Mundo a anunciar que os transexuais são demoníacos e que os homossexuais são os nazis de hoje. Como é que alguém se permite dizer algo deste género?!? Devia ser levado a tribunal. Mas tem o apoio do papa Francisco.

Tem esperança de que o Vaticano levante a suspensão que o impede de celebrar sacramentos?
(risos) Tenho a certeza de que a Igreja se converterá nas questões da sexualidade.

E para si, como será?
Depende de quando chegará a consciencialização da Igreja quanto às minorias sexuais. Não sei se vai ocorrer durante a minha vida. A suspensão é sempre um drama para um sacerdote, mas não podia continuar a trabalhar numa esquizofrenia e não podia anunciar aquilo que a Igreja Católica me obrigava, em contradição com a realidade e a inteligência. Mesmo suspenso, sou mais sacerdote do que antes. Não tenho salário, não tenho o meu local de trabalho, mas tenho a minha missão, tenho o sacramento do sacerdócio que ninguém pode tirar. Continuo a minha vocação e creio que de forma muito mais autêntica. Sou um padre ainda mais livre e mais fiel à minha vocação. Mas se um dia a Igreja se abrir, aceitarei voltar.


POLACO SEMPRE QUIS SER PADRE E SOUBE QUE ERA HOMOSSEXUAL

Nasceu em Gdinya, cidade polaca banhada pelo Báltico, perto de Gdansk. Tem 44 anos e ainda hoje agradece ao compatriota João Paulo II pelo que fez contra o regime comunista. Krzysztof Charamsa soube tão cedo que queria ser padre quanto percebeu ser homossexual, embora tenha vivido em abstinência quase toda a vida. Membro da Congregação para a Doutrina da Fé e professor universitário, chocou a Igreja ao assumir ser gay, tendo ao lado o namorado, o catalão Eduard Planas, em Roma, há um ano.

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