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Leituras de Verão e do breve Outono

“Recordo-o sentado na sua cadeira de praia, debaixo de um toldo de riscas azuis, a ler uma genealogia novecentista em busca das origens de um capitão-mor da Paraíba”

António Sousa Homem 7 de Outubro de 2012 às 15:00
O Alto Minho em fotografias antigas
O Alto Minho em fotografias antigas

Durante o Verão, os areais de Moledo assemelham--se – já o referi nestas crónicas há uns anos – a uma assembleia magna da Academia Nobel. É um momento de felicidade verificar que a competição entre páginas de papel e grãos de areia permanece inalterada desde há anos; os romances de praia deviam ser classificados como a categoria de monumento nacional no seu conjunto, independentemente da sua qualidade ou da forma como são lidos. Há, aqui, duas opiniões distintas: a minha sobrinha Maria Luísa insiste em que as dunas de Moledo, a coberto da ventania, são recantos prodigiosos que poderiam ser patrocinados por qualquer biblioteca; a Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha, sorri à ideia, porque não se imagina a distribuir cotas de livros a leitores renitentes que os manchariam de bronzeador ou lhes surripiariam as páginas.

O velho Doutor Homem, meu pai, não era um curioso da genealogia, mas apreciava, como todos os Homem, momentos de maledicência. Recordo-o sentado na sua cadeira de praia, debaixo de um toldo de riscas azuis, a ler uma genealogia novecentista em busca das origens de um capitão-mor da Paraíba que casara com uma senhora de Darque, onde vivera nas penumbras da Casa de Bragança, que ali tinha jurisdição. Duvido que a leitura tivesse grande interesse para os seus padrões literários, mas assemelhava-se um pouco às minúcias que ainda hoje se discutem sobre a relação entre Thomas More e Henrique VIII.

A questão elucidou-o afinal acerca das origens de um casarão de Santa Cristina de Malta, de onde se via o mar de Vila do Conde – como convinha a um torna-viagem do Pernambuco, onde (no Recife) fora livreiro depois de escolhidos os vencedores da batalha de Guararapes. Ao fim da tarde, munido desse manancial de informações inúteis, o velho Doutor Homem, meu pai, considerava o seu dia bem passado.

Duvido que hoje alguém escolha a ‘Genealogia das Famílias Santomenses’ para apimentar os seus dias de época balnear, a menos que seja amigo do Dr. Jorge Forjaz, que se dedicou ao assunto com bravura. Por agora, os areais despedem-se dos romances de ocasião, lidos durante o Verão. Nestes derradeiros sábados de sol há na praia um resto de vapores literários, como sustenta Maria Luísa; as capas, já gastas, revelam gostos sem pretensão e horas de leitura amena. A brisa do crepúsculo já exige um agasalho e não favorece nem a leitura de jornais nem a erudição do velho Doutor Homem, meu pai. Gosto, nestas ocasiões, de ver passar as bicicletas rente à respiração das ondas.

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