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Correio da Manhã

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Lembras-te dele?

Ela lembra-se de que ele lhe disse um dia: temos tudo para não dar certo e é por isso que vai correr bem. Depois, lembra-se ainda, sorriu-lhe naquele seu jeito desconcertante de quem não se preocupava muito com os labirintos da vida.
Tiago Rebelo 27 de Maio de 2012 às 15:00
Como esquecer?

Foi uma amiga que lhe perguntou casualmente se se recordava dele. Claro que se recordava, embora não costumasse falar dele. Sim, respondeu-lhe.

Durante muito tempo, embora não se vissem, ela tivera sempre a reconfortante sensação de que, de algum modo, ele estava presente na sua vida, como se vivesse num universo paralelo, a amasse, seguisse os seus passos, vigilante.

Foram tomar um café, entretêm--se a tagarelar durante uma hora e é quando já estão de pé para se irem embora que a amiga se lembra do assunto, fala dele. Ela solta um risinho nervoso, não entende bem o que a amiga está a tentar dizer-lhe, ou entende mas bloqueia o significado das suas palavras, decide que ela está a fazer confusão com outra pessoa. Depois percebe que não. Fica espantada.

Não ficou com ele. Era complicado demais, teve medo, preferiu a solução mais fácil. Mas agora está sozinha em casa e sente-se vazia, desorientada, não consegue ter uma ideia inteligente, senão a certeza absoluta de que nunca mais será feliz. A ideia de felicidade, sem ser com ele, parece-lhe absurda, sem sentido. Está sentada no sofá a olhar para a parede com os olhos enevoados, tem a visão turva pelas lágrimas que correm livremente pelo rosto.

Levanta-se, limpa os olhos com a palma da mão, percorre freneticamente a casa à procura de algum objecto dele, não encontra nenhum, nada que tivesse deixado para trás, que ela tivesse guardado. E porque o faria? Pensou que ele estaria sempre presente. Não tem nada dele mas tudo a lembra ele, quando se deitava ali no sofá da sala, com a cabeça no seu colo, quando cozinhava para ela, quando dormia lá em casa com ela, no seu quarto, agora intoleravelmente vazio. Pergunta-se para onde terá ele ido, embora saiba a resposta.

Sentes-te bem? Estás pálida, disse a amiga. E ela olhou sem a ver. As pernas fraquejaram-lhe, apoiou uma mão trémula na mesa, a amiga amparou-a, teve de se sentar. É tudo tão estranho, inverosímil, o que a amiga diz, o significado das suas palavras, nada daquilo faz sentido. Tem um aperto no peito, uma tristeza súbita, abre a boca para falar mas não consegue dizer nada.

A amiga perguntou-lhe se se recordava dele, respondeu-lhe que sim. Ela disse-lhe: Sabias que ele morreu?

Tiago Rebelo
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