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“Lembro-me de ver os feridos a correr de braços abertos”

A caminho do quartel, depois de duas minas terem rebentado, fomos encontrando mais e mais camaradas em sofrimento
Marta Martins Silva 28 de Abril de 2019 às 12:00

Assentei praça em Tavira, em seguida passei a Évora para depois formar batalhão em Santa Margarida. Embarcámos no ano seguinte, em maio de 1966, rumo a Moçambique. À chegada desembarcámos em Nacala, dali fomos até uma povoação chamada Gilé, onde estivemos até ao início do ano seguinte.

Ao fim de uns meses fomos para a província do Niassa, a minha companhia estava em Maniamba. Estivemos lá dezanove meses e depois regressámos novamente a Gilé, onde tínhamos estado no início. Nessa zona da Zambézia estava tudo muito sossegado porque estava sob controlo; o mesmo não se pode dizer da zona do Niassa, que era uma zona de guerra. Aí foi muito mais duro para a companhia, porque ao sairmos do quartel já íamos com a preocupação de não sabermos se voltávamos ou não, porque havia sempre minas e emboscadas pelo caminho.

Minas de morte
Um dos episódios que mais me marcaram foi numa operação de reconhecimento em que o meu pelotão ia fazer o reconhecimento a uma ponte que estava armadilhada e nessa viagem, que era uma viagem curta, cerca de 18 quilómetros, por volta dos seis quilómetros rebentou-nos uma mina. Nessa coluna íamos com uma Berliet na frente, depois seguia um Unimog, depois outro Unimog.

A mina rebentou à passagem do segundo Unimog. Houve feridos, alguns camaradas até ficaram em estado grave e alguns de nós ficámos ali, a montar segurança, enquanto outros regressaram ao quartel com os feridos.

Só que no regresso, no sítio onde antes já tínhamos passado e não houve nada, o outro Unimog rebentou uma mina e aí é que foi o problema, porque se incendiou. Nós viemos em auxílio destes, embora alguns tenham ficado a montar segurança ao local do primeiro rebentamento, que ficava a um quilómetro de distância. Quando chegámos deparámo-nos com um cenário que nem é bom recordar.

Era tudo a arder, o condutor preso ao volante sem conseguir soltar-se, com aqueles sacos de areia para proteger dos estilhaços, quando chegámos ele já estava todo queimado, já estava morto. E mais outro camarada todo queimado... um horror.

O rádio também ficou desfeito e nós entretanto resolvemos ir ao quartel pedir auxílio. Pelo caminho não parávamos de encontrar militares do nosso grupo que iam a correr para o quartel, todos queimados, lembro-me de ver um ou dois a correr com os braços abertos...

Fomo-los apanhando, apanhando, até que apanhámos o último já mesmo à entrada do quartel... Tínhamos um ferido bastante grave da primeira mina, porque no rebentamento deve ter-se soltado uma peça da viatura que o atingiu na cabeça e ele estava cheio de sangue na cabeça... E na segunda mina morreu ali, já não resistiu ao segundo choque. Um outro estava num estado de desespero tal que dava cabeçadas na parede e pontapés a si próprio, devia estar com umas dores terríveis... Foi para o hospital e esteve lá um mês ou dois e ao fim desse tempo também morreu.

Tivemos três mortos nesta ocorrência, e outros ficaram muito feridos, foram para a Alemanha recuperar e fazer cirurgias plásticas, alguns nem regressaram mais. Também perdemos um alferes num golpe de mão, numa noite de luar. No rescaldo da operação vi o corpo deitado no chão, achei ao início que era um inimigo, quando vi que era ele fiquei sem fala. Tinha sido atingido por estilhaços e morreu ali, muito próximo de mim. Marcou-
-me muito porque éramos muito amigos. Fiquei chocado, sempre a pensar naquilo.

Em Gilé, o único inimigo que tínhamos era o clima. Chegámos a Portugal no início de setembro. Nos últimos dias olhávamos para o calendário sempre a ver quando chegava finalmente a hora de ir embora, de regressar a casa.

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