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Correio da Manhã

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Ler Ramos Rosa

A ‘Antologia poética’ é uma forma de resgatarmos as várias edições de livros que publicaram a obra deste autor agora desaparecido
29 de Setembro de 2013 às 15:00
“Imaginei a  decretada narcolepsia de Dante aplicada a todos os poetas – e recordo a forma como conheci Ramos Rosa”
“Imaginei a decretada narcolepsia de Dante aplicada a todos os poetas – e recordo a forma como conheci Ramos Rosa” FOTO: Sérgio Lemos

 

 

Giuseppe Plazzi, professor do Departamento de Ciências Biomédicas da Universidade de Bolonha, acaba de publicar um estudo sobre Dante Alighieri. O assunto é simples: o autor da ‘Divina Comédia’ sofreria de narcolepsia, um estado neurológico caracterizado por sintomas de sonolência e distanciamento. Como se chegou a essa descoberta? Porque a ‘Divina Comédia’ está cheia de episódios de sonhar acordado, pequenos períodos de sono diurno, visões e alucinações, comportamentos inconscientes, episódios comoventes – e uso de linguagem fora de contexto.

Como o conheci

Li dois ou três artigos sobre a “narcolepsia de Dante” no dia seguinte à morte – na passada segunda-feira, de António Ramos Rosa (1924-2013) –, sob o efeito dessa comoção e tentando perceber até que ponto me lembrava das capas dos livros de Ramos Rosa que fui acumulando, perdendo, recuperando e esquecendo. Como a tarja verde sobre fundo amarelado do seu primeiro livro, ‘O Grito Claro’ (de 1958); ou o fundo branco sujo com impressão azulada de ‘Viagem Através de uma Nebulosa’ (originalmente publicado pela Ática em 1960). No caso de Ramos Rosa era perigoso recordar, porque a memória me atraiçoaria, de certeza, numa lista de dezenas de títulos dispersos pelas várias estantes onde fui deixando livros – ou parte do que fui.

Mas os poemas de ‘O Grito Claro’, de ‘Viagem Através de uma Nebulosa’, de ‘A Nuvem Sobre a Página’ (uma edição da antiga coleção de poesia da D. Quixote), de ‘O Ciclo do Cavalo’ (Inova), de ‘Três’ (uma capa de João Vieira para a & Etc) ou de ‘O Não e o Sim’ (uma bela capa de Rogério Petinga para a Quetzal), meus livros preferidos, confesso, nunca se perderam. Imaginei a agora decretada narcolepsia de Dante aplicada a todos os poetas – e recordo também a forma como conheci Ramos Rosa, numa sessão de leitura. Eu era jovem e tinha medo dos poetas. Tinha conhecido Ruy Cinatti e Raul de Carvalho na semana anterior, e ficara fascinado com os seus rostos, a forma como olhavam – mas (tirando talvez Al Berto) nenhuma voz me tocara tanto como a de Ramos Rosa. Talvez seja apenas uma recordação e eu sofra de narcolepsia, mas nunca esquecerei a forma como ele recitou: “Escrever-te é preparar-me para um novo dia,/ uma luta de abraços e de flores no mar.” De que sofrem, portanto, os poetas? De narcolepsia. Daquela fragilidade na voz, daquela aparente sonolência que os coloca à margem, escrevendo sobre outras coisas. De uma deslocação permanente para outro lugar e, no caso de António Ramos Rosa, para um dicionário inteiramente novo. Agora, que Ramos Rosa, aos 88 anos, partiu para esse lugar de onde Dante observava as três estações do Mundo, recorro ao Mundo e a esses distúrbios para falar de poesia e de como estamos mais sós às vezes (não é só a idade que não nos perdoa): tais como sonhar acordado, perdermo-
-nos em visões, relembrar episódios comoventes e gostar de usar a linguagem fora de contexto. É isto a poesia, para sermos humildes diante da perda de Ramos Rosa.

Título: Antologia Poética 

Editora: Dom Quixote 

 

Concerto
‘Ofício divino’

Ao fim do dia de eleições é um excelente pretexto para conhecer um fragmento da obra de João Lourenço Rebelo (1610-1656), através de cuja música polifónica Deus se manifestava. Depois de ter escutado as ‘Lamentações de Jeremias’, percebi como a música muda o Mundo, quase sempre para melhor.
É hoje.

Local: Casa da Música, Porto
Direção: Marco Mencoboni
Com o coro da Casa da Música

 

Concerto
‘Cantigas de Goa e de Lisboa’

Aproveitemos para passear pelo Museu do Oriente nesta sexta-feira –  e, depois, pela noite, ouvir uma “espécie de fado” com a voz da goesa Sónia Shirsat e assistir ao cruzamento da tradição lisboeta com a de Goa, com a música de Gonzaga Coutinho. Para viajar do Atlântico (ou do Tejo) até ao Índico.

Local: Museu do oriente, lisboa
Data: 4 de Out.;  21h00 – 15 €

 

Concerto
‘A criação – Haydn’
Oportunidade única para escutar Haydn (1732-1809). Não o vienense Haydn, mas o génio que nos transporta aos céus, cruzando – neste caso, o de ‘A criação’, central no cânone do oratório clássico – o livro primeiro da Bíblia com ‘Paradise Lost’, de Milton.

Local: Mosteiro dos Jerónimos Lisboa
Direção: Paul McCreesh com Coro e Orq. da Gulbenkian
Datas: 3 e 4 de out.; 21h00

 

Fugir de

'Secret Story'

Eles estão de volta 

Ainda está por determinar até que ponto, para conhecermos o nosso país, deveríamos – ou não, porque há sempre a hipótese de não estarmos interessados em olhar Portugal ao espelho – ver a ‘Casa dos Segredos’. A imagem não é agradável, mas tornou-se comum. Talvez seja assim que se conhece mesmo os desejos e os piores pesadelos dos portugueses. Pode ser uma lição de sociologia.

 

Francisco José Viegas as escolhas de António Ramos Rosa
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