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Liberdade para turco que quis matar Papa

Os tribunais turcos carimbaram esta semana o passaporte para a liberdade de Ali Agca, o homem que disparou sobre o Papa João Paulo II. A Igreja Católica aceitou bem a decisão.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Liberdade para turco que quis matar Papa
Liberdade para turco que quis matar Papa FOTO: Stringer / Reuters
A 13 de Maio de 1981, na Praça de São Pedro, Vaticano, João Paulo II viaja, de pé, no interior do ‘papamóvel’, na altura descapotável, acenando à multidão. De repente, ouvem-se três disparos. O Santo Padre cai, desamparado, nos braços do secretário pessoal, D. Stanislaw Dziwisz. O autor do crime é imediatamente detido. Trata-se de Mehmet Ali Agca, um jovem de 23 anos, de nacionalidade turca. O Mundo fica em suspenso. Karol Wojtyla vacila entre a vida e a morte, mas acaba por sobreviver. Vinte e cinco anos depois, e pouco mais de nove meses após a morte de João Paulo II, os tribunais turcos decidem pela libertação de Agca. A Igreja Católica aceitou bem a decisão. Afinal, a vítima já tinha perdoado ao terrorista.” Temos de acolher esta libertação como um acto positivo. O ser humano foi criado para a liberdade”, considera D. Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal e bispo auxiliar de Lisboa.
Uma opinião partilhada por D. António Marcelino, bispo de Aveiro. “Do ponto de vista cristão, foi um gesto muito bonito ver João Paulo II ir ao seu encontro. Penso que isto também contribuiu para a decisão agora tomada. Se está regenerado, penso que o tribunal agiu da melhor forma.”
Foi a 27 de Dezembro de 1983 que João Paulo II se deslocou à prisão para perdoar ao assassino. Frente a frente, atrás das grades, Wojtyla e Agca conversaram durante largos minutos, em segredo, com as palavras a saírem directas ao ouvido.
D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas, considera que o Papa não tinha outra saída. “Como qualquer cristão, tinha de perdoar.” E acrescenta: “Admito que o gesto de Sua Santidade tenha servido de atenuante, mas as coisas têm de ser feitas de acordo com a lei. Acho que quem decidiu agora pela sua libertação também teve em conta o comportamento dele na prisão.”
A opinião do clero português encaixa na posição oficial do Vaticano – “A Santa Sé, perante um problema de natureza jurídica, respeita as decisões dos tribunais implicados neste caso” – confessou D. Dziwisz.
Mehmet Ali Agca passou 19 anos em prisões italianas, sendo extraditado para a Turquia em 2000. A sua libertação não encerra, contudo, o dossier do atentado ao Papa mais mediático da História, deixando ainda algumas questões por responder. “Ali Agca, como todos dizem, é um assassino profissional. Isto significa que o atentado não foi uma iniciativa sua. Alguém o idealizou, alguém o contratou ”, escreveu João Paulo II no livro ‘Memória e Identidade’.
O mistério adensa-se com a descoberta de uma carta de João Paulo II a Ali Agca, encontrada nos arquivos pessoais do Papa polaco após a sua morte. A missiva nunca chegou a ser enviada e o seu conteúdo continua por revelar. Do que não há dúvida, é que os acontecimentos de 13 de Maio de 1981 marcaram definitivamente o Pontificado de João Paulo II, como revela o seu Testamento, escrito ao longo de 21 anos (1979-2000), onde a morte está sempre presente.
COMO TENTEI MATAR O PAPA
O depoimento do turco Al Agca sobre os acontecimentos de 13 de Maio de 1981 na Praça de São Pedro foi recolhido pelo jornal ‘La Razón’.
Aquele 13 de Maio de 1981 foi um ponto de partida na minha vida. Representa a tragédia e, ao mesmo tempo, o renascimento da minha existência. É uma data que está absolutamente ligada ao 13 de Maio de 1917, primeira aparição da Virgem em Fátima: tudo faz parte de um milagre, um mistério.
Tive as minhas dúvidas nos últimos instantes. Fazê-lo ou não? O veículo do Papa deu uma volta e ele ficou de costas para mim: eu não poderia nunca disparar sobre um homem que está de costas e disse para mim próprio “deixa-o, abandona o teu plano.”
Às oito e meia saía um comboio para Zurique. “Deixa-o, não tens nada contra o Papa”, pensei, e afastei-me. Tinha percorrido quarenta ou cinquenta metros quando os aplausos e as aclamações me fizeram voltar a cabeça. O Papa tinha regressado onde eu estava e vinha directamente para mim. Eu tinha, desde há algum tempo, uma ideia precisa: ou morríamos os dois ou nos salvávamos os dois, juntos. Queria deixar uma marca na história.
Nesse momento aconteceu algo que não se pode explicar desde o ponto de vista humano, porque eu era como um autómato. Quando disparei, três vezes seguidas, exclamei “Deus!” e algo me paralisou depois. Foi como se tivesse regressado a mim e consegui ouvir o ruído de pânico das pessoas na Praça.
Nunca me recriminei por ter fracassado no meu plano de matar o Papa. Há algo inexplicável em tudo isto, é um projecto da providência. Nunca se encontrará uma explicação para o facto.
Sinceramente, alegro-me muito por o Papa ter sobrevivido.
Mehmet Ali Agca, turco de 48 anos de idade
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