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Correio da Manhã

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Lisboa de pernas para o ar

Um actor, duas assistentes e bungee jumping no coração de Lisboa para vender telemóveis
13 de Maio de 2012 às 15:00
Katia, Manzarra e Amanda a animar as hostes no Rossio
Katia, Manzarra e Amanda a animar as hostes no Rossio FOTO: Direitos reservados

São seis da manhã e o sol ainda sobe ensonado as colinas de Lisboa, que nesse dia será terra de gritos em vez de fado. De castiço, só João Manzarra – vestido de Evel Knievel, o famoso duplo de motas dos anos 60 – e um alarido sem fim com uma trupe a tocar ‘All Together Now’ em versão renovada. O cortejo escoltado por câmaras acorda os que ainda vivem entre a rua da Prata e o Rossio e, ainda mais ensonados, vieram espreitar à janela e deram de caras com duas beldades que penduravam gente numa grua e a lançavam no ar, num improvável bungee jumping invertido. Mas não era o fim do Mundo. Era apenas o novo anúncio da Optimus, ‘Sai Disparado’, realizado por Marco Martins.

Foi preciso "um dia inteiro" para filmar todos os saltos necessários para o anúncio, revelou Marco Martins, o realizador de ‘Alice’ e ‘Como Desenhar um Círculo Perfeito’ que, desta feita, assinou também o novo filme publicitário.

A multidão, figurante acidental, renovava-se entre ‘takes’, entre as idas e vindas da vida de todos os dias. Por isso, vêem-se caras espantadas, autocarros e automóveis num Rossio apinhado de gente. Um Rossio com direito a espectáculo gratuito: Manzarra hilariante e bem acompanhado. Uma loira e outra morena, como manda a canção. E os afoitos do bungee jumping aflitos na subida, aplacados e sorridentes na descida.

O homem da câmara – ou neste caso das câmaras, em número de dez – também respirava de alívio a cada salto conseguido. "Não foi fácil ver aquela gente a subir 50 metros em dois ou três segundos!", disse Marco Martins, sobre a fisga gigante que lançava os corpos no ar, a metáfora desta campanha multimeios usada para ilustrar "a sensação extrema de navegar à velocidade dos telemóveis de quarta geração", segundo João Santos Pereira, responsável pela comunicação da Optimus.

Para Katia Muller e Amanda Casagrande, as duas ‘manzarretes’ de serviço, 1,80 de sensualidade em dose dupla, "estava frio, muito frio", no início das filmagens. "É sempre difícil andar de calções e barriga à mostra numa madrugada fria, mas as modelos já estão habituadas a isso", confessa Muller. Nada que um chazinho, prontamente servido pela produção, não resolvesse. Ao longo do dia, porém, a temperatura foi subindo e elas, donas de beleza desmedida e curvas perfeitas, também aqueceram o olhar à multidão que passava.

Amanda Casagrande tem 20 anos e está de passagem por Portugal ou ‘on stay’, como se diz na gíria da moda. Nasceu em São Paulo, Brasil, e veio para a Moda Lisboa e para o Portugal Fashion mas acabou por ficar "mais algumas semanas" segundo o seu agente, num apartamento do Porto, que divide com outras modelos, igualmente à procura de valorizar o portfólio. Agora, por acaso, até nem está cá. Foi a Praga rodar outro filme. Depois disso, ninguém sabe bem para onde irá.


Katia tem 23 anos e é brasileira do sul, nascida no estado de Santa Catarina, mas o apelido pomposo vem-lhe da ascendência alemã e austríaca.

Chegou à moda com apenas 15 anos mas desde então já passou por diversos países: Estados Unidos, México, Chile, Itália, Alemanha, França, Reino Unido, Espanha. Agora está de armas e bagagens instaladas em Portugal, onde deixou também ficar preso o coração: apaixonou-se por um português, com quem vive na cidade do Porto.

Da Invicta exporta a sua imagem para o Mundo: "Já trabalhei para inúmeras marcas: Axe, Avon, Karen Millen, Samsung e muitas revistas estrangeiras, como a ‘Marie Clare’, ‘Elle’, ‘Vogue’, ‘Cosmopolitan’, mas também para várias marcas portuguesas", garante a modelo que, de momento, se dedica exclusivamente à carreira na moda.

"O nosso dia-a-dia é muito corrido, ao contrário do que se pensa: é preciso acordar cedo, visitar clientes e estar sempre com um ar saudável. Exige muita dedicação, além de muitas viagens. Nunca sabemos exactamente onde vamos estar no dia seguinte. Só há uma certeza: adoro aquilo que faço." Por isso, descarta qualquer outro futuro que não passe pela moda: "Gostava de tirar um curso, talvez marketing ou fotografia, porque quero continuar no meio". Para já a moda vai rendendo: 700 euros foi quanto ganharam as modelos neste anúncio. Já o cachet do protagonista pode ter chegado aos 10 mil, segundo fonte do meio. A Optimus, por seu turno, nunca divulga os investimentos feitos na publicidade.

As caras bonitas, neste caso, justificam-se plenamente, segundo Marco Martins: "è verdade que a beleza feminina é quase um cliché da publicidade, mas aqui justificavam-se por causa da personagem que o Manzarra recriou – o Evel Knievel – em todo aquele ambiente dos concursos de saltos de motas!".

OS ANÚNCIOS EVENTO

Mas em dia de filmagem, o terreno pertenceu à Ministério dos Filmes e a Marco Martins. O trabalho do cineasta passou mais por orientar os participantes do que as câmaras – e neste caso havia modelos, figurantes contratados, jovens mobilizados através de um ‘flashmob’, turistas curiosos e os milhares que todos os dias atravessam a praça D. Pedro IV.


Mais difícil de controlar foi o que se passou nas três câmaras amarradas ao capacete e aos pés das ‘vítimas’. Algumas já vinham contratadas para o efeito, não fosse dar-se o caso de "não haver voluntários na hora H". Mas houve, e foram muitos os que decidiram dar o salto com vista privilegiada sobre Lisboa, impulsionados pela força do desprendimento de um elástico gigante. Até João Manzarra "estava animado mas um bocado ansioso" antes do bungee jumping invertido. Por isso, foi preciso animar o animador de serviço: "todos ajudaram um bocadinho a acalmá-lo"!

‘Sai Disparado’ mostra ainda que as tendências que vão dominando a comunicação na publicidade: situações inusitadas e multidões que participam através de ‘flashmobs’, ou seja, cidadãos anónimos convocados para um evento através das redes sociais e do telemóvel que acabam por tornar-se figurantes.

"Fazer um ‘flashmob’ para um anúncio significa potenciar-lhe o impacto. É muito mais do que um filme, é um acontecimento que envolve a cidade, a população e, por isso, a atenção das pessoas para o anúncio é diferente. Em termos técnicos também é muito aliciante porque permite ao realizador trabalhar com pessoas que não têm qualquer experiência em cinema e, logo, captar-lhes reacções muito mais genuínas. A ingenuidade atrai muito mais o cineasta", confessa Marco Martins. Pelo menos, os gritos que registou no vertiginoso lançamento, não poderiam ter sido mais espontâneos.

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