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Londres, Antígua e volta

‘Um Traidor dos Nossos’ o novo romance de John Le Carré é um manual de procedimentos contra a corrupção financeira, da qual ninguém escapa
Francisco José Viegas 28 de Novembro de 2010 às 00:00
A condessa
A condessa

Acabaram os heróis. Mesmo nos romances de John Le Carré, o criador de personagens como ‘George Smiley', ‘Magnus Pym', ‘Ned', ‘Blair' ou ‘Tobby'. E mesmo que esses personagens reflictam apenas uma sombra do velho heroísmo sem mácula, o dos heróis totais, vencedores, que passam pelas cinzas do tempo sem impedir que elas redemoinhem - porque todos eles são massacrados pela dúvida ou assaltados pela culpa. Nenhum deles entraria no Paraíso pela porta principal.

O novíssimo livro de John Le Carré, ‘Um Traidor dos Nossos', é demasiado actual e pertence à fase decadente do ‘new labour' britânico; os chefes dos serviços secretos preparam a sucessão dos consulados de Tony Blair e Gordon Brown para os conservadores e, não raro, estão mortificados pelas más alianças de tantos anos de governo. ‘Hector', o espião-chefe, é um desses personagens misteriosos que se divide entre as suas lealdades morais e os caminhos tortuosos dos labirintos de Whitehall. Tem as suas suspeitas e os seus ascendentes sobre um mundo que faliu há muito.

SOL E SEXO

Mas tudo começa longe de Londres, onde os espiões de hoje preparam missões cujo risco é sempre calculado, sem o brilho frio e escuro das histórias de ‘George Smiley' e dos seus protegidos: em Antígua, onde ‘Perry' e ‘Gail' passam férias, uma espécie de segunda lua-de-mel antes de interromper ou reiniciarem as suas vidas profissionais: ele, em Oxford, na universidade; ela, em Londres, num gabinete de advogados. Sobretudo ele, ‘Perry', interroga o sentido da sua vida como professor - mais do que ‘Gail', uma advogada promissora, ambiciosa e competente.

Enquanto não tomam decisões definitivas partem para Antígua, para uma temporada de praia, sol, sexo, bebida, sono e esquecimento. Mas o encontro com ‘Dima', um russo corpulento, mitómano e amante de ténis, vai mudar tudo, nas suas vidas, nas suas opções ideológicas, nos seus compromissos pessoais. ‘Dima' não é apenas um russo rico que arrasta consigo uma família cercada por guarda-costas aterradores - ele é, também, como ‘Perry' e ‘Gail' vão perceber e o próprio lhes há-de confessar, um poderoso agente internacional de lavagem de dinheiro e membro de uma máfia cruel e fria.

No cenário idílico da praia tropical, o casal inglês sente perder a inocência, depois de perder a tranquilidade - e de ‘Dima' os ter eleito como ‘correios' para os serviços secretos ingleses, a fim de obter um ‘asilo político' a troco de informações sobre lavagem de dinheiro, fundos da droga e de negócios macabros. Mas "os mercados" reagem - e não são apenas a banca anónima e internacional, mas também os nomes de membros da Câmara dos Lordes ou dos gabinetes-sombra dos partidos que ambicionam destronar e substituir o New Labour (outro foco de corrupção).

Regressados a Londres, caem nas malhas de uns serviços secretos a viver a mais dramática indefinição estratégica dos últimos anos. É aqui, precisamente aqui, que entra o leitor e eu me calo. Não sem antes lhe dizer que se trata de um grande, grande livro. A máfia russa é o menos. 

Editora: Dom Quixote (146 páginas)

FILME: ‘HARRY POTTER'

As aventuras de ‘Harry Potter' aproximam-se do epílogo, pelo menos no cinema. O sétimo-episódio-parte-um está aí e recomendo-o porque é inevitável; ter visto os anteriores e não comparecer a este, é absurdo. ‘Harry' é o último mago da inocência num mundo de banda desenhada britânica.

Título: ‘Harry Potter e os Talismãs da Morte'

Realizador: Dave Yates

EXPOSIÇÃO: ‘THE MAN WHO ASKED HARD QUESTIONS'

Integrada no Festival Temps d'Images, a exposição ‘The Man Who Asked Hard Questions' mostra um Ingmar Bergman de primeira grandeza, sempre perto do coração das coisas. Há uma filosofia bergmaniana: o cinema é o seu palco mais verdadeiro, mas a biografia de Bergman é radical e ‘perguntadora'.

Local: Espaço Post - Av. Gomes Pereira, 11, Lisboa

CONCERTO: PEDRO MOUTINHO

Sou dos que não se comove com Mariza. Mas o "novo fado" tem surpresas duradouras. Prefiro a profundidade da voz de Camané, o tom de Ana Moura ou Katia, o risco permanente de Carminho. Pedro Moutinho é uma dessas ‘presenças reais' do fado. Vale sempre a pena ouvi-lo, como uma ressonância das mais puras e fiéis.

Local: Teatro Municipal de São Luiz, Lisboa, 2 de Dezembro

FUGIR DE...

REDES SOCIAIS

A designação em si mesma, ‘redes sociais', já é equívoca - mas a tralha ideológica é empobrecedora: gente que ‘segue' outra e que ‘quer ser amiga' de quem não conhece. O Facebook e o Twitter são a face mais conhecida, mas a doença alastrou. Banaliza-se a própria banalidade, violando a privacidade, tornando público o que qualquer idiota malévolo pode congeminar nos neurónios que lhe restam.

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