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Longa vida aos tímidos

“(...) o mundo, hoje em dia, é dos nerds. Dos Zuckerbergs que inventaram o Facebook, dos Gates (...)”
20 de Maio de 2012 às 15:00
Longa vida aos tímidos
Longa vida aos tímidos FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

O Tomás é o tímido da família. E os tímidos às vezes têm infâncias tramadas. Nós não queremos nada que ele seja o miúdo que é posto de lado no recreio na escola, e por isso polimos-lhe a autoconfiança sempre que possível, a ver se ele desenvolve aquela carapaça social que é indispensável para resistir às desilusões da vida e à crueldade do mundo infantil. Foi por causa dele que todos os meus filhos foram parar ao taekwondo – a mente dos progenitores é particularmente fértil e com queda para a tragédia, pelo que eu e a Teresa já imaginávamos o Tomás a chegar a casa todos os dias com o nariz ensanguentado e uma capoeira de galos na testa, vítima favorita dos bullies da primária.

Só que também há o outro lado da moeda: de um modo geral, são os calados que chegam mais longe. Ou seja, por um lado a timidez do Tomás pode vir a estragar-lhe a adolescência. Por outro, pode vir a salvar-lhe a idade adulta. Quando eu olho para trás, para o que foi a minha escola e os meus colegas, os tipos que acabaram por ser alguém na vida e dar nas vistas não foram os gajos populares, aqueles que ficavam com todas as miúdas giras – foram os que ficavam em casa a ler, a estudar, a ouvir música, a ver filmes, a brincar com o computador porque as miúdas giras não lhes ligavam nenhuma. (OK, chega de autobiografia.)

A verdade é esta: o mundo, hoje em dia, é dos nerds. Dos Zuckerbergs que inventaram o Facebook, dos Gates caixas-de-óculos que revolucionaram os computadores, mas também dos guedelhudos Peter ‘Lord of the Rings’ Jackson, do fanático dos videoclubes Quentin Tarantino ou de centenas de tipos viciados em livros de BD que actualmente dão cartas em Hollywood. Basta olhar à volta. A nerdificação do mundo atingiu o seu apogeu, desde logo na informática, claro – terreno privilegiado de todo o geek e a melhor forma de transformar um miúdo de vinte e tal anos num multimilionário –, mas também na música, no cinema (há algum blockbuster da actualidade que não venha da BD ou dos jogos de computador?), e até, aqui e ali, na literatura.

Portanto, eu olho para o Tomás com um misto de receio e de esperança. É certo que seria triste vê-lo escorraçado por todas as miúdas giras das Avenidas Novas. Mas também é verdade que essa pode vir a ser a sua auto-estrada para o sucesso. O que fazer? Nenhuma ideia. Até porque a escolha não é minha.

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