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Ludmilla: “Carrego a dor e a glória de viver do meu jeito"

Das redes sociais para o Mundo, assim se pode descrever o fenómeno Ludmilla.
Vanessa Fidalgo 25 de Agosto de 2019 às 01:30
Ludmilla
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Ludmilla nasceu no Rio de Janeiro, cresceu nos subúrbios da cidade, entre o samba e o pagode e agora é uma das maiores cantores 'funk' do Brasil. Goste-se ou não, certo é que a atitude e as letras agridoces das suas músicas não deixam ninguém indiferente. Logo à noite encerra a digressão que a trouxe a Portugal com um concerto em Ofir, no Algarve, onde é obviamente proibido ficar com os pés no chão.

O que se pode esperar do concerto desta noite?

Estava ansiosa por esta digressão em palcos portugueses, que tem estado a correr muito bem. Os portugueses podem esperar muita animação e muita energia lá de cima do palco. Como se costuma dizer: ‘Vai botar para quebrar!’

Estavas à espera de alcançar tanto sucesso por cá?

Não. De todo, porque nunca fizemos nada para divulgar a minha música para fora do Brasil. Foi algo que começou nas redes sociais: as pessoas foram ouvindo, gostando e partilhando e quando demos conta tínhamos imensas mensagens de Portugal, as músicas a tocar nas rádios. Enfim, um fenómeno, de facto. Agora, esta digressão serve precisamente para responder a essa necessidade que os portugueses manifestaram de ouvir a minha música, de me ver no palco e de poderem acompanhar mais de perto o meu trabalho.

As redes sociais têm esse condão. Aliás, mesmo no Brasil começou assim...

Com certeza. De onde eu vim não havia maneira alguma de divulgar a minha música a não ser através das redes sociais, por isso a internet foi uma ferramenta que uso desde o início. Hoje em dia, a grande maioria dos músicos se revela assim.

Passa muitas horas a produzir conteúdos para as redes sociais?

É muito natural, porque sou muito verdadeira nessa relação com o público. E eu faço tanta coisa, estou sempre em sítios diferentes, com pessoas e situações interessantes, portanto é só ir filmando e partilhando. Acabamos por não forçar nada exclusivamente para a internet.

Quer em Portugal quer no Brasil tem muitos fãs extremamente jovens. Como é ser uma referência para crianças e adolescentes?

É uma responsabilidade danada. O mais curioso é que eu nunca fiz nada voltado para um público assim tão jovem, até pelo contrário. Mas o facto é que as crianças adoram as minhas músicas, as minhas letras, o que eu considero uma dádiva, porque as crianças não mentem: ou gostam ou não gostam. Mas isso acaba por influenciar muito o meu trabalho. Agora tenho de ter algum cuidado a escolher os trabalhos que aceito fazer, as situações e as mensagens, porque já que as coisas aconteceram desta forma, quero acima de tudo ser sempre uma boa inspiração para os mais jovens.

A Ludmilla ainda era criança também quando despertou para a música.

Nunca na minha vida quis ser outa coisa que não fosse cantora. Nem professora, nem médica, nada! Como a música era algo muito presente na minha família, foi fácil começar a fazer aquilo também. O meu padrasto era pagodeiro e nós passávamos o tempo numa roda de samba. Eu cantava os pagodes todos em casa, até que um dia, quando tinha oito anos, ele disse-me que estava na hora de começar a cantar de verdade para o público. Aconteceu! E eu tremia como varas verdes!

Foi fácil depois construir uma carreira autónoma?

Difícil e não só: é preciso abdicar de muita coisa na nossa vida. Fazer muitos sacrifícios. Sair totalmente da nossa zona de conforto para as coisas acontecerem. Só que depois quando acontecem é muito gratificante e nesses momentos sentimos que nada foi em vão. É a sensação do ‘valeu a pena’.

Como é um bom espetáculo?

Eu não posso ver ninguém parado no chão no meu ‘show’. Se alguém estiver quieto é porque algo está a correr mal.

Serve de recado para os portugueses?

Serve! Porque se eu vir alguém parado, sou capaz de descer do palco e ir até lá por esse alguém a dançar.

E a mensagem? As suas canções têm um sentido crítico e nem sempre falam do melhor lado do ser humano...

As minhas letras são sempre muito realistas. Falam de coisas que aconteceram comigo ou com pessoas próximas, porque a vida é mesmo assim. Nem sempre é fácil nem justa. É preciso falar sempre dos dois lados da moeda para se ser genuíno. Agora, por exemplo, estou a preparar uma letra que pretende ser um empoderamento para as meninas, que passe essa mensagem de que ser mulher não é impeditivo para coisa nenhuma mas que é preciso lutar ainda para derrubar certos preconceitos e para se chegar onde se quer.

É mulher, negra, feminista, homossexual e tudo isso faz parte das suas canções. É fácil? Trouxe-lhe lutas acrescidas?

Não é fácil nem difícil. Eu carrego a dor e a glória de viver do meu jeito. Mas é uma opção que eu escolhi e, quando se faz escolhas, temos de saber lidar com os prós e com os contras. As escolhas que eu fiz foram as certas porque só me tornaram uma pessoa melhor.

 

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