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Correio da Manhã

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Lutar para esquecer

Valsa com Bashir’ é um filme de guerra, uma longa-metragem histórica, uma investigação. Um psico-documentário em animação. Um ex-soldado israelita realizou-o como terapia, depois de se aperceber que pouco recordava da guerra no Líbano, nos anos 80. Uma experiência que, de tão horrenda, deveria ter sido inesquecível.
Joana Amaral Dias 11 de Janeiro de 2009 às 00:00
Lutar para esquecer
Lutar para esquecer

O filme reconstrói as vivências traumáticas através das vozes (reais, de ex-soldados) e de imagens desenhadas. Ficcionadas. O final, com os cadáveres que então passaram nos telejornais, confirma a realidade do horror.

As memórias humanas são reais. Mas também são fabricadas, como o filme demonstra. E tanto são fabricadas no cérebro como nos desenhos deste filme, permitindo relatar sonhos, alucinações e distorções mnésicas com flexibilidade. Sobretudo, a suportar o horror sem alienar o espectador. Afinal, Folman percebeu que a memória pode ser mais inteligente que a inteligência, eliminando o demasiado doloroso. O cineasta não iria apresentar imagens realistas da guerra sob pena de o público, no dia seguinte, não se recordar do que vira.

Numa entrevista, o realizador afirmou que o conflito armado é como uma muito má experiência com ácidos. E o seu filme mostra que a guerra é absolutamente irracional. Não há tiro certeiro. Não se trata de caça. Aterrorizados, os soldados disparam em todas as direcções. O poder arbitrário é só outra face do medo. E, enquanto atiram e atiram, sacudidos pelas metralhadoras, nada vêem. Alheiam-se da brutalidade sangrenta que os rodeia. Alucinam ou esquecem para não endoidecerem, para sustentarem a sua normalidade. A irracionalidade protege-os da loucura. Assegura-lhes a razão.

Apenas 'não vendo' podem suportar. Lutar no cenário de guerra, como se diz, como se tudo não passasse de ficção. Como turistas artilhados, que disparam fotos e mais fotos, não vêem. Registam. O circundante é substituído pela maravilha. Dizia o slogan que era 'para mais tarde recordar'. Certo. Porque, na verdade, ao disparar pouco se vive.

Se ‘Valsa com Bashir’ custa porque confronta mas não responde e, ao contrário do convencional, encontra desconexões mais que conexões, onde dói mesmo é na pergunta sempre latente: Será que as guerras foram feitas para serem esquecidas? Questão ainda mais pertinente quando o Mundo assiste, agora e em directo, a mais uma terrível ofensiva israelita. |

 

ARQUIVO ANIMADO

Os motins antiguerra, durante a convenção democrata de 1968, são o tema de ‘Chicago 10’ (Brett Morgen, 2007). O filme mistura animação com imagens de arquivo. Um caso de tribunal reconstituído através dos desenhos e das transcrições do julgamento.

INVESTIGAÇÃO DESENHADA

Antes de ‘Valsa’, havia a BD de Joe Sacco. ‘Palestina’ (1996, com introdução de Edward Said) é já um clássico, na sua combinação de BD com jornalismo. Sacco testemunha os efeitos da guerra no quotidiano da Palestina. Prepara-se agora para publicar ‘Footnotes in Gaza’.

VIDA DA MEMÓRIA

Uma guerra entre Jim Carrey e Kate Winslet decorre em ‘O Despertar da Mente’ (Michel Gondry, 2004). O mesmo tema de ‘Valsa’: esquecer para sobreviver (emocionalmente). Mas apagar os traumas pode não ser a solução. É pindérico mas lá vai: recordar (também) é viver.

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