Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

Luto impossível

‘Michael’ esconde mais do que mostra e por isso mesmo é angustiante. Esta é a estreia de um realizador inspirado nos casos reais de Kampusch e Fritzl
Joana Amaral Dias 24 de Junho de 2012 às 15:00
Requiem vivace
Requiem vivace

‘Michael' é um solteiro de trinta e tal anos, agente de seguros com uma carreira em ascensão, que habita uma vivenda nos subúrbios, faz fins-de-semana com os amigos na neve, só fuma na rua, tem a casa bem arrumada, uma vida plana e um menino de dez anos preso na cave. É fácil classificar os pedófilos como monstros, especialmente em casos como Kampusch ou Fritzl, mas mesmo o mais terrível algoz pode ser absoluta e depressivamente banal.

Esta longa-metragem confronta o espectador com a linha ténue entre a normalidade e a patologia. Sim, ‘Michael' é a cristalização da infâmia, a ponto de num domingo levar a sua vítima a visitar um sítio cheio de cativos (um zoo), ou de cavar uma sepultura quando o miúdo tem um febrão e, claro, não pode ir ao hospital, mas não deixa de ser um humano ordinário.

Numa determinada cena, o agressor faz um puzzle com a vítima. É um daqueles com centenas de pequenas partes. No final, perante a ausência de duas peças, ‘Michael' explica: "Não faz mal, dá na mesma para perceber o que é." Quem veja a vida deste homem de fora, sem as únicas peças que faltam, perceberá o que é? Os vizinhos e colegas percebem?

Certo é que o realizador nos poupa a dois elementos, não mostrando nem o passado de ‘Michael' (economizando em psicologismos) nem os abusos sexuais e, mesmo assim, certamente, percebe-se bem do que se trata. Este filme sem pinga de tablóide sabe que precisa de contenção, porque o horror fala por si e fala bem alto, embora não prescinda de um negro sentido de humor: logo ao início joga com o contraste de um pedófilo que é segurador, trabalhando e almoçando em grandes espaços abertos, enquanto à sua vítima nenhum seguro lhe valeria e pouco espaço lhe resta.

ANGÚSTIA

Voltemos às peças desaparecidas. Na verdade, a maior fonte de angústia de todo o filme emana da ausência da vítima. Numerosas cenas desenrolam-se à volta de ‘Michael' sem que saibamos o que se passa com a criança, gerando inquietação no espectador. O que estará ele a fazer durante todo o dia, enquanto o seu carrasco trabalha? Como se entretém, fechado numa masmorra sem qualquer contacto? Pensa em como fugir? Em matar-se?

Este desconhecimento desassossega a ponto de temermos pela sua sobrevivência, o que não deixa de ser estupidamente irónico. Afinal, se alguma coisa suceder a ‘Michael', o rapaz correrá risco de vida, posto que mais ninguém sabe que se encontra encarcerado. A tensão da ausência é brutal. Aliás, é mesmo nela que vive quem tem um filho desaparecido.


Há uma altura em que ‘Michael' tropeça numa reportagem televisiva sobre esse luto impossível e não aguenta assistir. Já o espectador é levado a viver essa angústia, a ficar no lugar desses pais. Mesmo já no final, é privado de conhecer o desfecho. Exactamente como sucede com a família de uma criança roubada.

Realizador: Markus Schleinzer

Intérpretes: Michael Fuith e David Rauchenberger

Em exibição nos cinemas

TEATRO: ‘TEATRO RÁPIDO'

É teatro bem curtinho e barato. A coisa já existia noutras cidades, agora está ali perto do Chiado. Entre o fim da tarde e a hora de jantar, pode assistir a três ou quatro peças, gastar menos do que num maço de tabaco e ainda beber um copo enquanto assiste a um concerto no bar.

Local: Rua Serpa Pinto, n.º 14, Lisboa

Sessões: Quinta a segunda-feira; das 16.30 às 21.30, ininterruptamente

Preço de uma peça: 3 euros;

quatro peças: 12 euros

+ info.: www.facebook.com/teatrorapido/info

LIVRO: ‘PORNOGRAFIA'

"O homem está suspenso entre Deus e a juventude. Ele quer ser perfeito, imortal, omnipotente. Quer ser Deus. E quer estar fresco e róseo, para sempre instalado na fase ascendente da vida - ser jovem." Esta definição de humano é esclarecedora. Sobre o leitor e sobre o autor.

Resumo: Um escritor e um encenador convencem-se de que dois jovens com dezasseis anos de idade foram feitos um para o outro e não desistem enquanto não vêem consumada a união.

Autor: Witold Gombrowicz

Editora: D. Quixote


LIVRO: ‘FAHRENHEIT 451'

Morreu Bradbury. Se ainda não gosta de ficção científica, aproveite agora para ler Fahrenheit 451. Ou, pelo menos, veja o filme que Truffaut adaptou ao cinema nos anos 60. Pode ser que acabe com a "imaginação esfomeada" que o autor atribui à sua própria infância.

Resumo: ‘Guy Montag', um dos bombeiros incumbidos de atear fogo a livros, nunca questiona o seu trabalho até conhecer uma rapariga de dezassete anos e um professor que lhe fala do futuro.

Autor: Ray Bradbury

Editora: Europa-américa

FUGIR DE...

‘O DITADOR'

É pena que Sacha Baron Cohen esteja domesticado. A provocação radical a que nos habituou, e bem, em Borat ou Bruno, sumiu em O Ditador, que surge como humor amestrado. Talvez seja este formato, o de passagem para o exclusivo plano da ficção, desistindo dos apanhados, que esvazie o risco que incendiava as anteriores películas. Certo é que Bruno parece agora mais um ponto limite, um ponto final, do que um ponto sem retorno como seria desejável.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)