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Mandante de crime que matou 13 pessoas está a sair da cadeia

José Queirós, o mandante do massacre na boite de Amarante que matou 13 pessoas, pode sair agora da cadeia.
29 de Setembro de 2013 às 15:00
José Queirós durante o julgamento no Tribunal de Amarante
José Queirós durante o julgamento no Tribunal de Amarante FOTO: FRANCISCO NEVES/LUSA

A música sai da pequena cave à face da Estrada Nacional 15, em Amarante. Os carros abrandam com cautela e no meio da escuridão veem-se os vultos dos homens que ali entram à procura de companhia feminina. Quase todos se escondem, ninguém quer ser reconhecido à entrada de uma casa de alterne, manchada pelo sangue da morte. Há famílias em casa, mulheres que muitas vezes aguardam noites a fio, sem pregar olho, à espera que os maridos regressem. Com o perfume de outras incrustado nas roupas.

Dentro das quatro paredes da casa que hoje se chama Bronze, o tempo parece ter parado. Quem ali entra quase poderia jurar ter recuado 16 anos, quase acreditava que voltara a entrar no antigo Meia Culpa. Onde, a 16 de abril de 1997, treze pessoas - entre alternadeiras e clientes - morreram, numa guerra pelo controlo do negócio da noite.

José Queirós, dono do Diamante Negro, tinha contratado três jovens - César Fonseca, Filipe Oliveira e Ricardo Rocha - para atearem fogo ao bar rival. A intenção não seria matar, mas na fuga desesperada treze pessoas ficaram carbonizadas. As portas de emergência estavam trancadas, as temperaturas altas que se propagaram em segundos asfixiaram quem não conseguiu fugir. Desmaiaram muito antes de serem atingidos pelo fogo. Ficaram ali.

A história do pior massacre português parecia estar adormecida na cidade. A possível libertação dos quatro homicidas, condenados à pena máxima, trouxe à memória os momentos de terror. O horror de quem viu os corpos carbonizados, de quem presenciou a tragédia bem de perto, foi agora reavivado. A dor dos que perderam quem mais amavam no fogo renasce.

José Queirós, o mandante do crime, hoje com 65 anos, é uma sombra do passado. Parece ter mais 20 anos, carrega no corpo a culpa da morte, e quando passa os muros da prisão esconde-se na cidade. Já cumpriu 2/3 da pena, a liberdade está cada vez mais perto. Mas José Queirós não esconde o receio aos que ainda o apoiam. O medo de voltar a ser livre.

A Direção de Reinserção Social veio agora dizer que aquele tem todas as condições para sair da cadeia. Só a falta de pagamento das indemnizações às famílias das vítimas poderá travar a libertação. Trata-se de um milhão e meio de euros que a Justiça determinou que Queirós - juntamente com os três cúmplices dos homicídios - devia pagar.

Queirós nada possui em seu nome. O império do homem que chegou a ser o rei da noite desfez-se. À tragédia do Meia Culpa seguiu-se um casamento falhado na cadeia de Paços de Ferreira. Paula Novais, uma ex-alternadeira por quem se apaixonou, levou-lhe tudo. Passou os bens para o nome dela, o divórcio com o homem que tinha sido sentenciado a mais de duas décadas atrás das grades veio rápido. Seguiu-se a venda da luxuosa moradia - que chegou a ser avaliada em meio milhão - e o desbaratar da fortuna.

Passaram 16 anos, mas a luta nos tribunais parece que nunca terá fim. As famílias das vítimas receberam apenas algum dinheiro do Fundo de Apoio às Vítimas de Crime. Foram ordenadas execuções de penhora, era já tarde demais. Neste momento ainda correm na Justiça impugnações paulianas, com vista a que a venda da moradia seja anulada. É muito difícil que tal aconteça, a compra foi feita na boa-fé de quem pagou.

"A culpa de as famílias não terem recebido o que lhes era devido não é do arguido José, mas sim do Estado. Na altura do julgamento, eu e mais um colega pedimos que fossem exigidas cauções económicas aos arguidos, com vista a evitar precisamente que se desfizessem dos bens. O juiz e também o Tribunal da Relação negaram o pedido, alegaram que não existiam indícios de que pudessem dissipar o património. Pois foi exatamente o que veio a acontecer. Foi tudo vendido, os bens desapareceram", conta o advogado Adriano Santos, que representava a sociedade do Meia Culpa.

CULPA NA CADEIA

José Queirós assumiu, já na cadeia, a sua culpa. Pediu desculpa às famílias das vítimas, mas garantiu sempre que a situação lhe saiu de controlo. A intenção era pregar um susto às mulheres e aos clientes, dar cabo do negócio da casa rival. Nunca pensara que podia matar gente, nunca equacionara que a situação se pudesse descontrolar.

Volvidos 16 anos, Queirós evita falar no assunto. Já teve saídas precárias, mas permanece quase sempre fechado em casa dos pais, em Amarante, apenas sai para tomar café.

"Apesar de tudo, ele é meu filho, mas a verdade é que já nem eu nem o meu marido temos saúde suficiente para o ajudarmos. Ele na rua não vai ficar, mas aqui em minha casa também não é o melhor. Ele devia ir para a casa de um dos dois filhos", disse ao CM Graça Costa, mãe de José, que não esconde o desgosto de uma das suas nove crias se ter transformado num assassino.

"O meu filho podia ser o senhor de Amarante. Era muito rico, mas perdeu tudo. Desgraçou a vida quando deixou a mãe dos filhos e foi viver com a Paula", conta, sem esconder a amargura de quem carrega há 16 anos o peso da vergonha.

A idosa guardou ainda na memória o momento em que soube do massacre. Recorda que chorou pelas vítimas do fogo e que depois gritou desesperada ao saber que o filho era um dos culpados.

"Gritei de horror, não queria acreditar. Ainda hoje tenho muita dificuldade em perceber tudo isto. Passaram muitos anos, sei que ele não queria fazer aquilo. Também foi a sua desgraça. A vida acabou para ele naquela madrugada", diz.

Mas um filho, diz esta mãe cansada junto ao muro da pequena casa, merece sempre perdão. E por isso Graça e o marido falam com ele todos os dias ao telefone. Com frequência lembram-lhe do mal que fez, não o deixam esquecer que tirou a vida a 13 pessoas. Mas dão-lhe a mão que precisa. E abrem-lhe agora a porta para o regresso.

"Dizemos-lhe muitas vezes que agiu mal e ele pede para mudar de assunto. Sabe que errou muito, acredito que está verdadeiramente arrependido", continua Graça, enquanto se queixa de que as suas parcas condições de vida não permitirão que o filho tenha uma vida digna. "Agora que precisávamos já de quem tomasse conta de nós, vamos cuidar dele? Não tenho forças", diz, garantindo que o filho já lhe pediu até para ficar na sua casa, num colchão do chão. "Ele também tem o direito de querer ser livre?", pergunta-se.

Graça teme represálias. Apesar de o relatório da Reinserção Social indicar que José não teve problemas nas saídas precárias, esta mãe sente que ainda poderá haver sede de vingança. E teme por retaliações.

"Nos primeiros tempos foi muito complicado. Os irmãos do José chegaram a ser confundidos com ele e algumas pessoas fizeram ameaças. Tenho receio do que possa acontecer. Sei que passou muito tempo, mas a verdade é que ainda está muita gente a sofrer com o que ele fez", conclui.

ATO HORRENDO

José continua a ter a visita dos filhos na cadeia. Hoje adultos, ainda têm muita dificuldade em aceitar que o pai cometeu um ato horrendo. Decidiram, no entanto, desde cedo, ajudá-lo a carregar o peso da culpa. E nunca o abandonaram, ao contrário de Paula Novais, a mulher que durante poucos meses ostentou usar o apelido Queirós. "Os filhos visitam-no muitas vezes na cadeia. Em algumas saídas precárias até já ficou na casa da filha", adianta outro familiar.

O bom comportamento de José Queirós na cadeia de Paços de Ferreira valeu-lhe a oportunidade de trabalhar desde há um ano no stand de móveis, situado no exterior do estabelecimento prisional. Também a reforma que aufere há alguns meses e que a cadeia não lhe permite que gaste levaram-no a amealhar algum dinheiro. Acredita que serão migalhas comparadas com a fortuna que ostentara. Mas permitem que ajude os pais, também eles reformados, caso ali vá viver quando sair em condicional.

O dia em que cruzará as portas da cadeia para não mais voltar é ainda uma incógnita. Não chega o parecer da Reinserção Social, a última palavra cabe agora aos juízes do Tribunal de Execução de Penas. José Queirós tem de aguardar. Poderá ser o dinheiro que um dia teve e desbaratou numa guerra pelo controlo do mundo da prostituição que voltará a fechar-lhe as grades por mais alguns anos. Só aos 5/6 da pena - faltam ainda cinco anos - é que a liberdade é imediata. A decisão deverá ser conhecida nos próximos dias.

CORPOS QUEIMADOS SEM FUGA POSSÍVEL

Às quatro da manhã de 16 de abril de 1997, um automóvel Rover estacionava à porta do Meia Culpa. Três homens, de luvas e gorros escuros, saíram do carro e entraram no bar. Um estava armado de caçadeira, os outros levavam cada um o seu revólver. Regaram mesas e sofás com gasolina, trancaram lá dentro clientes e alternadeiras, no meio do fogo. À entrada dos bombeiros, doze corpos estavam amontoados junto a uma porta e a décima terceira vítima do fogo morreu um dia depois no hospital. Só vinte e duas pessoas conseguiram sobreviver à chacina de Amarante.

Meia culpa José Queirós Diamante Negro
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