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Correio da Manhã

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MÃO MORTA: 20 SEGUNDOS

Adolfo Luxúria Canibal já subiu ao palco de camisa de forças, cortou-se com uma faca até desmaiar. Vinte histórias da banda que foi cabeça de cartaz em Paredes de Coura.
22 de Agosto de 2004 às 00:00
1 - SANGUE
Quando, em 1985, os Mão Morta participaram no Concurso de Nova Música Rock, no Porto, no 3º concerto do grupo, Adolfo Luxúria Canibal tinha inventado um dispositivo para espirrar sangue.
No início do espectáculo o vocalista cortava a mão com um machado, ao nível do pulso, enquanto uns balões, após serem pressionados por uma lâmina, acabavam por rebentar espirrando a tinta que os enchia. No final do concerto, um ‘roadie’, furioso, olhos injectados de sangue, agarrou-o pelos colarinhos para o obrigar a limpar o que tinha sujado.
2 - CAMISA DE FORÇAS
Na final do Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous, em 1986, Adolfo transformava-se em palco – de pessoa normal passava a louco furioso, com uma camisa de forças e respectiva maquilhagem. Durante a metamorfose deveria debater-se e gritar. Toda a gente, incluindo a Amélia Cabaça, que operava a transformação, achou a representação excepcional, profundamente convincente.
Na verdade, o vocalista gritava e torcia-se não a representar mas sim de dores, porque, depois de ter as mãos manietadas pela camisa-de-forças, recebeu em plenos olhos um jacto de laca que era suposto ser dirigido aos cabelos.
3 - BANDA ATOLADA
Quando, em 1987, foram tocar a Afife, alguém emprestou ao baixista Joaquim Pinto um jipe para transportar o material. Como o ensaio de som estava atrasado decidiram ir até à praia experimentar a viatura que atolaram em plena zona de maré. Horas depois, já noite cerrada, o chassis assente no chão, as rodas bem enterradas e o mar a subir, apareceu um empregado do restaurante situado nas dunas sobranceiras à praia que deu umas indicações para libertar o carro.
O homem estava tão excitado que gritava mesmo ao lado dos ouvidos do músico. Até que este perdeu a paciência e mandou-o, com um palavrão, ir gritar para outro lado.
4 - CALOTE
Em 1988 os Mão Morta deram um concerto na zona do Douro e, no fim do espectáculo, o promotor não lhes quis pagar. Na época viajavam sempre com um ‘dealer’ na comitiva que não esteve com meias-medidas: sacou de pistola, encostou-a à cabeça do promotor e obrigou-o a liquidar tudo o que devia.
5 - PENDURADO
Houve uma época em que, à excepção do Joaquim Pinto, ninguém do grupo tinha carro ou carta de condução. Assim, quando tinham concerto, ou iam com ele, caso estivessem em Braga, ou tinham que descobrir alternativas. Adolfo ia muitas vezes à boleia para os locais de concerto e, em 1989, para chegar a Ponte de Sôr, mais uma vez meteu-se à estrada de dedo esticado.
Depois de horas de espera, à hora do jantar, esbaforido, lá conseguiu chegar à terra do concerto. Ninguém estava preocupado com a sua ausência. Aliás, os colegas já tinham engendrado maneira de fazer o concerto sem o cantor.
6 - LATA
Em 1986 os mão Morta tinham um concerto marcado para Sintra. Na véspera, Joaquim Pinto, Miguel Pedro e o técnico Bula avisaram que não iam porque tinham uma festa. Para remediar a situação, Adolfo passou a noite a gravar ritmos com uma máquina de costura.
No dia seguinte, disse ao amigo Farinha, dos Ocaso Épico, com quem partilhavam o palco: “Temos um concerto especial para hoje, com ritmos pré-gravados, mas precisávamos de acompanhamento instrumental; nada de especial, é só seguir o ritmo pré-gravado e mantê-lo, que nós fazemos o resto”. Deram um espectáculo de uma hora totalmente improvisado, com os Ocaso Épico a urdirem o tapete sonoro (os ritmos pré-gravados deixaram rapidamente de se ouvir) e o vocalista a inventar palavras e performances.
7 - TIROTEIO
Em 1989 foram tocar à Feira de S. Mateus, em Viseu, e descobriram um ‘stand’ que vendia umas pistolas de fulminantes que eram réplicas exactas de modelos reais. Todos os elementos do grupo compraram o seu exemplar, desde Colts a Smith & Wessons e mesmo revólveres.
Passaram a tarde aos tiros, primeiro uns contra os outros, depois de carro, à janela, contra os passantes. No fim do jantar, quando se dirigiam para o concerto, pistolas no bolso, foram barrados pela polícia à entrada da feira, que julgou que os brinquedos eram armas verdadeiras.
8 - ESFAQUEADO
Em 1989 aconteceu o célebre concerto da facada, no Rock Rendez-Vous. Adolfo utilizava normalmente facas nas performances de palco, sempre sem consequências maiores que uns leves arranhões. Mas nessa noite o vocalista manipulava uma ponta-e-mola novinha em folha e, no meio da excitação, não se deu conta de que cada vez que passava a lâmina pela perna ela deixava um golpe.
Só ao sétimo corte é que sentiu como que um libertar de tensão na coxa e viu que estava banhado em sangue. Miguel Pedro, branco como cal, fazia sinais desesperados para acabarem, Carlos Fortes, impressionado, virou-se de costas, para não ver, o Joaquim Pinto e o Zé dos Eclipses, possessos, empurravam o vocalista, tentavam tocar-lhe no sangue que não parava de correr. No fim do concerto foi directo para o Hospital Santa Maria, onde acabou por desmaiar antes de ser suturado com vinte pontos.
9 - POLÍCIA
Em 1993, iniciaram a ‘tournée’ do ‘Mutantes S.21’ no Liceu de Mirandela. Durante o concerto alguns estudantes subiram ao palco para fazerem “stage-diving”. Quando aterravam na multidão, vinha um polícia admoestá-los. Quando regressaram para o ‘encore’, Adolfo pegou num tipo que tinha apanhado porrada de um polícia e disse-lhe: “Vais contar ao microfone o que aconteceu”.
Subiram ao palco, o rapaz a relatar a sua história e os polícias a puxarem-no. Gerou-se grande confusão, vários agentes subiram ao palco, Adolfo caiu, um polícia deu-lhe pontapés, o público começou a partir as janelas, alguém diz: “Atenção, que esse senhor é advogado”. Imediatamente o polícia que pontapeava o vocalista deixou de o fazer.
10 - SANGUE II
Quando a ‘tournée’ do ‘Mutantes S.21’ passou por Coimbra, em 1993, já os Mão Morta tinham um séquito de amigos que os seguiam para todo o lado. Entre eles marcava presença Tó Animal, vocalista dos Um Zero Amarelo que, depois do espectáculo, pelas ruas da cidade, juntamente com José Pedro Moura, decidiu despir-se e, os dois, com as calças nos tornozelos, divertiam-se a ver quem conseguia dar saltos mais compridos sem cair.
No dia seguinte o António Rafael foi acordado por José Pedro Moura que precisava de dinheiro para ir comprar umas calças, porque tinha perdido as dele. Pouco depois, era o Tó Animal que lhe batia à porta – tinha-se cortado no pé e o sangue não estancava. O quarto onde tinha passado a noite parecia o cenário de um crime, tanto era o sangue.
11 - DESTRUIÇÃO
O concerto mais mediatizado da ‘tournée’ de 1993 foi o que ficou conhecido como o da ‘destruição do Teatro-Circo’, em Braga. O público estava histérico. De repente, Adolfo vê-se no ar a mergulhar de cabeça por entre objectos que voavam, pessoas que se atiravam, uma confusão. O vocalista constata então que já não tinha o casaco, que a camisa estava meia despida, que as calças tinham perdido um botão.
Decidiu despir-se. Nisto, surgiu uma rapariga que se aproximou lentamente e começou a beijar-lhe o peito, iniciando a descida, beijando-lhe a barriga, descendo ainda mais, ultrapassando o umbigo. O cantor continuava a manear-se frente a ela, sem capacidade de reacção. Foi então que surgiu um segurança que a obrigou a descer do palco enquanto na plateia partiam-se cadeiras, arrancavam-se reposteiros, escacavam-se lustres.
12 - PRÉ-COMA
Em 1995 foram tocar ao Castelo de Bragança. Enquanto esperavam a vez de actuar, Adolfo entrou num estado pré-comatoso. Branco, não se segurava de pé e não conseguia sequer abrir os olhos. Estenderam-no no camarim e esperaram que aquilo passasse. Só que chegou a hora de subirem ao palco e o cantor longe de ter melhorado. Mas tinha que ser: dois ‘roadies’ agarraram-no, um de cada lado, e transportaram--no até ao palco. No momento em que iniciaram o primeiro tema e em que o cantor estava prestes a derreter-se no chão, falhou a luz.
Os ‘roadies’ foram buscá-lo e levaram-no de novo para o camarim. Na meia-hora que levou a restabelecer a corrente, Adolfo ficou minimamente operacional. De tal maneira que acabaram a noite no bar de um dos promotores, numa orgia de cerveja, o cantor a servir copos atrás do balcão enquanto o dono andava à pancada com o empregado.
13 - ARROGÂNCIA
Quando em 1999 foram tocar a Itália, a Arezzo, a maior parte dos Mão Morta pegou o avião até Bolonha onde alugaram um carro para atravessar os Apeninos. Estavam atrasados para um concerto nessa noite, pelo que sempre que um camião accionava o pisca o cantor deixava-se ir na mesma velocidade. Às tantas, Adolfo pára numa estação de serviço e, quando sai do carro, um TIR chega ao seu lado e salta lá de dentro um italiano furioso, com ar de quem vem para lhe bater.
Nisto, descem do carro Miguel Pedro, Vasco Vaz, Sapo, João Martins e o técnico de som, perguntando-lhe, em português e com arrogância: “O que é que queres?”. O homem lá se encolheu, balbuciando qualquer coisa sobre prioridades, meteu-se no camião e foi-se embora. Depois disto, não voltaram a deixar o vocalista conduzir.
14 - “GO AWAY!”
Quando foram tocar a Paris, em 1999, alojados na Avenida de Clichy, junto ao Pigalle, certa noite, depois de um jantar de mexilhões e batatas fritas no Léon, foram em grupo dar uma olhada às ‘sex-shops’. Estavam divertidos a ver as novidades sexuais quando surgiu um meliante que, tomando-os por um grupo de turistas, queria à viva-força levá-los para um espectáculo de sexo ao vivo.
Lá lhe explicaram em francês que não estavam interessados, mas o tipo não descolava. Até que o Vasco Vaz, perdendo a paciência, lhe agarra um dedo, olha-o nos olhos e, com uma voz surda e autoritária, exige: “Go away!”. O tipo desapareceu em menos de três segundos.
15 - TIROTEIO II
Depois do Ritual Rock de 2001, já na Ribeira do Porto, mesas e cadeiras começaram a ser atiradas pelo ar. Tiros, gritaria, pessoas pontapeadas até jorrar sangue. Tudo porque um cão tentou morder outro. Ao lado do ‘cubo’, em frente ao campo de batalha, o grupo que acompanhava o vocalista dos Mão Morta abandonou a mesa a correr enquanto o cantor se mantinha, impávido e sereno, a assar um chouriço. Uma cadeira passou-lhe uma tangente.
A esposa gritou “Adolfooo”. Ouviu-se um tiro, outro ainda. Vinte minutos depois, chegaram três ambulâncias acompanhadas por seis carros de polícia. Enquanto isso, o cantor continuava a assar chouriços, até que exclamou, em tom grave, a um qualquer tagarela de retorno ao lugar: “Quero silêncio!”.
17 - ABSORVIDOS
O concerto em Itália, no Festival Arezzo Wave, foi dos momentos mais marcantes do grupo, devido à reacção do público. Começaram a tocar, num palco ao ar livre, 40 graus de calor, cerca de 4 ou 5 mil pessoas dispersas pelo recinto, nas barracas de comida e bebida e apenas 200 ou 300 à frente do palco, com a atenção dirigida.
Ao quarto tema, já todo o público estava junto ao palco, totalmente absorvido pelo concerto, a saltar e a dançar como se conhecessem os Mão Morta há vários anos.
18 - ARDIDO
Estavam Miguel, Adolfo e Rafael em Tróia, sozinhos numa piscina com pranchas magníficas, quando foram chamados à recepção do hotel por causa de um telefonema. Rafael atendeu. Alguém da TVI lhe disse que a carrinha do grupo tinha ardido com os instrumentos lá dentro, mas que os ‘roadies’ estavam bem. Rafael ficou pelo menos um minuto agarrado ao telefone, sem fala.
Quando disse aos outros o que se passava, todos acharam que estava maluco, que não devia ter ouvido bem. Foram rapidamente para Lisboa e curiosamente a única coisa que funcionava era o sintetizador que vinha embrulhado no meio de uns cobertores, sem caixa de protecção.
19 - DESMAIADO
Num festival recente em Leiria, Adolfo, completamente embriagado, rodopiou durante uns minutos e quando abriu os olhos foi embater descontrolado no estrado da bateria. No final do espectáculo deixou-se cair de costas e bateu fortemente com a cabeça no palco, ficando imóvel durante alguns minutos.
No dia seguinte, convencidos que estaria perto do coma, telefonaram-lhe a perguntar se estava bem. Disse que sim, que estava a comer um peixinho na Nazaré e a beber um bom vinho branco. Que apenas lhe doíam as costas, mas que não se lembrava porquê.
20 - SANGUE III
Num concerto em Guimarães, no ano de 88, o guitarrista Zé dos Eclipses, ao carregar no pedal de distorção, viu que um espectador se agarrou com toda a força à perna. Quando o guitarrista conseguiu desenvencilhar-se pregou-lhe um grande pontapé na cabeça, pondo-o a sangrar. Todos pensaram que o tipo ia ficar furioso, mas afinal, lá estava ele aos saltos, a sangrar por todos os lados, como se nada tivesse acontecido.
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