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Correio da Manhã

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Mãos à obra

Têm menos de 30 anos e lançaram mãos à obra na criação de marcas próprias. empreendedores de sucesso made in Portugal
27 de Outubro de 2013 às 10:00
Quatro dos seis sócios da Slue, marca gerida por universitários
Quatro dos seis sócios da Slue, marca gerida por universitários FOTO: Vitor Mota

O café a seguir ao jantar era há anos um ritual entre os amigos que, além de morarem porta com porta, partilharam as carteiras da escola desde a adolescência. Mas naquele dia, em novembro de 2011, os então caloiros universitários juntaram-se mas não falaram dos temas habituais. Entre um café e uma cerveja, João, José e Tomás decidiram criar um negócio, abrir uma empresa. Estava dado o mote.

"O João começou a dizer que gostava de ver um dia as pessoas a passarem na rua com uma coisa que ele tivesse feito. Depois, foi como se uma lâmpada se tivesse acendido no meio da mesa. Pensámos: e porque não criar alguma coisa nossa?", recorda José Diogo Vinagre sobre o café que ficou para a história do grupo.

A lâmpada não só se acendeu como deu à luz a Slue, uma marca de roupa urbana, que tornou os três amigos jovens empresários antes dos 20 anos. "A mãe do Tomás tinha contactos no meio da publicidade, o que nos facilitou logo o preço final da estampagem, dos gráficos impressos, dos catálogos. Dois dias depois do café já estávamos a reunir com outro amigo, designer, para discutir ideias." O ano seguinte foi dedicado "a trabalhar a identidade da marca, a desenhar metas e objetivos. No verão de 2012 mandámos vir a roupa, em setembro fizemos a primeira sessão fotográfica (com amigas e amigos que a troco de uma peça de roupa posaram para as objetivas de outros amigos também ‘contratados’ a peças de roupa) e dia 1 de novembro – doze meses depois do tal café – lançámos a marca nas redes sociais". O Facebook ainda hoje serve de loja às coleções.

O nome Slue foi escolhido num jogo de palavras antes de descobrirem que era ainda mais certo no significado do que parecia no som: "Quer dizer um giro, uma volta de 180 graus." Foi o que aconteceu às vidas dos empreendedores: responsáveis por um negócio próprio, não deixaram de ser estudantes mas tornaram-se sócios e peritos em p alavras como capital, quotas, receitas e investimento. Passaram a preocupar-se com encomendas, retornos e lucros. Os pais dos três serviram de banco e deram o empurrão inicial com "um investimento de cinco mil euros", um empréstimo "que já foi devolvido" pelos filhos.

No início, a roupa "vinha de Leiria, era estampada em Odivelas e etiquetada em Benfica, numa senhora que fazia bainhas", um processo que além de demorado ficava caro aos bolsos estudantes, de tanta volta que dava antes de chegar a eles. "Até que descobrimos uma fábrica no Norte que faz a roupa para nós, de raiz, a coleção fica tal qual queremos e desenhámos." Também "é verdade que olhando para trás ganhámos muito calo com os erros, percebemos exatamente as dificuldades de abrir um negócio", partilha João Varanda de Carvalho, hoje com 20 anos.

O princípio da marca "foi alucinante, o próprio stock que tínhamos no início não estava preparado para a procura". Por motivos profissionais, Tomás vendeu a sua parte da empresa e entraram quatro novos elementos para dividir entre si os 30%. A José Vinagre e João Carvalho juntaram-se João Romão, João Fonseca, João Almeida e Diogo Coelho, de cursos tão diferentes como Arquitetura, Gestão Hoteleira, Comunicação Social, Economia e Gestão. Desde o início já venderam cerca de duas mil peças – camisolas, casacos, t-shirts, entre os 25 e os 45 euros –, mas os lucros têm sido usados "para investir mais. Agora criámos uma submarca, a Slue Snow Company, porque não havia nenhum produto português para o ski free style e o snow-board. Começámos como qualquer jovem universitário tem capacidade para começar, mas temos crescido e queremos um dia dedicar-nos exclusivamente a isto", partilham em uníssono.

AVÔ CONSELHEIRO

Mariana Silva também tem 20 anos mas já se dedicou exclusivamente à Aumar. Para trás ficou um curso profissional de publicidade e marketing que pouco lhe dizia e para a frente a possibilidade de ficar com uma antiga loja do avô. "Sempre gostei muito de cortar roupa e mandar fazer à costureira. Muitas vezes não encontrava aquilo que queria nas lojas e como surgiu esta oportunidade aproveitei, sempre quis estar ligada à moda." Na loja com tons de cor-de-rosa e detalhes de menina dá uso a uma máquina de costura que não abranda o ritmo e atende todos os pedidos. "Já tenho clientes que vêm aqui de propósito fazer encomendas de roupa, que gostam de reproduzir modelos que veem em revistas ou peças que já têm noutras cores e padrões. Tenho aqui tecidos, mostro e confeciono." Todos os dias de manhã é vê-la no metro entre Carnide, onde mora, e Arroios, onde tem a loja, carregada de sacos e saquinhos, tecidos e coisas que tais a pedido dos tais clientes a que tem de agradar. O avô, comerciante de eletrodomésticos, deu uma ajuda preciosa. "Fez-me obras na loja e deu-me imensas dicas para negociar, porque eu era muito tenrinha. O início foi complicado, a pressão de lidar com o público e a habituação a um emprego a tempo inteiro em que sou eu a responsável."

O investimento inicial também foi suportado pela família, que prefere vê-la como jovem empresária do que infeliz com os estudos. Nos expositores, além das peças desenhadas por ela, Mariana tem peças de fornecedores externos, que escolheu de acordo com o seu gosto e carteira de possibilidades. Além de roupa tem acessórios, como carteiras e bijutaria, que enfeitam a montra. "Tenho um ponto a favor, que é ter um espaço físico para mostrar a roupa, mas tenho de investir forte nas redes sociais, porque os mais jovens compram muito pela internet."

Que o digam Ricardo e Frederico Pereira, irmãos e sócios a tempo inteiro em Alenquer. É no Facebook que a marca que criaram em 2008 surgiu e é por lá que tem crescido a um ritmo de fazer inveja a muitos empresários com décadas de negócio. Tinham 20 e 22 anos quando tudo começou. Quando uma noite, em frente ao sofá da casa onde moram com os pais, apresentaram um projeto rigoroso sobre a empresa que sonhavam. "Eles no início acharam a ideia um bocado esquisita, mas deram-nos essa hipótese e emprestaram-nos dinheiro para avançarmos", explica Ricardo, licenciado em Design de Equipamento. Frederico, com o diploma em Design Gráfico, sorri com a lembrança. "Mandámos fazer as primeiras t-shirts e resolvemos testar o feedback no Campeonato do Mundo de Bodyboard, em Sintra."

Ficaram no último stand, numa fila de doze, mas no fim do evento perceberam que as 130 t-shirts vendidas em três dias eram motivo de orgulho: "Ninguém nos conhecia, mas vendemos mais do que qualquer outro stand." Estavam lançadas as bases para a Choose – numa altura em que o site ainda estava em construção. "O nosso segredo é fazer. Baseamo-nos muito no espaço que nos rodeia, nas coisas que vemos, criamos conceitos fora do conceito da marca e produzimos coleções seja em que altura do ano for", conta Frederico. A empresa dos irmãos dedica-se – além da moda – ao design e aos eventos, numa trança sólida.

"Temos uma equipa grande de patrocinados em todo o tipo de desportos – de água, urbanos, coletivos, do futebol ao paintball – e contratámos recentemente o cantor Sam The Kid", explicam. Já se viu que esta dupla não brinca em serviço. E como poupar custos é a palavra de ordem, nada como meterem eles mesmos mãos à obra para construir o escritório da empresa. "É o pedreiro, o auxiliar do pedreiro e nós os dois somos os trolhas. Todos os meses o pedreiro vem dizer: já pouparam x em pessoas e nós: boa!" Todos os dias o pensamento é este. "Por exemplo, fazemos as contas a quanto custa alugar uma máquina fotográfica para sessões de fotos. Então fazemos um evento que nos permita comprar a máquina, poupando o dinheiro do aluguer. Fazemos os catálogos com amigos e amigos de amigos, é um ambiente familiar."

Ricardo e Frederico já puseram os pais a vestir Choose e têm o sonho de um dia "criar uma loja oficial da marca no centro de Lisboa. Mas damos um passo de cada vez. Podíamos ir a lojas tentar vender o nosso produto, mas estamos a criar uma identidade, queremos um dia chegar com a marca a uma loja e que ninguém consiga dizer que não", partilham. No braço tatuaram Choose. Porque Choose, em inglês, significa ‘tu escolhes’ em português. E eles escolheram este caminho. "Vivemos da Choose porque ainda estamos na casa dos nossos pais e não temos renda para pagar. Dá-nos para as prestações das carrinhas, para os investimentos com a marca e para tudo o resto. Um dia esperemos que dê para tudo."

PRECISO É TER IDEIAS 

A Caia na Praia de Inês Fortunato caiu tão bem no go(s)to que a jovem de 24 anos deixou o emprego numa agência de publicidade para se dedicar exclusivamente à marca que criou. E o que vende Inês? Almofadas de praia. "No verão de 2012, a minha almofada de praia, daquelas insufláveis, estragou-se e não consegui encontrar uma em lado nenhum à venda. Então pensei: vou fazer a minha própria almofada de praia." Depois pensou novamente: "Se eu sinto esta necessidade, há mais pessoas que sentem." Em pouco tempo pôs em prática uma ideia que viria a invadir as praias portuguesas nesse e no verão seguinte. "Nas duas temporadas vendi sete mil unidades, o que significa que consigo viver da Caia. Deixei o meu emprego porque achei que numa altura em que o mercado está como está era melhor investir num projeto meu e estar-lhe dedicada por inteiro."

Agora, com o verão ao longe e a praia vazia, Inês dedica-se a pensar na coleção do próximo ano da Caia. É ela que escolhe os tecidos, mas as almofadas são feitas no norte do país, numa fábrica que ficou feliz da vida com mais trabalho. "Sinto que desde que criei o meu negócio que há mais gente a querer ter uma ideia também, a pensar naquilo que falta no mercado para poder vingar e isso é muito positivo para o país." Mais não seja porque estes jovens não se queixam da crise nem engrossam as filas do desemprego em Portugal. D

CAIXA

O PERFIL DO JOVEM EMPREENDEDOR

Um estudo da Universidade de Coimbra concluiu que o estudante empreendedor é "tendencialmente do género masculino", tem mais de 26 anos e frequenta "cursos com maiores habilitações académicas". Mostra "uma maior tolerância ao risco e ao falhanço" em relação à generalidade dos seus colegas. Realizada no último ano letivo, a pesquisa, que ouviu mais de 1700 estudantes do ensino superior, revela que "47% dos estudantes desejam vir a trabalhar por conta própria", tendo como "principal motivação a "realização pessoal" (59%) e como maiores receios a "incerteza de rendimentos" (62%) e a atual "conjuntura económica" (61%). Os trabalhadores-estudantes demonstram "menos receio na criação do próprio emprego do que a média dos estudantes", nos fatores "insegurança de emprego", "possibilidade de enfrentar um falhanço pessoal", "possibilidade de a empresa ir à falência" e "assumir demasiada responsabilidade".

 

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